Paulo CésarPaulo César 17/12/2012

Peter Jackson volta à Terra Média para contar as aventuras de Bilbo Bolseiro em O Hobbit

Quando começou a se especular que o público teria a oportunidade de voltar à Terra Média para conhecer as aventuras de Bilbo Bolseiro e a gênesis da Saga do Anel, o público entrou em total êxtase. Depois de anos em gestação, contratempos que fizeram Guilhermo Del Toro deixar a direção, assumida por Peter Jackson, que dirigiu a trilogia O Senhor dos Anéis e estava apenas como produtor, o longa finalmente chega aos cinemas com muitas aventuras, novas tecnologias e, claro, Gollum.

A adaptação homônima do primeiro livro de J. R. R. Tolkien, publicado em 1937, feita primeiramente para acalentar crianças, foi concebida pelos mesmos responsáveis pelo brilhante trabalho dos três filmes anteriores (Peter Jackson, Phillipa Boyens e Fran Walsh) junto com Del Toro. Na história, Bilbo (Martin Freeman) vive uma vida tranquila em seu igualmente pacato Condado, quando é escolhido pelo Mago Cinza Gandalf (Ian McKellen, sempre ótimo) para acompanhá-lo, juntamente com um bando de anões liderados por Thórin (Richard Armitage), em uma missão para recuperar seu reino sob a montanha Erebor, que agora é habitado pelo dragão Smaug. Nesta inesperada viagem, o jovem hobbit passa por cenários jamais imaginados, conhece criaturas tão estranhas quanto malvadas e adquire um artefato que mudará para sempre a história da Terra Média.

A trama mantém a mística do livro, como já era de se esperar após acompanhar o que foi feito na trilogia do anel. Entretanto, percebe-se uma pressa em fazer com que o filme engrene, e a introdução ficou aquém do que se esperava. Apesar disso, é possível compreender a história sem ter lido o livro de Tolkien, e também pode-se levar em consideração a intenção de Jackson em tentar criar uma singularidade de O Hobbit em relação a sua obra consagrada, ou seja, diferir em aspectos que não incite (ou diminua) as inevitáveis comparações, que são maléficas a este. Há também de se destacar que o conto de Bilbo resguarda o público da obscuridade, focando mesmo na aventura em si, que poderá ser bem aceita por leigos e causar estranheza em quem é apaixonado pelos filmes anteriores (e obviamente não conhece esta aventura).

Ainda a respeito do roteiro, a preocupação em tentar distribuir a importância entre os anões coadjuvantes deu uma pequena empobrecida no texto. O cômico que este núcleo carrega, embora a opção por mostrar outros acontecimentos importantes, como o primeiro indício de Sauron e o primeiro passo para que o Um Anel tentasse retornar ao seu mestre, foi conveniente e conseguiu ligar os pontos que pendem nas questões cinematográficas. A mais esperada passagem do livro que se esperava ver nas telonas foi, com certeza, a melhor parte. As charadas no escuro em Bilbo e o asqueroso e simpático Gollum deleitam os fãs e provocam a nostalgia por rever o mais amado personagem de todo o universo tolkiano e entender suas atitudes, além, é claro, da importante decisão de Bilbo, que foi essencial para que, no futuro, o bem vencesse o mal.

Não há que se fazer ressalvas do trabalho de Jackson atrás das câmeras. Novamente trabalhou com dedicação ao original, mas também resguardou a parte que merece a sétima arte. Desde a maravilhosa fotografia aos efeitos visuais cada vez mais perfeitos, um show à parte para, novamente, provar que blockbusters podem sim ser feitos como obras de arte e não só como produtos da indústria cultural. Nem mesmos os desacordos que espantaram Guilhermo Del Toro prejudicaram o trabalho do diretor, que, mesmo às pressas, fez seu melhor. Além de tudo, o filme foi rodado em 48 quadros por segundo, uma inovação, mas que não poderia falar, já que assisti em formato padrão.

O elenco, como sempre, está em ótima forma. Ian McKellen se sente à vontade de Gandalf, e prova isso dando mais uma excelente interpretação, pois teve de fazer um mago menos atribulado do que o de sessenta à frente. Na trupe de anões, Richard Hermitage consegue ser convincente com Thorin Escudo de Carvalho, mas não há espaço para que os outros se destaquem. Martin Freeman revigora os trejeiros de Bilbo, mas ainda não está totalmente mergulhado no papel, falta um pouco do atrevimento que se vê e lê em sua raça. Cate Blanchett, Hugo Weaving e Christopher Li estão de volta para pequenas aparições, mas quem rouba a cena é Andy Serkins, já que seu Gollum é, novamente, tão perfeito que poderia lhe render prêmios. Os mesmos movimentos, guinchos e sussurros fazem do personagem ainda mais fenomenal.

Um trabalho que, mesmo não feito com o apreço e a preocupação da trilogia O Senhor dos Anéis, é exemplar e digno de quem leu o livro ou tinha interesse em conhecer as aventuras do pequeno hobbit. Deixa o gosto de "quero mais", que será sanado com os dois próximos filmes, previstos para 2013 e 2014, e que pode revelar uma aventura ainda mais fantástica do que foi até agora. Para quem insiste em compará-lo com os filmes anteriores da Terra Média, soa como uma tentativa infrutífera, contudo, quem vai para conhecer algo novo e inéditas aventuras, é um grande filme.



Paulo César da Silva é estudante de Jornalismo e autodidata em Cinema.
Escreveu e dirigiu um curta-metragem em 2010, Nicotina 2mg.

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