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    Daniela Aragão Daniela Aragão 14/06/2014

    Entrevista com o poeta e letrista Rogério Batalha

    Daniela Aragão: Boa noite. É uma grande satisfação estar aqui no lançamento de seu livro. Como você é poeta e letrista, inicio nosso bate-papo com a tradicional pergunta: como se deu o primeiro contato com a palavra em sua vida?

    Rogério Batalha: A primeira vez que tenho o assombro com a palavra é através da música popular brasileira. Faço o caminho inverso, eu ouço os grandes letristas e só depois me interesso propriamente por poesia de livro. Um LP na época chamado "Galo de briga", do Aldir Blanc e João Bosco caiu em minhas mãos e me assombrou. Eu não sabia que era possível fazer letra daquele jeito. Assombrado por aquele LP desde então quis ser letrista, mas então para maturar isso demorou um tempo. Depois os sambas de Paulo César Pinheiro também me assombraram e consequentemente tive acesso a todos aqueles poetas e letristas dos anos setenta como o Cacaso e o Waly Salomão. Os letristas da Tropicália como o Gil, Caetano. Chico Buarque em outra praia. Esses letristas me deram sabor a palavra, a vontade de fazer aquilo algum dia. Foi através deles que depois fui ler Drummond, Vinicius, João Cabral, Manuel Bandeira. Só a partir da música me abri para esses leques.

    Daniela Aragão: Você foi tocado pela palavra cantada.

    Rogério Batalha: Exatamente, a capacidade que a palavra cantada na música popular brasileira me ofereceu naquele momento. Sua densidade poética que me impactou. Só depois fui buscar a palavra escrita e assim se deu a entrada da poesia na minha vida. Este é um fenômeno que muito particularmente acontece no Brasil, há uma grande geração de letristas em nosso país, culminando talvez na geração que aconteceu nos anos sessenta e em seguida nos setenta.

    Daniela Aragão: E você começa escrevendo poemas?

    Rogério Batalha: A questão da intenção, ou seja, a vontade de fazer letra de música fica adormecida durante alguns anos. Começo a ler poesia e fazer meus pequenos versos mais ligados a livro. Uns oito, dez anos depois é que vou fazer música. A tentativa de me tornar letrista surgiu depois, embora a vontade tenha se dado desde o primeiro momento em que ouvi "Galo de Briga". Ali eu vi que o buraco era mais embaixo, fazer letra de música popular brasileira não era para qualquer um, pois nós temos letristas fantásticos. Não estou falando exclusivamente do primeiro time não, se você pega o segundo e terceiro time há letristas fantásticos também.

    Daniela Aragão: Há alguns poetas que alternam o ofício de poetas em livro com o ofício de poetas em música. Isso é o caso por exemplo de Geraldo Carneiro que transita nas duas esferas, Cacaso, Antônio Cícero, entre outros.

    Rogério Batalha: Não é fácil, às vezes você pega grandes poetas e que se aventuraram como letristas e não foram tão bem sucedidos, não foram felizes. Letra de música é um outro barato, ali se tem a musicalidade de compreender o que a melodia pede, o que é a feitura de uma boa letra. Não necessariamente os mesmos parâmetros que existem num bom poeta, as tradições são distintas. Cada tradição dialoga com alguns quesitos. Demora um tempo para maturar e se confunde muito no começo até você se tornar um letrista razoável. O Brasil talvez seja o país mais rico de letristas enquanto fenômeno, há em outros países casos pingados como Bob Dylan, enfim, um aqui, outro acolá. No Brasil fala-se em geração, geração dos sessenta, setenta, oitenta. Aqui nós temos gerações de letristas. Então toda a minha tentativa de fazer música veio do desdobramento do "Galo de Briga".

    Daniela Aragão: Quando você lançou seu primeiro livro?

    Rogério Batalha: Lancei "Malícia" em 1998, compilei alguns poemas, fiz uma pré-seleção e entreguei para o Waly Salomão. Ele achou que deveria virar livro e me deu uma força escrevendo a contracapa e a partir daí lançamos de maneira independente, cerca de duzentos exemplares.

