RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Com dez anos de operação recém-completados, a hidrelétrica de Belo Monte é vista por cientistas como um alerta para os riscos de expansão da geração hidrelétrica na Amazônia, defendida pela área energética do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Estudos publicados em revistas científicas sobre os impactos do megaempreendimento apontam, por exemplo, risco de colapso da fauna aquática do rio Xingu e aumento do desmatamento na região de Altamira, Pará, onde está a usina hidrelétrica.

Lançam dúvidas também sobre a sustentabilidade da geração hidrelétrica na Amazônia em relação a outras fontes de energia, já que o alagamento de áreas antes ocupadas por florestas gera elevadas emissões de gases do efeito estufa.

Belo Monte começou a gerar energia em maio de 2016, sob a oposição de povos indígenas da região, de entidades ambientalistas e de cientistas. Com capacidade total de 11,2 mil megawatts (MW), é a maior usina hidrelétrica em solo brasileiro.

Para driblar os entraves ambientais, foi construída sem um grande reservatório ?tipo de projeto conhecido como hidrelétrica a fio d'água? e com um canal artificial de alimentação das turbinas que evitou o alagamento de uma área conhecida como Volta Grande do Xingu.

Essa área, de 130 quilômetros de extensão, é justamente hoje a mais afetada. O desvio de água para as turbinas alterou o regime hídrico da região, que convivia com períodos de secas e cheias, pondo em risco espécies importantes para a economia local.

Dois estudos publicados em 2025 e 2026 concluíram que essa mudança alterou o perfil de peixes na região, que passaram a ter menos acesso a alimentos e a locais de reprodução em áreas que antes eram alagadas.

"A redução na oferta de comida leva a uma diminuição no tamanho corporal final, no tamanho dos ovos e na idade de puberdade, além de reduzir a biomassa total dos peixes", dizem os autores de um deles, que investigou os impactos sobre uma espécie de bagre da região.

As projeções feitas pela equipe coordenada pelo zoólogo Erival Gonçalves Prata, da UFPA (Universidade Federal do Pará), indicam que, sob limitação severa de alimentos, os indivíduos da espécie terão dificuldade em atingir a maturidade, com "cessação reprodutiva completa".

Outras espécies vêm sofrendo problemas semelhantes, aponta pesquisa coordenada por Nathalia Napole, doutoranda em ecologia pela UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte). O trabalho identificou uma mudança no perfil dos peixes pescados na região.

A captura de espécies centrais para o consumo e o comércio, como o curimatã, caiu e foi substituída por espécies menos desejadas, como o pacu. Como o bagre, o curimatã também depende das cheias para se alimentar e reproduzir.

A troca de peixes maiores por menores pode explicar a queda de 34% na biomassa capturada pela atividade pesqueira na região após o início das operações da usina. Sem o curimatã, o estudo estima que o volume de pesca da Volta Grande pode cair 78%, com forte impacto sobre as comunidades locais.

"Há mudanças emergentes na pesca de subsistência em Belo Monte, trazendo potencial risco de perdas econômicas, ecológicas e socioculturais", disse Nathalia à Folha de S.Paulo.

"Dado o crescente número de empreendimentos hidrelétricos na Amazônia ?juntamente com as pressões combinadas de seca, incêndios, desmatamento e mudanças climáticas? os impactos sobre a fauna aquática podem ser graves e irreversíveis", alertam os pesquisadores do estudo sobre os bagres.

Estudo coordenado pelo professor Miquéias Freitas Calvi , da UFPA, aponta que os impactos se estendem para muito além das margens do rio Xingu.

A atração de mão de obra para a construção da usina provocou mudança significativa no perfil da produção agropecuária local, diz o trabalho. A mão de obra rural mais jovem deixou a lavoura de grãos e hortifrutigranjeiros para trabalhar na cidade.

"A fuga de trabalhadores diminui a produção local, aumenta a importação de alimentos e converte a matriz produtiva em atividades com menor necessidade de mão de obra, principalmente a criação de gado", afirma Calvi.

A substituição de culturas de hortifrutigranjeiros para consumo local, como feijão e milho, pela pecuária e o cacau gerou "desmatamento intensivo" na região, segundo os autores.

Além do desmatamento, há outros impactos climáticos, destaca estudo coordenado por Dailson Bertassoli Júnior, doutor em geociências pela USP. A pesquisa dele concluiu que a emissão de gases do efeito estufa pelo reservatório da usina é três vezes maior do que antes de sua construção.

Belo Monte apresenta baixo índice de emissões por energia gerada perto de fontes fósseis, mas, como outras hidrelétricas na Amazônia, tem elevadas emissões por área ocupada, um impacto que não foi considerado no licenciamento ambiental da usina, diz o cientista.

"Existem emissões significativas saindo do reservatório", diz ele. "Isso precisa ser considerado quando se pensar em outro projeto hidrelétrico na Amazônia."

Autor de outra pesquisa sobre emissões, o pesquisador Kleiton Rabelo de Araújo, do Centro de Pesquisa Ambiental do Instituto Smithsonian, destaca a elevada emissão de metano pelo reservatório, em razão da decomposição de matéria orgânica alagada.

A pesquisa estima que cerca de metade do metano é emitido em bolhas, o que dificulta seu processamento por outros organismos e permite a liberação direto na atmosfera, principalmente quando a água passa pelas turbinas.

A Norte Energia, concessionária da usina, afirma que, em dez anos, Belo Monte gerou energia limpa e renovável "suficiente para atender todo o país por cinco meses sem precisar recorrer a outras fontes".

"Essencial para o Sistema Interligado Nacional, o empreendimento atende a uma média de 5% do consumo do país por ano. Nos horários de pico de consumo, produz até 16% da demanda nacional", diz a empresa.

A Norte Energia declara ainda que "segue cumprindo os compromissos socioambientais previstos no licenciamento, conduzido pelos órgãos de controle e fiscalização". Construiu três hospitais, 63 unidades básicas de saúde e investiu em 99 escolas.

Diz também que reflorestou uma área equivalente a 3.000 campos de futebol, além de realizar ações voltadas para comunidades indígenas como atividades produtivas, proteção territorial, saúde e educação. "O total investido passa de R$ 8 bilhões", acrescenta a empresa.

O projeto é alvo de uma ação na Comissão Interamericana de Direitos Humanos. "Ribeirinhos e pescadores foram completamente ignorados, excluídos da consulta pública mesmo sendo totalmente afetados", diz Marcella Ribeiro, da Associação Interamericana de Defesa do Meio Ambiente.

O processo pede recuperação do rio, reparações para essas famílias e recomendação para que projetos como Belo Monte não se repitam. A prioridade, porém, continua Marcella, é decidir sobre a água. "Precisamos de um esquema de partilha para que a população volte a pescar e se locomover. É preciso voltar a garantir a vida ambiental no Xingu."