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    Daniela Aragão Daniela Aragão 22/07/2014

    100 anos de Dorival Caymmi

    Entrevista com o flautista, compositor e cantor Danilo Caymmi

    Danilo CaymmiDaniela Aragão: Como começou a música em sua vida?

    Danilo Caymmi: Eu já convivia num ambiente musical em casa, mas a entrada mais forte da música em minha vida se deu quando meu pai me trouxe uma flauta que comprou numa loja que fechou há pouco tempo, chamada "Guitarra de Prata". Ganhei primeiramente uma flauta Block que tenho até hoje. Daí me interessei pelo instrumento e toda vez que papai ia a cidade, trazia uma flauta diferente. Da Block passei para transversa e assim foi. O interesse pela música então iniciou por aí. Mais tarde comecei a compor e a capilaridade da música foi me envolvendo, também vendo o meu irmão Dori, fui prosseguindo minha evolução na música. Todos nós começamos muito cedo. Não somente a parte lúdica da música, mas também a profissional. Aprendemos muito olhando, muita gente acha que ser músico é uma profissão de muito glamour, o que na verdade não é. É preciso muita dedicação, muita disciplina, se você não tiver isso vai sucumbir, pois o problema não é você fazer sucesso, é você se manter dentro de uma realidade artística brasileira. Este é sem dúvida o grande desafio dessa profissão e acho que tenho conseguido.

    Daniela Aragão: Suas influências vieram de seu pai Dorival Caymmi e dos irmãos também não é? Nana e Dori.

    Danilo Caymmi: Sim, do meu pai e de meus irmãos. Muito do Dori, ele tocando e também a importância do violão tocado por papai. A princípio, muito jovem, eu não realizava bem ainda quem era o meu pai, sua carreira e tal. Mais tarde é que fui tomando conhecimento dele no cenário da música no Brasil, até que com meus quinze anos participei da gravação do disco "Caymmi visita Tom", daí veio Tom Jobim, que também foi fundamental para a minha formação. Fiquei alucinado com a música do Tom.

    Daniela Aragão: Assim como Tom Jobim você também passou pela arquitetura.

    Danilo Caymmi: A minha música mesmo tem uma ligação com a arquitetura, com a estética da arquitetura. Há uma racionalidade dentro da maneira com que componho.

    Daniela Aragão: Você trabalhou com Tom durante dez anos na Banda Nova não foi?

    Danilo Caymmi: Foram dez anos, mas comecei cedo com o Tom, pois o "Caymmi visita Tom" se deu quando eu tinha quinze anos, aí conheci o Tom. Ele foi um dos grandes músicos de todos os tempos no Brasil. As pessoas às vezes costumam falar, a obra do artista é fantástica, mas o temperamento difícil e tal. Mas tratando-se de meu pai e Tom Jobim eles tinham uma particularidade, um sentimento, acho que por isso suas músicas se aproximavam tanto do povo. A simplicidade muito grande, eram homens simples.

    Daniela Aragão: Ambos com uma sofisticação imensa dentro de uma estética minimalista, do não excesso sempre.

    Danilo Caymmi: Você pega os dois "Gabriela", eles se falaram muito na época, pois papai fez o "Gabriela" para a televisão e o Tom fez para o cinema, mas eles se falaram. O Tom pediu permissão para usar o Gabriela (cantarola). Então era um negócio de cavalheiros, muito íntimo. Esse companheirismo deles era muito bonito, sem a vaidade do trabalho. Não eram homens vaidosos. O maior interesse do Tom era colocar uma música com o Roberto Carlos numa abertura de novela, ele ficava alucinado com isso. Na verdade faz sentido, pois se aproxima mais do povo, a novela atinge uma massa. A preocupação do meu pai também era essa, fazer sua música chegar até o povo. Eles tinham isso, não o lance do gênio por exemplo, que faz a música só pra si. São dois gênios que no entanto estiveram preocupados em colocar a música no mercado, sempre foi assim.

    Daniela Aragão: Não me recordo o local em que li exatamente um texto que dizia que a "Banda Nova" foi se formando aos poucos, Tom foi chamando músico por músico.

