PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - Ao menos 15 pessoas, entre elas um médico oncologista, foram alvo de uma operação que investiga supostas fraudes no fornecimento de medicamentos de alto custo destinados a pacientes com câncer, custeados com recursos públicos.

As investigações começaram em setembro de 2025 após uma farmacêutica da Santa Casa de São Gabriel, no Rio Grande do Sul, identificar erros de digitação e cores diferentes na embalagem do Enhertu, medicamento usado no tratamento de câncer de mama. A profissional entrou em contato com o laboratório responsável, que analisou o medicamento e acionou a polícia.

Segundo o delegado Daniel Severo, responsável pelas investigações, a organização criminosa atuava para manipular processos destinados à aquisição dos medicamentos na Justiça. A suspeita é de que os orçamentos dos remédios pedidos em ações judiciais eram feitos com empresas vinculadas entre si, que simulavam concorrência para direcionar as compras e elevar artificialmente os custos.

Foram identificadas 39 vítimas em potencial, afirma Severo, das quais 7 morreram durante o tratamento -ao menos duas, contudo, faleceram antes mesmo de receber o medicamento obtido na via judicial. A relação entre as mortes e os crimes investigados está em apuração.

Nesta segunda-feira (29) foram cumpridos 57 mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão.

Um dos investigados, o empresário Lisandro Henrique Hermes foi preso em flagrante depois que policiais encontraram medicamentos com indícios de adulteração e falsificação em sua residência. A reportagem não localizou a defesa de Lisandro, que é suspeito de ter ligação com as empresas que apresentavam os orçamentos.

Já o médico oncologista Fe rnando Borges da Silva é suspeito de receitar medicamentos de alto custo a pacientes e indicar a eles o caminho para obtê-los por via judicial, sugerindo o nome de advogados que, segundo a investigação, articulavam o fornecimento com o empresário.

Procurado, o advogado Daniel Tonetto, responsável pela defesa do médico, disse em nota que não houve prática ilícita e que o caso será esclarecido no curso das investigações.

De acordo com o delegado, as evidências apontam para um esquema que teria transformado a judicialização da saúde em um negócio criminoso. "A suspeita de comercialização de medicamentos adulterados ou falsificados torna os fatos ainda mais graves, pois ultrapassa a questão patrimonial e alcança diretamente a saúde e a vida dos pacientes", disse Severo.

Os mandados foram cumpridos nas cidades gaúchas de São Gabriel, Rosário do Sul, Santa Cruz do Sul, Santa Maria, Sapiranga, Campo Bom, Canoas, Taquara, Porto Alegre, Gravataí e Tramandaí.

Farmácias nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás também foram alvo da operação. A suspeita é que esses estabelecimentos participassem do esquema para compor orçamentos e simular concorrência.

Os medicamentos apreendidos ainda serão enviados para perícia. Segundo o delegado, a análise do material poderá levar à identificação de novos suspeitos e novas vítimas. Ao menos R$ 2,5 milhões em bens e valores dos investigados foram bloqueados pela Justiça.