Juliano Nery Juliano Nery 14/11/2012

Sabedoria no trânsito

julyano"Última chamada para a partida do táxi. Quem não estiver por aqui, levante a mão, por favor!" Foi com este gracejo, que o táxi partiu para a rodoviária ao findar de mais um conjunto de aulas ministradas no município de Teófilo Otoni, em direção à rodoviária. Nem deu tempo de dar um bom dia ou boa tarde. O homem disparou a falar. E não importava se tivesse alguém ali para ouvir ou não. Ele queria falar. Simples assim. E embora um pouco confuso com tanto palavrório, resolvi dar atenção, acenando com a cabeça positivamente, quando ele exigia confirmação e, negativamente, quando ele se apresentava indignado. Às vezes, eu também soltava um "é", um "é mesmo" ou, no máximo, "um absurdo". Discretamente, é lógico. O show era dele, afinal. E ele foi emendando...

"Enquanto vocês jovens estão morrendo por aí, eu tenho feito exame periódico todo mês! Ta vendo o meu cabelo? – Não ta vendo? – Não tem mais onde botar um fio branco! Mas, vai trabalhar a quantidade que eu trabalho! Peguei no batente às seis horas da manhã de ontem!", berrou para a plateia, composta apenas pela minha pessoa. Já passava do meio-dia de domingo. Difícil acreditar que ele já estava dirigindo por mais de 30 horas seguidas. Para que ele não aumentasse mais o volume sonoro da garganta, resolvi não contra-argumentar, olhando de lado pelo retrovisor uma espinha que tinha aparecido no meu nariz.

"Nem pense em colocar a mão nessa espinha, moço!" – Resolvi indagá-lo, por conta da veemência de suas palavras. Ele explicou. "Essas espinhas que não saem a cabeça pra fora são um perigo: é a chamada espinha carnal que, quando mal curada, pode até levar a morte!" – Olhei pra ele, incrédulo, mas ele completou: "Lá perto de casa tem pelo menos duas pessoas que já perderam o nariz, por conta dessas espinhas carnais...". Gostei do exagero do homem e da forma como se expressava. E depois das "espinhas carnais", resolvi adotá-lo como oráculo até à rodoviária. O sistema era simples, lançava a pergunta e ele respondia livremente, o que bem entendesse.

Sobre o trânsito, mostrou entender bem mais do que muito engenheiro de tráfego: "o certo era não ter mais carros passando aqui no Centro. Ou anda na rodovia ou nas avenidas. Aqui perto da Praça Tiradentes só devia ter pedestre". Quanto às mulheres, demonstrou cautela: "mulher é uma só. E já é complicado demais, moço! Arrumar outra é dobrar complicação." Quanto ao futebol, foi político: "eu até acompanho, mas espero pra ver quem vai ganhar: o Cruzeiro ou o Atlético. Só aí, resolvo pra quem vou torcer." Sobre o fim do mundo, foi taxativo: "que mundo, homem?! Isso aqui acabou já tem tempo!"

Após meia hora de trajeto até a rodoviária, consigo crer que já havia me tornado fã daquele sábio taxista. Sábio, sim! Não dono de uma sabedoria dos bancos escolares, das titulações, como aquelas que me trazia, por exemplo, a Teófilo Otoni para ministrar aulas em faculdade. Mas, a sabedoria empírica, da tentativa, do acerto e do erro. Das observações do mundo e do que está à volta. E mais, da sabedoria prática, do "viver e aprender".

Ao completar o trajeto, o sábio taxista me perguntou se eu estava com fome e se iria comer antes de seguir viagem. Achei estranha a pergunta, mas respondi, afirmativamente. "Então, não vou parar para você na rodoviária nada!" Fiquei encafifado, mas ele parou uns 50 metros depois. "Come por aqui na padaria, porque lá na rodoviária é uma facada!" Dei moral e me alimentei no local indicado. Ao chegar na rodoviária e desembolsar R$ 4 em uma simples garrafa d'água, agradeci aos deuses do trecho por colocar gente sábia como aquele taxista nos meus trajetos diários. E não mexi na tal "espinha carnal" que havia sido no meu nariz. Vai que ela pode mesmo matar!

Juliano Nery acredita que Minas Gerais é mais que um Estado. É um estado de espírito. Teófilo Otoni pode ser encontrado na latitude 17° 51' 28" S e longitude 41° 30' 18" W.


Juliano Nery é jornalista, professor universitário e escritor. Graduado em Comunicação Social e Mestre na linha de pesquisa Sujeitos Sociais, é orgulhoso por ser pai do Gabriel e costuma colocar amor em tudo o que faz.

* Ilustração: Lucí Sallum

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