Paulo César Paulo César 13/2/2013

Denzel Washington vira herói e vilão na trama sobre valores morais, O Voo

Vez ou outra pinta no cinema um filme destes de volta por cima, de um indivíduo que vira do inferno ao céu, que conquista a bela garota e fica com ela no fim. E, assim, dava a impressão de que seria O Voo, um trabalho que joga as cartas na mesa logo de cara, mas que não galga o caminho fácil, previsível, e sim trava um sombrio duelo maniqueísta na forma de um piloto que de herói passa a vilão e, de uma forma inusitada, mostra prova que um feito extraordinário pode ser operado por alguém que não seja necessariamente um bom moço.

O capitão Whip Whitaker (Denzel Washington) passa seus dias entre um voo e uma noitada regada a bebidas e drogas, além, é claro, de estar sempre acompanhado por mulheres. Em uma manhã de ressaca, em que ainda consumiu mais vodca à bordo, teve de fazer um verdadeiro milagre para salvar 96 vidas das 102 que estavam no avião, após uma falha mecânica. Entretanto, enquanto a mídia o festejava como um herói, o sindicato dos aviadores encontram álcool e drogas em seu organismo, podendo levá-lo à prisão perpétua.

O roteiro escrito por John Gatins é um dos grandes feitos do meio cinematográfico em Hollywood. A forma como desvirtua a sequência consagrada de redenção e glorificação, optando pela manutenção de Whip como um cidadão politicamente incorreto durante todo o longa, é rara. Mesmo que, perante ao júri, mantenha pelo menos seu senso ético, seu protagonista é complexo, que não aceita seus problemas e fraqueja nas tentativas de cura. O envolvimento amoroso, Nicole (Kelly Reilly), não é daqueles que aperecem para sofrer junto ou tentar modificar o protagonista, pelo contrário, fica à mercê e não assume a responsabilidade de cuidar do parceiro.

Robert Zemeckis gosta de trabalhar com personagens peculiares, e sabe como direcionar sua câmera para valorizá-los. Assim como fez com Tom Hanks em Forret Gump (1994) e Náufrago (2000), conduz Denzel Washington pela história, permitindo que o ator doe o que tem de melhor e eleva a narrativa. O jogo de sombras e a presença do vício, do errado, dão a impressão de que o martírio do personagem é proposital, não casual. Também como os protagonistas dos filmes citados, Whip é dotado de feitos, no caso dele, muito mais espetacular, e deixados de lado, já que o importante são os movimentos internos, o comportamento dele frente às provações e às atitudes decisivas.

Depois de demonstrar certo acomodamento na carreira após ter vencido o Oscar pela sua brilhante atuação em Dia de Treinamento (2001), Denzel Washington desperta sua habilidade de transitar entre o bom e mau, criando um meio termo que seria necessário para dar sentido ao verdadeiro questionamento do filme. A aparição preciosa de John Goodman como o amalucado Harling Mays representa o contrapeso, o mal necessário, mas também o desequilíbrio total.

Um longa interessante e ousado, que justamente por se desvencilhar das máximas cinematográficas óbvias pode não cair no gosto do público. Porém se trata de uma visão, não pessimista, mas real, do verdadeiro espírito humano de senso de moral. Mesmo que ainda perca um pouco de seu brilhantismo no momento derradeiro, merece ao menos o reconhecimento pelo bom trabalho.


Paulo César da Silva é estudante de Jornalismo e autodidata em Cinema.
Escreveu e dirigiu um curta-metragem em 2010, Nicotina 2mg.

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