Especialistas alertam para riscos de prática de exercício físico em excesso

Danos musculares e articulares são os mais comuns, mas atletas podem ter problemas de insônia e cardíacos

Lucas Soares
Repórter
27/02/2016

Quando a analista de marketing e jornalista Maressa Coelho sentiu uma forte dor na perna, lembrou imediatamente do puxado treino de hipertrofia da noite anterior. A lesão, causada por um esforço maior do que o corpo poderia aguentar, trouxe consequências sérias para a vida da profissional.

"Eu vinha de um ritmo de muito trabalho e exercício físico, malhava duas a três horas por dia. Meu quadro de stress era muito alto. Eu fiz um treino de hipertrofia e senti muita dor, mas considerei normal. No dia seguinte, trabalhei e, quando foi às 17h, eu tive febre. No outro dia, a febre não cessou. Fui ao médico, me recomendaram tomar um relaxante muscular, mas um médico, meu amigo, disse para não tomar e ficar de observação, para não mascarar os sintomas. No outro dia, eu já não conseguia mais andar, a minha perna doía e latejava. O médico da família falou que poderia ser rabdomiólise [quebra rápida de músculo esquelético devido à lesão no tecido muscular], que é uma doença mais grave. Fizeram todos os exames e foi detectado que eu estava com inflamação muscular, por sobrecarga. Fiquei oito dias de atestado médico e a dor só foi melhorar no quinto dia", revela.

A inflamação em Maressa aconteceu porque, no processo de hipertrofia, as fibras musculares são rompidas durante o exercício, para serem reconstruídas posteriormente. Como ela rompeu muitas fibras, seu organismo não conseguiu repor as perdas e houve a inflamação. "O excesso de exercícios físicos traz riscos em diversas formas: muscular, pois é no descanso que acontece a hipertrofia do músculo, além da fadiga muscular. Danos articulares também são um problema, já que a sobrecarga nas articulações, seja com peso ou com repetições de treino, podem afetar ligamentos e tendões; além de sobrecarga no coração, insônia, entre outros", explica o fisioterapeuta Cristiano Dávila.

Por isso, o professor de educação física Henrique Santos Guimarães diz como deve ser elaborado o treino do atleta. "Uma ficha mal elaborada pode vir a danificar, ao invés de melhorar a saúde e a estética do aluno. Ela tem que respeitar a individualidade de cada um, não é uma simples receita de bolo. Principalmente se essa ficha não for elaborada por um profissional da educação física. Vemos muitos casos de estagiários, e até algumas pessoas de outras áreas que não possuem graduação para montar um treino adequado, elaborando fichas em academias", alerta.

Para evitar situações como a de Maressa, a solução apontada é de respeitar o próprio corpo. E a jornalista afirma que aprendeu a lição. "Todo corpo tem um limite, a gente não pode ultrapassar ele. É legal praticar atividade física, ter uma alimentação bacana, mas lembrando que não vivemos pra isso. Valeu a experiência para mim, a dor que eu senti, que me mostraram que a minha vida não é focada nisso. Essas blogueiras que viraram referência, têm a vida focada nisso, para ganhar dinheiro em troca de posts de superação. Alerto para isso", diz.

Equipe multidisciplinar

Hoje, Maressa revela que já voltou a treinar, mas opta também por atividades alternativas. "Vou fazer crossfit e treinamento funcional. Isso é saudável e não traz desgaste excessivo. O descanso também é treino, eu aprendi isso. Eu li um artigo de um blog desses falando de "Xô, preguiça", só que tem hora que é preciso parar. A geração saúde tem pecado bastante pelo excesso dessas coisas. Precisamos saber equilibrar. Eu senti muita dor e não quero sentir nunca mais isso", garante.

Portanto, o fisioterapeuta Cristiano acredita que a jornalista vai pelo caminho certo ao estar em várias artes. "São áreas diferentes e todos podem acrescentar algo. Um treino deve ser elaborado por profissionais de várias áreas: o médico libera para a atividade, o fisioterapeuta orienta quanto a postura e a prevenção de lesões, e o profissional de educação física monta o treino mediante tudo isso", diz.

Apesar de partilhar da mesma ideia, o educador físico Henrique lembra que o custo de uma equipe multidisciplinar pesa no bolso dos atletas. "Essa equipe multidisciplinar seria o ideal para todas as pessoas terem um treino ideal. Cada um dentro da sua capacitação, tornaria o exercício o mais completo possível, fugindo de qualquer tipo de lesão ou outro acidente que possa ocorrer num treino inadequado. Só que, infelizmente, não é tão fácil que isso aconteça, já que requer um gasto maior para as academias ou até mesmo para os alunos gastarem por si próprio", conclui.

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