Mudanças de rituais Com o passar do tempo alguns rituais na Páscoa
vão se perdendo na sociedade cada vez mais consumista

*Colaboração: Thaiene Riani
Edição: Ludmila Gusman
Design: Laura Martins Ferreira
Abril/2007

Dona Maria Josepha (foto) tem 86 anos e recorda os tempos da Páscoa quando era menina. "Durante a Semana Santa não se podia ouvir o rádio, não conversávamos muito em casa, não podíamos cantar, não existia baile no sábado de Aleluia. Na sexta-feira Santa quando levantávamos não podíamos varrer a casa, era um dia de tristeza e silêncio", diz.

Segundo ela, o Domingo de Páscoa era também um dia muito esperado pelas crianças, assim como nos dias atuais. "Eu e meus irmãos fazíamos os ninhos na horta. Nós quase não dormíamos para poder ganhar os ovos. Éramos tão inocentes que chegávamos a ver o coelhinho. Minha avó levantava de madrugada para colocar os ovos pra gente. Não tinha gosto de ovo não, tinha gosto de coelhinho", relembra com saudades.

Dona Josepha comta que os ovos, de galinha ou de pata, eram pintados e decorados, e explica o modo de preparo especial dos ovos de páscoa: "Primeiro nós passávamos a clara por fora e colocávamos folhinhas de avenca, depois embrulhávamos o ovo em um pano branco e amarrávamos com a linha e colocávamos para cozinhar com casca de cebola ou com alguma coisa que tingisse os ovos. Era lindo! Eu fiz muitos anos para meus filhos."

Sentido da Páscoa
Mas qual é o verdadeiro sentido da Páscoa? Que rituais devemos celebrar? Padre Expedito Castro (foto) ressalta que a Quaresma é o tempo em que os cristãos buscam a conversão. "A Páscoa significa vida nova é a maior festa cristã que celebramos porque proclamamos a Ressurreição, a vida nova de Nosso Senhor Jesus Cristo", explica.

Segundo o padre, os principais rituais católicos referentes à Páscoa ainda são celebrados com grande participação da comunidade. "Os fiéis participam muito da Semana Santa, especialmente na missa da Quinta-feira Santa, que é a missa de lava-pés, da Instituição da Eucaristia; na Sexta-feira Santa quando temos o Sermão do Descendimento da Cruz e a procissão do enterro; na Vigília Pascal na noite de sábado para domingo, e no Domingo da Páscoa, justamente porque celebramos a Ressurreição de Jesus".

A mudança de antigas tradições se deve, segundo o padre, ao surgimento de uma nova mentalidade, um novo modo de ver e pensar a Igreja, que parte tanto dos fiéis como dos próprios padres. Padre Expedito cita também o consumismo que acontece por ocasião de todas as grandes celebrações religiosas como a Páscoa e o Natal. "Na verdade, muitas pessoas acabam se preocupando com os presentes, ovos, e muitas outras coisas, e acabam esquecendo o verdadeiro sentido da Páscoa". Ele acredita que só a conscientização das pessoas, a partir do coração, é capaz de resgatar o verdadeiro significado das festas religiosas.

Mais consumo, menos religião
Atualmente, os rituais de consumo como a compra dos ovos de Páscoa e do bacalhau contam com maior participação da sociedade do que os rituais católicos. A antropóloga, Teresa Bellosi (foto), Doutora em Estudos Culturais, explica que isso ocorre porque a mudança dos ritos pascais se dá baseada na mudança da própria sociedade. "Nós estamos vivendo numa sociedade extremamente consumista, inclusive nos nossos rituais cristãos, como a Páscoa e o Natal. As festas, hoje, passam por uma relação de consumo, porque nossa sociedade está completamente pautada no consumo".

A antropóloga destaca também que esses rituais são importantes, mas devem ser repensados: "As pessoas hoje estão carentes de valores, estão carentes de auto-estima, estão carentes de pertencimento. Talvez esses rituais possam ressurgir com uma grande força, mas eles devem ser repensados pelo contexto em que serão inseridos. Então, se esses rituais são mais consumistas, devemos repensá-los pra dar outra abordagem, a abordagem da fé", conclui.


*Thaiene Riani é estudante de Jornalismo da UFJF. A matéria foi realizada
como atividade do processo de seleção para estágio no Portal ACESSA.com


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