RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O Brasil acumula décadas de pesquisas sobre desigualdades raciais, mas ainda conhece pouco os mecanismos que produzem essas diferenças e como o racismo opera no cotidiano. A avaliação é do professor e sociólogo Luiz Augusto Campos, coordenador do DARA (Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo), núcleo de pesquisa lançado na sexta-feira (26), no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (Muhcab), na região central do Rio de Janeiro.

O grupo é vinculado ao Iesp-Uerj (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio) e reúne pesquisadores de diferentes áreas para produzir, integrar e analisar dados sobre racismo e políticas antirracistas, além de desenvolver metodologias para medir manifestações discriminatórias no país.

"O Brasil tem uma grande sociologia das desigualdades raciais, uma grande sociologia da raça, mas nós temos pouca sociologia do racismo", afirmou Campos à reportagem. "Uma coisa é descrever e analisar as desigualdades raciais. Outra é compreender como o racismo produz sistematicamente essas desigualdades."

Segundo o pesquisador, embora haja ampla produção acadêmica sobre diferenças raciais em indicadores como renda, escolaridade, violência e mercado de trabalho, ainda são escassos os estudos capazes de identificar de forma mais precisa os mecanismos pelos quais a discriminação se manifesta e reproduz desigualdades.

Um dos obstáculos, afirma, está na dificuldade de acessar e integrar bases de dados públicas capazes de acompanhar a trajetória das pessoas ao longo da vida.

"O Brasil tem muitas bases de dados boas racializadas, mas elas não são integradas. Para entender os efeitos do racismo, o ideal seria acompanhar as trajetórias das pessoas desde a infância até a vida adulta. Em países nórdicos, como a Islândia, esse tipo de acompanhamento é mais comum. Aqui, ainda enfrentamos dificuldades legais e institucionais para fazer isso", diz.

Campos também critica a interpretação dada à LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) por alguns órgãos públicos, o que, segundo ele, tem restringido o acesso de pesquisadores a informações sobre raça e cor.

"As instituições públicas são obrigadas a coletar a variável raça-cor justamente para mensurar desigualdades, mas muitas vezes esses dados não são liberados para pesquisa. Vivemos uma situação paradoxal", afirma.

Além da integração de bases de dados, o DARA pretende investir em pesquisas de opinião para compreender crenças, percepções e estereótipos relacionados ao racismo. Entre os projetos está a elaboração do que os pesquisadores pretendem transformar no mais amplo levantamento já realizado no país sobre percepções da população a respeito de raça e discriminação.

Para Campos, pesquisas tradicionais tendem a subestimar o problema ao perguntar diretamente se uma pessoa se considera racista.

"Num país onde o racismo é crime e historicamente negado, praticamente ninguém vai responder que é racista. O desafio é desenvolver medidas indiretas, capazes de captar como o racismo aparece nas situações cotidianas", afirma.

O sociólogo avalia ainda que o debate racial vive um momento de refluxo, após anos de expansão no espaço público.

"A gente viveu nos últimos anos uma expansão da temática racial, mas agora vive um backlash, um retrocesso da temática racial", diz. "Ninguém mais se sensibiliza apenas com dados gerais sobre desigualdade. Nosso desafio também é comunicacional: que tipo de dado precisamos produzir e como comunicá-lo para reforçar a compreensão de que o racismo continua estruturando a sociedade brasileira."

Entre as pesquisas já em andamento estão estudos sobre a inserção profissional de egressos das políticas de cotas, análises sobre candidatos negros considerados competitivos nas eleições e levantamentos sobre desigualdades raciais no funcionalismo público.

O grupo também planeja realizar experimentos de campo para medir discriminação em situações concretas. Um dos projetos-piloto deverá avaliar possíveis barreiras raciais no mercado imobiliário. Eles devem criar perfis fictícios com características semelhantes, variando apenas raça e cor, para verificar diferenças no tratamento dado durante a busca por imóveis.

Campos afirma que a criação do DARA também reflete mudanças ocorridas dentro da própria universidade. Cerca de 80% dos pesquisadores do núcleo são negros, muitos pertencentes à primeira geração de estudantes cotistas que chegou à pós-graduação.

"Hoje temos a primeira geração de doutores e doutoras oriundos das cotas. O DARA também é uma forma de reconhecer esse sucesso e criar espaço para que esses pesquisadores produzam conhecimento e formulem novas perguntas sobre o racismo brasileiro", afirma.