Paulo César Paulo César 14/1/2013

Irmãos Wachowiski e Tom Tykwer fazem um grande recorte temporal para mostrar que o mundo é cíclico em A Viagem

Depois de atingirem o ponto alto de suas carreiras com o revolucionário, intrigante e complexo Matrix (99), os irmãos Wachowiski ganharam um status gigantesco, o que, obviamente, também tem seu lado ruim. A cada trabalho posterior, inclusive as duas sequências que fecharam a trilogia virtual de Neo e Cia., as cobranças para que o êxito cinematográfico ao menos chegasse próximo ao seu maior triunfo, também se tornaram enormes. Por isso talvez, V de Vingança seja tão subestimado. Porém, com A Viagem, uma obra ousada que se passa em vários períodos distintos da história, contam com a ajuda do alemão Tom Tikwer para provar que a existência de qualquer ser humano é cíclica, e sempre será.

A trama envolve seis histórias diferentes. No século XIX, Adam (Jim Sturgees) é um advogado em que a família enviou para negociar escravos. Mas, no caminho, salva a vida de um dele, Autua (David Gyasi) e recebe ajuda providencial quando necessita. Na década de 30, Robert Frobisher (Bem Whishaw) é um jovem e talentoso compositor que vira protegido de Vyvyan Ars (Jim Broadbent), mas, aos poucos, a relação começa a ficar conturbada. Nos anos 70, Luisa Rey (Halle Barry) é uma jornalista que, por coincidência, encontra com Rufus Sixmith (James D'Arcy) e descobre coisas escabrosas sobre uma usina nuclear, que acaba colocando sua vida em risco. Nos dias de hoje, Timoth Cavendish (Jim Broadbent) é um editor em baixa que vê sua sorte mudar quando um de seus escritores (Tom Hanks) mata um crítico, tornando o livro dele um fenômeno e Cavendish rico. Mais de cem anos à frente, num mundo já obscuro e moribundo, Sonmi-451 (Donna Bae) é um clone programado para trabalhar em uma rede de fast food, porém, ela consegue conhecer o mundo e mudá-lo para sempre. E, em um futuro bem distante, Zachary (Tom Hanks) e demais moradores de um vale de um mundo pós-apocalíptico adoram a deusa Sonmi, e tudo é colocado em xeque com a chegada de Meronyn (Halle Berry).

O roteiro foi escrito a seis mãos pelos Wachowiski e Tykwer, baseado na obra de David Mitchell, e apresenta uma miscelânia de mundos e situações distintas, tudo para chegarem a um mesmo denominador comum: a vida é cíclica. A delineação de caráter dos personagens são demarcados para que sua mudança de atitude no próximo cenário alimentem o sentido que pretendem atingir ao fim da película. Entretanto, há uma falta de nivelação entre uma história e outra. A passagem dos dias atuais não é bem acabada, deixando uma lacuna na ordem narrativa do filme. Quando o longa termina, não fica claro como este episódio se conecta com o resto do universo apresentado.

O trabalho dos diretores é surpreendente se pensarmos que se trata de três cabeças diferentes. Andy e Lana (que era Larry, mas não vem ao caso) dão espaço a Tykwer fazer seu trabalho e não se decepcionam, pois o alemão mostra a mesma firmeza na direção de cenas de ação que o fez notável em seus longas. Eles também parecem ter liberado a seus atores reconstituir seus personagens de uma forma que se sintam à vontade, pois só assim poderiam se desvencilhar de um e mergulhar em um universo totalmente diferente, podendo ser o mocinho ou o vilão. E, entre um mundo e outro, a violência, a morte, a bondade e o amor andam em paralelo, presentes em todos os episódios, mas, de uma forma subjetiva, que força o espectador a compreender que sempre estaremos rodeados por elementos incontroláveis.

Há de se invejar o belíssimo trabalho de produção do filme. A mistura de ambientes é cada vez mais rítmica de acordo com que os minutos vão avançando, ainda assim, percebemos a singularidade de todos. A maquiagem é incrível, tanto que a maioria dos atores interpretam mais de um personagem e, em alguns cenários até mudam de sexo, como Halle Barry e Hugo Weaving. Por este motivo, é incompreensível a ausência do filme em algumas categorias técnicas do Oscar deste ano.

Em meio a tantos atores, os destaques vão para o ator predileto dos Wachowiski, Hugo Weaving, pois seus personagens apesar de hiperbólicos, são sempre os mais interessantes, como a enfermeira brutamontes dos dias atuais, o assassino da década de 70 e o demônio do mundo apocalíptico. E Jim Broadbent, que mostra desenvoltura principalmente quando está de cara limpa enfrentado as mazelas de um asilo em que foi internado contra a vontade. Tom Hanks é sempre excelente, talvez um pouco perdido em meio a tanta maquiagem, mas sempre consegue fazer coisas não esperadas em cena.

A Viagem pode ter seu sucesso reduzido pelo seu tamanho exagerado de 172 minutos, pois a maioria das pessoas não têm paciência para fazer as conexões por si só, ainda mais em tanto tempo. Um defeito crucial de um filme acima da média e que não deve nada a outras obras de cunho existencial lançadas ultimamente. Contudo, o resultado desta tentativa dos diretores de propor uma lógica cíclica para nossa passagem pelo planeta Terra vai sempre depender do ponto de vista de cada um. Ou entrarão em uma onda espiritual e levará a sério, ou simplesmente se deleitarão com os efeitos visuais e acharão que é apenas uma "viagem", no sentido pejorativo da palavra.


Paulo César da Silva é estudante de Jornalismo e autodidata em Cinema.
Escreveu e dirigiu um curta-metragem em 2010, Nicotina 2mg.
 

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