    Danilo Caymmi: Sei exatamente como aconteceu. Paulinho Jobim me ligou de Nova York dizendo que tinha um concerto na Áustria, em Viena num teatro importante e tinha que formar uma banda. Começamos eu, Paulinho, a banda inicial com Luiz Alves e Paulo Braga. Depois saiu Luiz Alves e entrou Tião Neto. Tom praticamente me obrigou a cantar, pois até aquela ocasião eu ainda não cantava, então ele praticamente me descobriu como cantor. Fui contratado naquela época como flautista e entrou a Ana Lontra, sua esposa, a filha Beth e minha mulher Simone. Começou com três, bem mais tarde é que entrou o Jaques Morelenbaum, Paula e a Maúcha. Essas foram as efetivas, as demais eram substituições.

    Daniela Aragão: Foi essa convivência com o Tom que estimulou o seu cantar não é?

    Danilo Caymmi: Com certeza, antes eu não realizava bem a minha voz, não sabia. Cantava tudo no falsete, ou em função do violão que era um instrumento muito ingrato para a minha voz, para a minha tessitura. A partir do Tom dei início ao estudo do canto com Heloísa Madeira e então comecei a colocar a voz no lugar certo e a me interessar como cantor. Gravei meu primeiro disco com a produção de Mariozinho Rocha, daí veio um sucesso de televisão. Depois fiz vários discos com Menescal, um deles fez até muito sucesso. Enfim, tudo começou lá atrás com o impulso do Tom. Ele me atribuía muita responsabilidade, eu solava duas músicas no show, uma era "Samba do avião" e a outra "A felicidade", dois hits enormes e um trabalho vocal muito intenso. Atuei como uma espécie de diretor de cena também, auxiliando na organização. Não em disco, pois minha praia não é estúdio. No palco meu trabalho era importante, muitas vezes no Carnegie Hall, teatros importantes na Europa. A música de Tom Jobim é muito consistente, talvez ele tenha sido o músico brasileiro mais importante de todos os tempos e que divulgou mais a música popular brasileira no mundo. Pois aqui às vezes se propagam umas ilusões, tipo o artista tal fez sucesso lá fora, fez entre aspas. Tom Jobim fez de fato sucesso no mundo. Um sucesso tão grande quanto o de Carmem Miranda, que também é muito minimizado no Brasil, apesar de não ser brasileira eu a considero super brasileira. A Carmem fez um sucesso estrondoso, lendo-se a biografia dela aprende-se muita coisa sobre Carmem Miranda. O Tom é o mesmo, o showbusiness chegou a lhe oferecer espaço, aqui no Brasil você vai até determinado momento, eles te dão um teto, mas para você ultrapassar isso e chegar até a Madonna por exemplo é uma outra conversa.

    Daniela Aragão: Quando pensamos na questão do canto sempre me chama a atenção a beleza e a similaridade dos timbres de todos os Caymmis. Você, Nana e Dori sobretudo se parecem no cantar.

    Danilo Caymmi: A estética de nós cantores tem muito de minha mãe no que se refere à parte de interpretação, pois nós ouvimos muito Vicente Celestino, muitas valsas de Mignone, muito Villa Lobos, muitos discos de jazz trazidos pelo papai. Discos importantes da Odeon, havia um universo muito grande. Geneticamente você pega os timbres, Dori e Nana puxam mais para o papai, eu já na região aguda tenho um timbre parecido com minha mãe. A Nana nos primeiros discos era muito mais aguda e muito parecida com a voz de minha mãe que era uma soprano, hiper cantora. A interpretação de minha mãe era fabulosa, dotada de uma carga de sentimento e ela nos ensinou a interpretar, a dar essa espécie de mergulho. Tanto que meu pai a ouviu cantar e ficou alucinado quando começaram a namorar com a música "Último desejo", de Noel Rosa. O nível de interpretação que mamãe tinha era altíssimo, sempre envolvido por muito sentimento.

    Daniela Aragão: Agora tem sua filha Alice.

    Danilo Caymmi: Pois é, Alice tem esse timbre e esse nível de interpretação. Possui muita facilidade para cantar, compõe também. Bacana, pois em sua formação vem o curso de Artes Cênicas, ela fez parte da primeira turma da PUC. Isso tem ajudado muito, o conhecimento da leitura, da filosofia, da arte. Alice traz esse lastro que considero muito importante.

    Daniela Aragão: O que é peculiar tratando-se da família Caymmi e que me chama a atenção é a irmandade de vocês e ao mesmo tempo a identidade muito singular e a independência criativa de cada um.

