Paulo César Paulo César 5/1/2013

Ingrid Guimarães volta à ação ainda melhor com a comédia De Pernas Pro Ar 2

De algum modo Roberto Santucci conseguiu equalizar os mecanismos que compõem as comédias nacionais e descobriu assim uma mina de ouro. Depois de conseguir sucessos estrondosos de bilheteria com os escatológicos De Pernas pro Ar (2010) e Até que a Sorte nos Separe (2012), o diretor aposta na sequência do primeiro, que levou milhões de pessoas aos cinemas e "inaugurou" esta produção em massa de comédias "fast-food" de alma televisiva. Entretanto, com essa nova trama de Alice e Cia., consegue trazer algo não visto nas últimas produções, uma linha narrativa coerente, que, apesar de um texto frágil e repleto de retalhos de outras comédias, não apela a esquetes enfadonhos e saturantes.

Alice (Ingrid Guimarães, competente) conseguiu fazer com que seu sex shop, que abriu em sociedade com Marcela (Maria Paula), alçasse voos maiores e atingisse a marca de cem lojas por todo o país. Mas, sua obsessão por trabalho a leva a ter ataques de estresse, levando à sua internação em um spa. Lá conhece diversos tipos, entre eles, o também viciado em trabalho Ricardo (Eriberto Leão), que logo irá conhecer seu verdadeiro motivo de estar lá. Quando surge a oportunidade de abrir uma filial em Nova Iorque, ela terá que escolher entre o sucesso profissional, assim realizar seus sonhos, e sua vida pessoal, com seu marido João (Bruno Garcia) e seu filho.

O roteiro escrito por Santucci não apresenta nenhuma novidade, se tratando de universo cinematográfico como um todo: piadas ambíguas, situações absolutamente bizarras e alguns escatalogias programadas. Porém, se compararmos a outras produções nacionais, De Pernas pro Ar 2 traz algo pouco, ou raramente, visto por aqui: piadas bem colocadas, que seguem um senso lógico da narrativa do filme, sem necessitar de esquetes convenientemente arquitetados para que o público explodisse de rir. A história, apesar de boba e manjada, flui, e a maneira como o humor é obtido não dependo de um stand up do ator global que protagoniza o longa. As situações são engraçadas por si só, e a opção por pegar leve na conotação sexual, além de permitir mais alternativas cômicas, dá a oportunidade de crianças poderem assistir, sem que seus pais fiquem constrangidos.

As sequências são deja vu de alguns outros filmes, principalmente a que Alice se desdobra para almoçar com sua família e com o empresário que vai investir em sua rede de lojas em território americano, visivelmente inspirada em Uma Babá Quase Perfeita (93), protagonizada por Robin Willians. Além de uma homenagem a Woody Allen que só cinéfilos são capazes de perceber. Mas tudo isso não chega a incomodar. Santucci sabe o que está fazendo, e mesmo passeando por diversos ambientes não perde o foco e mantém as luzes em Alice e insere aos poucos os personagens periféricos, sugando uma piadinha aqui outra ali. Acerta também em não ficar preso demais ao sentimentalismo barato, pois se é para fazer rir sem intenção de criar uma obra de arte, para quê acrescentar melodrama?

Contudo, nada sairia como o esperado se não fosse a liberdade de se desprender que teve Ingrid Guimarães. Sua Alice não precisa mais exagerar em situações bizarras para que leve o público às gargalhadas, a naturalidade com que faz humor é um dos diferenciais do longa, e, com exceções de uma cena ou outra, age como se fosse ela mesma dentro de cena e estivesse nos palcos, o que já vale o ingresso. O restante do elenco se esforça, mas o destaque vai para a excelente Cristina Pereira com a empregada Rosa, na medida certa atua como um suporte cômico interessante, tirando um pouco da responsabilidade total de Ingrid, com cenas hilárias com trocadilhos infames, no melhor estilo TV Pirata!

Tudo bem, o filme não é o melhor que nosso cinema tem condições de fazer, e ainda está longe disso. Mas só o fato de se desprender das convenções televisivas esquéticas já faz com que De Pernas pro Ar 2 seja melhor do que a grande maioria das produções do gênero concebidas ultimamente. Se daqui para frente houver uma evolução, os roteiros passarem a ser mais originais e as escatologias sejam moderadas, os mesmos que hoje saem do cinema do olhos marejados de tanto rir, mas rapidamente não se lembram de mais nenhuma piada, poderão se divertir muito mais, até semanas depois, lembrando daquela situação e rindo sozinho.


Paulo César da Silva é estudante de Jornalismo e autodidata em Cinema.
Escreveu e dirigiu um curta-metragem em 2010, Nicotina 2mg.
 

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