RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Uma operação do Ministério Público do Ceará prendeu, nesta terça-feira (30), 11 advogados suspeitos de integrar uma rede usada para transmitir ordens de chefes de facções criminosas presos a integrantes das organizações em liberdade.

Segundo a investigação, os profissionais atuavam como intermediários entre lideranças encarceradas e criminosos fora do sistema prisional, repassando mensagens que ajudavam a manter a estrutura das facções. Uma advogada que mora em São Paulo é considerada foragida.

Os nomes dos suspeitos não foram divulgados.

A reportagem procurou a OAB- CE (Ordem dos Advogados do Brasil no Ceará), por volta das 14h30 por email, para comentar a operação e informar se pretende adotar medidas disciplinares em relação aos advogados investigados, mas não havia obtido resposta até a publicação deste texto.

De acordo com o Ministério Público, alguns advogados extrapolavam o exercício da profissão e funcionavam como mensageiros dos grupos criminosos durante visitas a detentos na Unidade Prisional de Segurança Máxima do Ceará. As mensagens incluíam ordens e orientações destinadas a familiares, outros presos e integrantes das facções em liberdade.

Segundo os investigadores, os recados tratavam da reorganização das facções, expansão territorial, cooptação de novos integrantes, consolidação de alianças criminosas, compra de armas, circulação de drogas e outras estratégias para manter as atividades ilícitas mesmo com as principais lideranças presas.

A apuração teve início depois que o Tribunal de Justiça autorizou, em novembro de 2025, a captação de áudio e vídeo nos parlatórios da penitenciária de segurança máxima. As gravações feitas entre 8 de dezembro de 2025 e 15 de janeiro deste ano, segundo a Promotoria, revelaram um padrão recorrente de conversas entre presos e advogados, com uso de linguagem codificada para tratar de assuntos ilícitos.

Para os investigadores, o material também mostrou que, mesmo presos e respondendo a processos ou cumprindo pena por integrar organizações criminosas, os detentos continuavam exercendo funções de comando dentro das facções.

A Secretaria da Administração Penitenciária e Ressocialização do Ceará afirmou à Folha que a captação de áudio e vídeo nos parlatórios é realizada em ação integrada com o Ministério Público, mediante autorização do Poder Judiciário, e que a operação desta terça-feira é resultado desse trabalho conjunto.

A operação, chamada Mensageiros do Crime, cumpriu 29 mandados de prisão e 29 de busca e apreensão em Fortaleza, Aquiraz, Caucaia, Itaitinga, Maracanaú, São Gonçalo do Amarante e também em São Paulo.

Entre os alvos estavam 17 chefes de facções criminosas. Quinze já estavam presos na Unidade Prisional de Segurança Máxima do Ceará, e outros dois foram detidos em liberdade. Os investigadores também pediram o bloqueio de R$ 20 milhões das contas dos suspeitos.

Durante a operação, foi apreendida uma Range Rover blindada com um dos chefes de facção, além de celulares, notebooks e joias.

Segundo o Ministério Público, as conversas interceptadas indicam que os advogados não atuavam de forma isolada. A investigação aponta que eles mantinham vínculos entre si, faziam referências mútuas durante os diálogos monitorados e visitavam repetidamente os mesmos presos.

O elevado número de atendimentos registrados por alguns profissionais, de acordo com a investigação, seria incompatível com o padrão habitual da assistência jurídica e reforçaria a hipótese da existência de uma rede estruturada para o repasse de mensagens.