    Danilo Caymmi: O interesse do Dori pelas orquestrações tem muito a ver com os discos que o papai levava para casa, ele adorava Frank Sinatra. Dori gostava muito das orquestrações do Nelson Rido. Acho que isso o levou para esse canto também. Fora o fato de que íamos a muitos concertos levados pelo papai, quando ele considerava algum muito importante fazia questão de nos levar. Dori viu o Nat King Cole, vi Louis Amstrong no Municipal. Papai nos levava para assistir a uma série de filmes importantes também, havia um cinema de arte aqui no Posto 6 em que passavam uns filmes do Kurosawa e eu assistia, todos os filmes de Jacques Tatit também. Isso tudo foi muito bom dentro de nossa formação.

    Daniela Aragão: O Dori passou a compor muita trilha para cinema e é um dos arranjadores mais gabaritados do Brasil. A trilha para o filme "Tati a garota" é esplendorosa.

    Danilo Caymmi: É exatamente, Dori foi muito influenciado. No meu caso em específico vi muitos filmes quando era muito garoto, sempre levado pelo papai. Papai foi fundamental para a nossa formação artística. Nana teve aula de piano com Lúcia Branco, não sei se ela ou Dori foi colega de turma do pianista Nelson Freire quando eram pequenos. Tivemos todo esse acesso a bons professores, esse lastro familiar de formação, de conhecimento. Não só no que se refere ao âmbito da música propriamente, mas da arte total que vai do cinema as artes plásticas também. Conheci pintores importantes como Rebolo, Portinari, além de visitar ateliês. Aqui atrás de casa tinha a galeria Bonino, local em que vi as exposições de Lygia Clark. Papai costumava nos levar a museus com frequência.

    Daniela Aragão: Ele fez questão de deixar para vocês de uma forma linda e generosa esse legado da arte em sua plenitude, sem fronteiras.

    Danilo Caymmi: Muitas pessoas imaginam um Caymmi rudimentar. Ele era muito sofisticado em relação a percepção estética, tanto que quase optou pela pintura. Era um pintor muito bom, ótimo retratista. Possuía um apurado senso estético e buscava isso permanentemente. A literatura também habitava muito sua vida, os livros de cabeceira, me recordo de Cervantes que ele lia muito, Camões, literatura clássica ele lia bastante. Gostava muito de ficção científica, tinha uma literatura vasta em seu acervo. Era um homem muito culto, pois era um autodidata como Tom Jobim. Eram homens de uma curiosidade muito aguçada e buscavam o saber, estavam sempre aprendendo.

    Dorival Caymmi com Tom Jobim Danilo com Dori Caymmi e Fernanda Montenegro Com Nana e Dori no show que marcou o centenário do pai Presente de Danilo Caymmi Danilo Caymmi e Daniela Aragão Os pais, Dorival Caymmi e Stella Os pais, Dorival e Stella Com Nana e Dori Caymmi Disco Caymmi

    Daniela Aragão: Francisco Bosco escreveu um livro sobre Dorival Caymmi em que num dado capítulo se refere a questão de sua não utilização do sujeito nas canções praieiras. Isso é singular na criação Caymmiana e sobretudo no histórico das letras do cancioneiro nacional.

    Danilo Caymmi: Essas canções possuem um cunho social muito grande também. Recentemente trabalhei com Olivia e Francis Hime em "Mar de algodão", em que penetramos nessas canções. "Mar de algodão" na verdade foi um apelido dado ao meu pai pelo Cyro Monteiro. O cunho social abordado nas canções praieiras é muito forte, pois trata da vida do pescador rude. Quando surgiu aqui a proposta da inauguração da estátua em homenagem ao meu pai no posto 6, tive a oportunidade de conversar com um pescador no qual dizia que papai sempre passava por lá para perguntar aos pescadores sobre o tempo, sobre o comum do pescador daqui, ou da Finlândia, ou de qualquer parte do mundo. É o mesmo assunto, o vento, o mar, a mística, a mulher que espera o marido que não vem, a jangada que não volta. O mar levou, é Iemanjá, as coisas negras. Desde garoto papai tinha o hábito de ir a pé até Itapoã. Acho que essas conversas com os pescadores realizadas por ele desde muito cedo o inspiraram a construir essas canções. Essas perguntas que ele fazia aos pescadores eram impregnadas de sentido e verdade. Até o nome dos pescadores às vezes aparecem como referência nas suas composições, possivelmente fruto do que ele deve ter ouvido. Há algumas canções em que ele fala das amas de leite negras, os negros já libertos. Algumas cheias de ouro e balangandãs. Então ele viveu isso tudo que é muito forte. As canções do mar tem a ver com a forma com a qual ele se autodefinia, ou seja, um contemplativo. Um homem que sabia descrever as coisas com uma enormidade de detalhes. Era um grande observador do humano, da natureza. Como falo, qualquer pessoa ficava muito transparente na frente tanto de Tom Jobim, quanto de Dorival Caymmi.