    Daniela Aragão: E inevitavelmente não posso deixar de te perguntar sobre seu contato e amizade com o vulcânico e grande poeta, letrista e agitador cultural Waly Salomão. Um dos grandes expoentes da contracultura.

    Rogério Batalha: O Waly tinha como intuito de vida estabelecer pontes. Ele fez isso continuamente na vida, fosse através da música popular, fosse através da poesia. Era um cara muito antenado, não havia passividade naquela alma, havia nele acima de tudo uma imensa vontade de potência, uma vontade de engolir a vida. Ele fazia pontes com as outras pessoas que beiravam o exagero, por isso ele era tão teatral. O exagero era a palavra dele. A palavra que mais definiria o Waly é exagero. Ele leu meus poemas xerocados, o que viria ser o "Malícia" e me ligou no dia seguinte muito cedo. Por conta do horário, cinco, seis horas da manhã, não percebi do que se tratava, qual texto era aquele. Ele deu uma grande gargalhada e desligou na minha cara. Fui dormir e no dia seguinte me ligou entre mais gargalhadas. Desde então nos tornamos muito amigos durante toda a vida dele. Fizemos muitas coisas juntos como recitais e perambulamos por vários lugares. Ele me apresentou muita coisa e entendi por meio dele mais visceralmente o que seria o ofício do poeta. O entendimento proporcionado pelo Waly foi uma espécie de pós-graduação que cursei enquanto poeta.

    Daniela Aragão: Estão lançando agora a obra completa do Waly, a mesma editora que nos trouxe recentemente o contato maravilhoso com as obras de Paulo Leminsky e Ana Cristina César. Há algo inédito que vocês fizeram juntos?

    Rogério Batalha: Tenho apenas uma letra em que ele fez uma parte e eu outra. Tenho muita coisa filmada dos recitais que fizemos, mas de maneira muito precária. Eram câmeras sem nenhuma qualidade, mais como registro desses encontros. Foram meia dúzia de encontros meio num caráter beatnik, ficavam músicos, bateristas, enquanto um recitava a coisa do outro. Foi um momento muito interessante no final da década de noventa.

    Daniela Aragão: Você é um poeta que traz muito forte em sua criação a tematização do universo urbano representado pelo Rio de Janeiro e seus contrastes. O subúrbio é um panorama frequente em seus versos.

    Rogério Batalha: Como nasci no subúrbio carioca, a cidade é muito íntima sobre todos os vieses. O menino suburbano muito cedo depende de transitar e ter sagacidade, saber farejar delícias torna-se uma necessidade de sobrevivência. Um menino que não tem sagacidade numa cidade como o Rio de Janeiro, sobretudo o subúrbio, sua trajetória pode ser muito perigosa. Então o menino suburbano possui uma relação muito íntima com a cidade, suas delícias, suas mazelas, de maneira que tudo se torna muito natural. Essa cidade está muito entranhada em mim, sou tipicamente um poeta de cidade. Quase tudo que falei em minhas músicas e poemas de certa forma está direcionado para a cidade. Não necessariamente a cidade do Rio de Janeiro, mas a cidade.

    Daniela Aragão: Outro parceiro constante seu é o Moacyr Luz não é?

    Rogério Batalha: O Moacyr tem uma importância na minha vida semelhante a do Waly. Começei a ser gravado por outras pessoas através da minha parceria com o Moacyr. Ele ao me conhecer fez uma coisa muito parecida com o Waly, ele tem um livro meu, não mais o "Malícia", mas o "Melaço". Lhe entreguei esse livro e ele fez uma coisa muito parecida com o Waly, me ligou muito cedo pela manhã dizendo que havia musicado o meu poema "Malícia". Ouvi aquele coisa linda que ele dizia ser a primeira leitura. Fizemos até agora juntos umas vinte músicas em dez anos de parceria. Algumas músicas dele eu letrei, alguns poemas meus ele musicou sem trocar uma vírgula.

    Daniela Aragão: Você está lançando então três livros, dois que reúnem poemas e letras suas e um inédito. Anda fazendo lançamentos?

    Rogério Batalha: Sim, fizemos um no "Beco do Rato", na Glória e outros pequenos por aí.

