Dentro de dois meses, o ativista Erleyvaldo Bispo deixará a cidade de Lagarto, no agreste de Sergipe, para cruzar cerca de 10,5 mil quilômetros até Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos.

O sergipano e a bacharel em direito Laura de Azevedo Viana são os dois brasileiros que fazem parte de um grupo de 100 jovens, de 75 países, selecionados na última terça-feira (29) para participar da Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a Água. O encontro será realizado entre 8 e 10 de dezembro.

Em comum, Erleyvaldo e Laura têm vivências na dificuldade de acesso à água potável.

Por ter vivido a falta dágua, acredito que isso me coloca em uma posição de pessoa que, de fato, valoriza a água, diz Erleyvaldo à Agência Brasil.

Encontro da ONU

O encontro, organizado pelo país árabe em conjunto com o Senegal, será a terceira Conferência da ONU sobre Água desde 1977 a segunda foi em 2023.

A conferência é dedicada a acelerar a implementação do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6) das Nações Unidas, que trata de garantir a disponibilidade e a gestão sustentável da água e do saneamento para todos.

São esperadas delegações de governos, organizações internacionais, representantes da sociedade civil e do setor privado e pesquisadores que atuam na área de acesso à água.

Jovens selecionados

Os 100 jovens foram escolhidos pelo programa Global Youth Water Envoys (Enviados Globais da Juventude para a Água, em inglês), promovido pelo Centro da Juventude Árabe (AYC, na sigla em inglês para Arab Youth Center), organização sem fins lucrativos sediada em Abu Dhabi.  

O programa selecionou jovens que tenham algum tipo de relação com o acesso à água, seja ativismo, vivência e programas comunitários, por exemplo. Cerca de 2 mil pessoas se candidataram.

O Global Youth Water Envoys é organizado em parceria estratégica com o Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos.

A partir de agora, os escolhidos passarão por um período de dois meses de preparação para que estejam aptos a colocar as prioridades da juventude e as realidades hídricas locais no diálogo global.

A intenção dos organizadores é que a juventude não seja mera espectadora das discussões globais, mas tenha participação direta nos resultados da conferência.

Seca, água e soberania

Erleyvaldo Bispo, de 28 anos, conta que nasceu e foi criado em uma região do agreste sergipano em que comunidades inteiras sofriam com poços secos, dependiam de carros-pipa e se fiavam na esperança de a chuva chegar.

Essa vivência foi uma das motivações para que ele criasse a organização não governamental (ONG) Águas Resilientes, que se identifica como uma entidade que desenvolve estratégias para o acesso à água potável.

O jovem se considera um sobrevivente da falta dágua e diz que vai para Abu Dhabi representar muito mais do que a si próprio.

Vou levar a voz de milhares de brasileiros que acordam todos os dias sem saber se terão água para beber, afirma.

 

Rio de Janeiro (RJ) 04/11/2024 - Erley Bispo cofundador do F20, representantes de favelas indicam desafios para o G20. Foto: Erley Bispo/Arquivo Pessoal

Erley Bispo também foi cofundador do F20, que reuniu representantes de favelas para o G20. Foto: Erley Bispo/Arquivo Pessoal

Em junho, antes mesmo de saber que seria um jovem enviado, Erleyvaldo organizou um evento preparatório no Rio de Janeiro, acompanhado pela Agência Brasil.

Na bagagem para o Oriente Médio, ele levará preocupações imediatas, como o Super El Niño, que pode resultar em seca em algumas regiões; e apreensões mais distantes, como o futuro da Amazônia, que pode influenciar a disponibilidade de água.

Existe uma possibilidade de colapso da Amazônia a partir de 2050, cita ele, baseado em um estudo científico.

Erleyvaldo antecipa que chegará à Conferência da ONU sobre a água com o objetivo de mostrar a relação entre acesso à água e soberania. Falar sobre água é falar sobre soberania nacional, diz.

Minha grande bandeira lá é exatamente trazer luz para o investimento em projetos e iniciativas voltadas à questão do acesso à água, completa, acrescentando que essa deve ser uma prioridade no chamado Sul Global, conjunto de países em desenvolvimento, notadamente na América Latina, África e Ásia.

Defesa do meio ambiente

A bacharel em direito Laura de Azevedo Viana, de 23 anos, é o segundo nome brasileiro da lista de jovens. Laura é pesquisadora vinculada à ONG Instituto Brasileiro de Direito do Mar e tem atuação voltada à governança dos oceanos e ao racismo ambiental.

Ela mora em Cajazeiras, bairro de Salvador que classifica como periférico e de população de maioria negra. Ela contou à Agência Brasil que foi lá onde percebeu o chamado racismo ambiental.

Já passei por diversas situações em que o fornecimento de água era cortado por dias, já chegou a durar semanas, um bairro inteiro sem água, relembra.

 

Isso não acontece em bairros nobres de Salvador, ocupados por pessoas que possuem melhores condições financeiras e são brancas, completa.

Laura espera que a juventude seja ouvida plenamente na conferência de dezembro. A pesquisadora acredita que o ativismo pode andar de mãos dadas com o conhecimento científico.

A pesquisa ajuda a comprovar essa desigualdade, e quem escreve sobre esses temas hoje influencia o que o direito dirá amanhã, assinala ela, apontando comunidades indígenas, quilombolas e costeiras como as primeiras afetadas pela degradação da água.

Minha principal bandeira é a proteção dessas comunidades, junto com a participação verdadeira da juventude. Precisamos de um espaço institucional permanente, e não apenas de eventos simbólicos, para sermos ouvidos, enfatiza.

Questionar pressupostos

De acordo com o ministro para Assuntos da Juventude dos Emirados Árabes e vice-presidente do AYC, Sultan bin Saif Al Neyadi, os jovens enviados participarão da conferência como colaboradores qualificados, preparados para questionar pressupostos e representar as realidades de comunidades que, com bastante frequência, são objeto de discussões sem que suas vozes sejam devidamente ouvidas.

O valor de sua participação será definido pelo conhecimento que trazem, pelo rigor de sua preparação e por sua capacidade de transformar experiências em propostas que possam ser colocadas em prática pelos tomadores de decisão, acrescenta.

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Agência Brasil - Jovens que sofreram com falta de acesso à água estarão em fórum da ONU