Cecília Junqueira Cecília Junqueira 18/12/2015

Sobre o tempo de agir e o tempo de esperar...

pensamentoUma das maiores tragédias em ser abusador de álcool e drogas é a incapacidade permanente de criar metas e estratégias para alcançá-las. Pode até se ter o desejo (fonte primária da materialização),  mas o padrão desregrado e auto destrutivo do dependente químico dificulta a concretização dos objetivos, e muito;  geralmente fazer um curso novo, aquela viagem bacana,  manter a higiene pessoal ou a casa organizada, são costumes naturais de pessoas que estão na roda viva da vida, mas para o usuário de drogas, entra ano e sai ano o seu repertório se restringe à  falsa recompensa do prazer do uso da droga, é uma séria paralisação existencial.

O uso permanente de drogas é tão comprometedor para a saúde holística do indivíduo, que alguns especialistas afirmam que se você começou a usar drogas aos 18 anos e hoje tem 35, a sua idade emocional continua de 18 anos, (a idade que você começou a usar), pois na adicção ativa não se desenvolvem as habilidades cognitivas, sociais e emocionais de um adulto, é a famosa síndrome de Peter Pan, ou “síndrome do homem que nunca cresce”.

Se tem uma coisa que se ganha com a sobriedade e o viver sóbrio, é a aptidão de administrar e planejar a própria vida, paramos de somente reagir aos problemas e passamos a agir proativamente em busca de quem realmente somos de “cara limpa” e dos nossos quereres sem a máscara da droga...

E é incrível como tirando a droga, passa a sobrar tempo verdadeiramente para você, e é neste tempo livre que se constrói, dia após dia, sua recuperação, vai  se preenchendo o buraco que a droga deixou com sua nova maneira de viver.

É claro que não é sempre que se fica no controle de tudo, no controle de todo os passos da recuperação, (embora a abstinência seja um foco inegociável, pois dela nascem todas as outras conquistas), mas ao passar dos dias, aceite também o mistério da vida, a imprevisibilidades do caminho, exercite sentir paz mesmo com os problemas não resolvidos, a oração da serenidade nos ensina:   “ devemos aceitar aquilo que não podemos modificar  e ter coragem para modificar aquilo que podemos”...Essa oração nos habilita reconhecer que temos o tempo de fazer e o tempo de esperar, na filosofia chinesa essas forças são simbolizadas pelo yin (recolhimento, tempo de espera) e yang ( tempo de ação, movimento), no equilíbrio entre essas duas forças surge o amor, a cicatrização, recuperação, o perdão,  a reconciliação, a brotação...

O tratamento da dependência química se utiliza dessas duas potências curativas, tão antagônicas quanto complementares: a ação e a paciência: A ação deve ter um objetivo, mesmo que este objetivo mude depois, ter um foco garante a busca, o gás, o norte...A paciência exige aceitação e até em alguns momentos um pouco de resignação. A paciência reconhece que existe um poder superior à nós mesmos agindo sobre as coisas, é como uma inteligência divina que reage positivamente às nossas escolhas acertadas.

É incrível como a vida é capaz de devolver nós a nós mesmos quando  ajustamos e direcionamos nosso barco, (um pouco, todos os dias), a sorte e o merecimento costumam andar perto!

Um bonito fim de ano pra gente, junto e misturado calma e vigor!


Cecília Sertã Junqueira Rodrigues é Terapeuta Conselheira em Dependência Química, presta consultoria para empresas e escolas e aconselhamentos individuais em clínica.

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