    Daniela Aragão: E tudo resulta num essencialismo em que nada sobra na forma.

    Danilo Caymmi: Nada mesmo. "O bem do mar é o mar é o mar". Tinha uma música de meu pai que o Tom especialmente gostava muito quando vinha o verso "se sabe que muda o tempo", ele acentuava que Caymmi deslocava tudo com uma modulação surpreendente. Dentro da mística em que pescar na sexta feira santa era muito bom por ser um dia de sorte. Meu pai era um homem sempre muito envolvido com o povo e suas crenças. Isso era interessante também quanto à expectativa dele no que se referia a recepção de alguma música sua, quando acabava de compor algo por exemplo, gostava de perguntar ao pessoal lá em casa se tinha gostado. Perguntava a minha mãe, a moça que trabalhava lá em casa, enfim, tinha essa preocupação de que a música atingisse o objetivo natural, que as pessoas cantassem.

    Daniela Aragão: Fui num evento na Academia Brasileira de Letras em que estavam a sua sobrinha Stella e você. A temática era a aproximação entre os dois baianos, Caymmi e Jorge Amado.

    Danilo Caymmi: Perguntavam muito para o papai como andava o livro e tal e ele respondia, tá indo, tá indo. Era muito comum confundirem pois eram muito amigos, além do Caribé que compunha esse grupo. Eventualmente também Pierre Verger. Papai morou na Bahia dos anos setenta e nessa época se deu essa grande proximidade com Jorge Amado.

    Daniela Aragão: É visível como grande parte dos críticos, de certa forma, suplanta a abordagem das canções mais urbanas de Caymmi. Concorda?

    Danilo Caymmi: Com certeza, e essas composições que se voltam mais abertamente para o universo urbano são importantíssimas pelo modo como ele coloca as questões românticas. Creio que de certa maneira ele deve ter vivido situações semelhantes as que são tematizadas em suas músicas. Agora aproximando do centenário de existência do papai, essas noções ficam ainda mais claras. Ele era um homem que tinha um poder de sedução muito grande, até porque todo artista acaba sendo sedutor no palco. A sedução dele passava até um pouco dos limites (sorri). Canções como "Nunca mais", "Nem eu", "Só louco" são dessa linhagem.

    Daniela Aragão: O que os irmãos Caymmi estão fazendo em torno do centenário do patriarca?

    Danilo Caymmi: Quando papai fez noventa anos gravamos um disco e agora estamos terminando. Dori foi fundamental na escolha do repertório, tinham duas músicas que eu não conhecia direito. Ficou um disco importante de registro de nossa visão. Também estou gravando um cd em torno da celebração do centenário, mas com uma outra visão. Chamei Domênico Lancellotti e Bruno de Lulo, dois competentes músicos do cenário contemporâneo para trabalharem as canções de Caymmi sob uma perspectiva atual. Não quis influenciar em nada, a mim cabia apenas a função de cantor e instrumentista. Curiosamente eles foram limpando tudo de Bossa Nova, voltando para as harmonias originais, quase no contexto da época propriamente. Especialmente envolvido por essa questão do centenário tenho notado a forma bacana como os jovens tem se envolvido com a memória.

    Daniela Aragão: Um trabalho muito interessante e rico em releituras foi o desenvolvido pelo saudoso Almir Chediak por meio de vários songbooks.

    Danilo Caymmi: Excelente trabalho. É uma pena que os songbooks não possuam um bom valor comercial para as editoras. O Dori tem um trabalho magnífico e estamos buscando captar patrocínios acoplados a shows possivelmente. No formato de espiral que ele quer justamente, para que as pessoas recebam com facilidade.

    Daniela Aragão: Retomando o tema Dorival Caymmi, vocês já pensaram em fazer um filme tal como fez a família Jobim ou Buarque de Hollanda, por meio do olhar de Nelson Pereira dos Santos?

