Paulo César Paulo César 15/10/2011

Guilhermo Del Toro erra na mão em terror pobre

O terror é um gênero decadente na sétima arte. Um pouco pelo domínio de produções de baixa qualidade voltadas unicamente para bilheteria, outro tanto devido à falta de criatividade de se criar um bom texto, ou à incapacidade de se adaptar uma boa história. Com Não Tenha Medo do Escuro, Guilhermo Del Toro produz um filme a seu estilo, reportando os ingredientes que deram certo no filme que o levou ao estrelato, O Labirinto do Fauno (2007), mas peca pela falta de conexão no roteiro, que ele mesmo assina.

No começo, até parece que o longa é promissor. As cenas bem dirigidas por Troy Nixey, o característico tom gótico do cinema de Del Toro e a boa fotografia dão a impressão de que estamos diante de um filme que honre o gênero. Ledo engano. Minutos depois, tudo desanda. O terror psicológico proposto no início dá lugar a uma história sem pé nem cabeça. Uma mescla de mito com uma infinidade de clichês previsíveis que derrubam as expectativas iniciais do público.

Na história, a pequena Sally (Bailee Madison) vai morar com seu pai (Guy Pearce) e sua namorada Kim (Katie Holmes), que estão reformando uma antiga mansão. A menina introspectiva acaba sendo atraída por estranhos seres que habitam as profundezas da casa, e que antigamente haviam sido responsáveis pelo sumiço do antigo dono. Mas, ao tentar buscar a ajuda dos adultos, ela percebe que ninguém acredita e ainda acham que ela está sofrendo distúrbios mentais.

O roteiro de Del Toro é estranhamente pobre e deixa lacunas no meio do filme, o que provoca inevitáveis questionamentos do público, por falta de explicações. Mesmo buscando referências diretas as suas melhores obras, não consegue emplacar. Pois ao contrário do que fez em O Labirinto do Fauno, ele parte para uma sucessão de sustos sem nenhuma intenção de se desenvolver uma trama mais elaborada. Explora ao máximo a fragilidade da menina, que está à mercê dos estranhos seres. Isso carrega ainda mais o teor claustrofóbico do filme, quase não dando tempo para respirar.

A direção é de Nixey, mas visivelmente ele apenas conduz as cenas, como se fosse o próprio Del Toro atrás das câmeras. O que merece destaque mesmo é a atuação da pequenina Bailee Madison, que parece bem mais à vontade do que a sempre inexpressiva Katie Holmes e do distante Pearce. Carregando toda a responsabilidade de conduzir as cenas, a menina está realmente apavorada nos momentos de maior tensão do longa.

Fora isso, fica a sucessão de cenas com impacto sonoro que mais prejudica a audição do que assusta, e a previsibilidade dos momentos de susto, que funcionam apenas com quem não conhece este tipo de filme. Uma prova de que realmente o gênero está em baixa, e com o agravante de ter um de seus poucos e bons adeptos também errando na mão. Ao público resta apenas não ter medo do escuro, pois além de perder quase duas horas em um filme decepcionante, seria duas vezes pior perder também uma boa noite de sono.



Paulo César da Silva é estudante de Jornalismo e autodidata em Cinema.
Escreveu e dirigiu um curta-metragem em 2010, Nicotina 2mg.

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