Paulo César Paulo César 4/2/2013

Com um cowboy negro e muita violência, Tarantino volta aos cinemas com Django Livre

Se existe um diretor que consegue chegar próximo da mistura que seria a perfeição de uma obra cinematográfica, pois apresenta a qualidade da sétima arte em conjunto a um caldeirão pop e leva milhões aos cinemas, este é Quentin Tarantino. Com filmes carregados de violência, humor negro e trilha sonora agradável, tornou-se um adjetivo, um representante singular do cinema atual, que não abandona os gêneros que o inspira. O seu preferido, o western, ganha uma repaginada contemporânea, com um cowboy negro lutando para recuperar sua amada, parece simples, mas Django Livre nos mostra muito mais do que uma simples sinopse pode contar.

O ex-dentista e caçador de recompensas Dr. Schultz (Christoph Waltz, ótimo) intercepta uma caravana de mercadores de escravos para libertar um deles, Django (Jamie Foxx), pois seria o único a reconhecer suas próximas vítimas. Depois de muito sangue, ele o liberta e juntos partem para cumprir o serviço, mas com uma condição: que o alemão ajude Django a encontrar sua esposa, Broomhilda (Kerry Washington). Porém, esta missão não será nada fácil, já que ela se encontra sob os domínios do excêntrico Calvin Candie (Leonardo DiCaprio, perfeito), que não gosta de perder seus pertences facilmente.

Como foi dito, os roteiros "tarantinescos" soam simplistas e modestos à primeira vista, mas passam longe disso. Usando todo o seu conhecimento sobre os faroestes, neste em especial, os "spaghetti" de Sergio Leoni, Sergio Corbocci e Alberto Cardone, cria um advento único, que traça a epopéia de um negro às vésperas da Guerra Civil que viria abolir a escravatura. Assim como recontou a Segunda Guerra Mundial em Bastardos Inglórios (2009), quando fez sua própria versão do fim do conflito, o diretor define como seria a luta ideal pelo fim da escravidão. Tira Django da condição de submissão e o eleva a justiceiro sanguinário que sai em busca de vingança.

A forma como explora a grandeza dos cenários, ora no amarelo do árido, ora no branco excessivo da neve, sempre manchado de sangue, em um trabalho potente de Robert Richardson, cria um ambiente ameno e faz a violência, mesmo voraz, parecer complacente e cômica. De praxe, cria sua polêmica quando submete seu protagonista a ser racista, e ainda lhe sobra tempo para estarrecer com sequências de puro horror. A exemplo também de seu Bastardos, busca sempre fazer links históricos com ar de zombaria, neste caso, um grupo do Ku Klux Klan prestes a fazer um ataque desastroso. Tarantino ainda abusa de seus conhecidos closes, mudanças ritmicas e trilha sonora que remonta aos clássicos aos quais se inspira, e ainda encontra tempo para mostrar que sabe o que está fazendo, quando expressa referências a outras culturas, como a alemã, pois além do idioma, inclui um pouco de sua mitologia. Aula de texto cinematográfico.

O ponto alto do longa, no entanto, é seu brilhante elenco. Novamente contando com a mão do diretor, os personagens peculiares carregam a trama que, em seu único aspecto negativo, se estende demais. Christoph Waltz já levou para casa o Globo de Ouro pelo papel feito especialmente para ele, e pudera, a dualidade de Schultz é esculpida com habilidade e carisma. Jamie Foxx, que correu atrás de Tarantino para ser seu Django, não tem uma atuação para os anais, mas cumpre seu papel. Samuel L. Jackson faz um negro preconceituoso, polêmica na medida certa, seu melhor trabalho desde Pulp Fiction, curiosamente também ao lado do diretor. Mas a excelência fica por conta de Leo DiCaprio. Mais uma vez prova que não existe esta bobagem de galã e cria um Calvin Candie afetado, egocêntrico e frio. É o ator mais versátil e regular do cinema atual. Há ainda uma ponta preciosa do Django místico, Franco Nero em uma sequência inesquecível.

Django Livre não é o segundo (Pulp Fiction é insuperável) melhor filme de Tarantino por pouquíssimos deslizes. Se alonga demais nas entrelinhas e acrescenta um teor dramático desnecessário quando a receita estava finalizada. Entretanto, não deixa de ser uma obra peculiar, brilhante. Tanto que os pontos negativos são por excesso e não por falta de cinema. É um longa pop que tem tudo para emplacar entre os cinéfilos já em fervor. E, como se trata do mais cultuado diretor do meio cinematográfico da atualidade, um filme seu que não é seu ponto mais alto, é, ainda assim, um dos melhores do ano.


Paulo César da Silva é estudante de Jornalismo e autodidata em Cinema.
Escreveu e dirigiu um curta-metragem em 2010, Nicotina 2mg.

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