    Danilo Caymmi: Sim, existe um documentário da Record que tenho conduzido para algumas pessoas. Tem uma entrevista de minha tia Dnair, irmã de papai, que está com noventa e seis anos. Há uma entrevista minha com Dori e Nana, outra de Ronaldo Bastos e Paulo Jobim. Quero ver se entrevisto o Milton Nascimento, que possui muita ligação com minha família. Fatos que as pessoas naturalmente não sabem, pretendo sair da mesmice. Acho que a Record tem interesse também em fazer algo em torno das músicas de Caymmi, roteirizando em cima das canções. Isso além do documentário. E vou acompanhando de perto, dou orientação. Acho interessante que uma televisão popular se interesse, pois esse de fato era o universo do meu pai. Papai viajou muito pelo Brasil acompanhado por seu violão e de certa forma posso agora acompanhar esses lugares, pois também tenho viajado muito. Estive no Piauí, vou agora para o Maranhão. Então sei exatamente o que gera a música de Dorival Caymmi pelos cantos de nosso país. Como ela repercute, como vai passando de geração a geração. Desejo por isso fazer uma exposição sobre papai itinerante e com um conteúdo bem reduzido, mas que propicie um pocket show que planejo fazer com Claudio Nucci. Claudio produziu um disco muito bom voltado exclusivamente para o repertório de meu pai e foi inclusive muito elogiado por ele na época. Claudio pegou as harmonias originais. Quero fazer essa volta pelo Brasil juntamente com o Claudio, que é um grande amigo o qual tenho uma empatia muito grande.

    Daniela Aragão: Há algo de inédito deixado por Dorival Caymmi?

    Danilo Caymmi: Sim, gravei uma música que nos anos noventa registrei com meu pai na casa de Carlos Machado. Era uma canção dele com Assis Chateaubriand, se chamava "Dom". O Dori fez a transcrição, pois tínhamos a melodia certa e deverá sair nesse meu próximo disco.

    Daniela Aragão: E os planos futuros?

    Danilo Caymmi: São vários trabalhos paralelos. Um com Francis Hime, seguido também da proposta de atravessar o Brasil ao lado de Claudio Nucci com um show em homenagem ao meu pai. Há a perspectiva de um musical sobre Dorival Caymmi, que também andam querendo produzir, além de um filme que ainda não temos a certeza se irá de fato acontecer. Novamente em relação ao centenário, posso dizer que conseguimos cobrir bem a parte de literatura através dos livros da Stella Caymmi (jornalista e pesquisadora, filha de Nana Caymmi) acrescidos pelo último lançado realizado pela Rapsol, que traz textos do professor Júlio Diniz, João Ubaldo Ribeiro, Stella Caymmi entre outros.

    Daniela Aragão: E quanto a produção pictórica de seu pai? Me inquietou bastante sua fala sobre a possível escolha pela pintura numa dada fase da vida de Caymmi.

    Danilo Caymmi: Temos muitas obras, mas precisamos fotografar e reunir num livro futuramente. Grande parte das obras estão conosco, algumas com minha tia Dnair e outras nas mãos de colecionadores. Temos uns três auto retratos muito bonitos, qualquer hora sairá uma exposição. Gosto especialmente de suas pinturas dos anos trinta e quarenta. Não é muita coisa, mas há belos registros. A Nana ficava muito invocada, pois papai economizava nas telas, costumava pintar uma por cima da outra. Tem uma amiga minha, restauradora que trabalha no museu Reambrandt, a qual certa vez perguntei se tinha na tela de papai plástico bolha e ela falou que não, era uma tela pintada sobre a outra. Papai tinha acesso a todos os impressionistas e nós filhos temos toda essa ligação com o impressionismo, tanto na parte da música, quanto na parte de pintura. Debussy, Ravel, ele gostava dos compositores russos.

    Daniela Aragão: Há muita informação sobre Caymmi de riquíssimo valor a ser desvelada para o grande público, principalmente no que diz respeito à necessidade de se desconstruir certo olhar mítico por vezes redutor. A limitação do senso comum que aproxima enganosamente sua genialidade criativa (que prima pelo essencialismo formal) de certo caráter marcado por uma suposta formação rudimentar. Conforme você deixou claro no transcorrer de nossa conversa, Caymmi era um homem plenamente integrado a criação artística em todos os níveis e fez questão de deixar a vocês filhos esse belíssimo legado. Foi uma honra e satisfação imensa conversar com você. Qual o verso de seu pai que permanece em sua memória?

    Danilo Caymmi: Vi num caderninho dele o seguinte "Passo a passo passando passo".


    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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