    Daniela Aragão: Você como mais um entre tantos poetas, traz o ofício de professor de língua portuguesa e literatura não é? Complicado viver de poesia em nosso país.

    Rogério Batalha: Pois é, ninguém vive de poesia, nem Ferreira Gullar. Outro dia assistindo a um documentário com o Gullar vi esse grande poeta dizer que se estivesse vivendo hoje de poesia, não estaria morando nem numa pequena favela no Rio de Janeiro. Não sou gravado por grandes figuras de vendagem e mesmo que o fosse não viveria. Moacyr Luz, por exemplo, já foi gravado por Maria Bethânia, Gilberto Gil, entre tantos nomes destacáveis, já teve cerca de dez a doze temas de novela e não vive como compositor. Acredito que ele não possa viver exclusivamente como compositor.

    Daniela Aragão: Os poetas estão nas universidades e nas escolas.

    Rogério Batalha: Exatamente, pois precisam sobreviver.

    Daniela Aragão: E a sala de aula torna-se também um lugar propício para o poeta?

    Rogério Batalha: Sim, em algumas escolas mais, outras menos, dependendo do que o perfil da escola permite. Estou sempre circulando. O poeta está sempre por ali, dependendo das turmas, mais evidente. Sou sempre um noviço da poesia e vivo em função dela no fundo. A música popular também, os dois se mesclam muito em minha cabeça.



    Daniela Aragão: Você a princípio me falou de suas influências mais relacionadas ao acervo de nosso cancioneiro nacional. E as leituras, quais foram mais marcantes?

    Rogério Batalha: Como praticamente não leio em inglês, li muita poesia e li os autores brasileiros, até porque não gosto muito e não confio cegamente nas traduções. Leio o Maiakovsky, mas fico pensando na reinvenção poética que se dá nessa transposição de língua. Leio basicamente poesia brasileira e tudo, li tudo. Leio e releio todos os modernistas, Mário, Oswald, depois a segunda geração composta por Drummond, Vinícius, Murilo, Bandeira. Bandeira talvez seja o poeta que mais me toca.

    Daniela Aragão: Manuel Bandeira, esse poeta fantástico do cotidiano, da linguagem reduzida e de uma intensa musicalidade. Basta ouvir o belo disco "Estrela da vida inteira", que traz vários de seus poemas musicados por Gilberto Gil, Francis Hime, entre outros.

    Rogério Batalha: Bandeira é um monstro. Também gosto imensamente de João Cabral e de todos os poetas dos anos setenta, a exemplo do Waly. Gregório de Mattos, o Brasil é uma pátria de poetas. Há uma produção valiosíssima, principalmente se pegarmos a produção poética de cinquenta anos para cá. Poucos países produziram numa única geração um Murilo Mendes, Vinícius de Moraes e João Cabral. Nosso país é rico em poetas. Talvez se eu tivesse que dizer sobre dois poetas com os quais mais me identifico, seria sem dúvida Manoel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. Bandeira está para mim como poeta, assim como Aldir Blanc está para mim em relação à música. Sempre que releio Bandeira fico impressionado com sua capacidade de produzir beleza nas coisas simples. É um poeta que leio quase como café da manhã. Leio Manoel há mais de vinte anos e releio, releio, releio, sempre descobrindo algum aspecto que me assombra.

    Daniela Aragão: Há algum projeto musical em vista?

    Rogério Batalha: Moacyr me trouxe uma excelente notícia, foi para a Itália agora e parece-me que uma cantora destacável lá gravou "Malícia". A gravadora o chamou para fazer uma participação colocando os violões. Essa nossa primeira canção em parceria deve ficar com a gravação concluída no segundo semestre. Eu e Moacyr temos juntos com a cantora Roberta Nistra um cd inédito. Não conseguimos gravadora, são canções com temas afro-brasileiros. Sobre orixás, entidades, no qual fiz as onze letras e ele as músicas. Temos muito carinho por esse trabalho.

    Daniela Aragão: Muito obrigada e boa sorte.

    Rogério Batalha: Obrigado a você.


    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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