Daniela Aragão Daniela Aragão 17/10/2014

Futuros Amantes

danielaTanto se fala sobre amor na literatura, no cinema, na música, na dança, nas artes plásticas e sempre há muito espaço para esse sentimento tão rico e pleno de vértices, côncavos e vertentes. Tenho observado que alguns canais a cabo começam a comercializar uma série de produtos advindos do lançamento do inédito filme "Rio eu te amo". Essa proposta cinematográfica iniciou-se com "Paris je t'aime", uma espécie de "filme coletivo" que em 2006 teve a coordenação de Emmanuel Benbihy. Vinte e dois cineastas de origens diversas a exemplo de Gus Van Sant, Yolande Moreau, Walter Salles e Alfonso Cuarón comungaram a ideia de tematizar Paris sob suas singulares perspectivas. Assim sendo, com o estreitamento temporal de aproximadamente cinco minutos dedicados a cada curta, cada cineasta deu conta de expressar seu olhar sobre a particularidade de seu arrondissement. Assisti a "Paris je t'aime" num cinema meio decadente de Pigalle, de mãos dadas com meu ex-marido e envolvida pelo brilho que irradia dos apaixonados. Ver um filme francês "in loco", ou melhor ainda, um filme que faz a própria apologia a cidade em que viveram Simone de Beauvoir, Sartre, Gertrude Stein e Balzac, e ainda por cima aquecida pelas chamas da paixão, foi um dos vôos mais epifânicos que já dei. A vocês que me lêem, a narração do fato pode soar delirantemente kitsch, bem digna de Almodóvar. Para comprovar essa assertiva é imprescindível mencionar a existência de um longo tapete vermelho encardido que compunha a passarela desengonçada da entrada. Para fechar avec très elegance, inundava a calçada um cheiro meio intragável de um salsichão também meio vermelho déjà vu que um latino vendia bem na porta.

danielaTantos e belos filmes já foram feitos sobre Paris, até mesmo Woody Allen se desprendeu um pouco de sua incansável Nova York e realizou uma sensível e mágica homenagem a cidade das luzes em "Meia noite em Paris". Contudo em mim nada se deu com tamanha e inesquecível emoção quanto a sessão em Pigalle. "E por falar em paixão/Em razão de viver/Você bem que podia me aparecer", canto junto com Vinícius de Moraes, pois ninguém melhor que o próprio autor para dinamitar a força de sua criação. E falando de amor e seus encontros e desencontros, me deparo num sebo com o cd que traz a trilha sonora do filme "Pequeno dicionário amoroso", de Sandra Werneck.

O filme de Sandra que apresenta o Rio de Janeiro como pano de fundo, inspira-se nas palavras de Roland Barthes em sua obra "Fragmentos de um discurso amoroso" e mostra um percurso alfabético romântico com sabor agridoce, enternecido ou por vezes enfurecido pelas ondas do mar de Ipanema e pelos ventos mais suaves dos contornos da zona sul carioca. Podemos vivenciá-lo como um filme água com açúcar de amor burguês, mas como é também saboroso e catártico em alguns momentos certo descompromisso com questões políticas e sociais. Que me trucidem os mais engajados de plantão.

A trilha sonora de "Pequeno dicionário amoroso" composta por João Nabuco é um espetáculo de bom gosto e elegância. Uma turma de músicos gabaritadíssimos como Carlos Bala, Marcelo Martins, Jorge Elder, Jota Moraes, Marcos Suzano, Luiz Claudio Ramos e Marcio Mallard se alternam nas versões instrumentais que dão primazia a levadas que contemplam interpretações de compleição jazzística. "Falso milagre do amor", composição de Ed Motta e Ronaldo Bastos, abre o filme em altíssimo swing e astral, os versos de Bastos percorrem as ilusões, desejos e amarguras dos enamorados: "Cena de adeus/vem o destino e faz virar cinema/Nosso incêndio/Sóis glaciais/As imagens ali sem cor de tão banais". Não sou muito entusiasta dos malabarismos vocais de Ed Motta, no entanto neste disco ele demonstra um excelente desempenho desde a faixa inaugural .O cantor faz ótimo uso de seus recursos graves, principalmente nas canções de carga dramática mais intensa, como em "Ruínas", com letra de Paulinho Moska.

danielaSandra Werneck traduz de A a Z a inspiração literária para a versão cinematográfica. É especialmente cuidadosa a forma como ela faz a transição de cada estágio amoroso. Há uma sensualidade que subjaz durante toda a narrativa fílmica, que só perde sua força em parte pela descrição científica, que faz um contraponto técnico que parece querer soar cômico pelas vozes de Tony Ramos e Mônica Torres. O desejo e seus mais perturbadores e inquietantes caminhos, torna-se a mola propulsora do desenrolar de "Pequeno dicionário amoroso". Encarnado, escarlate, rubro, carmesim, um intenso vermelho reveste de textura quente a cena de amor mais tórrida do filme. "Céu de Jade", de João Nabuco e Ronaldo Bastos, recobre de intensidade e beleza poética-sonora o primeiro encontro sexual do casal formado pela arquiteta Luiza (Andréa Beltrão) e o biólogo Gabriel (Daniel Dantas). É mais que arrebatadora a interpretação de Nana Caymmi, essa cantora estupenda mais uma vez se apropria da canção com tamanha viceralidade que não sobra espaço para nenhuma outra leitura que supere a sua. Que eu saiba Nana já assinou para a eternidade "Resposta ao tempo" (Cristovão Bastos/Aldir Blanc), "Medo de amar" (Vinícius de Moraes) e "Tens"( Ivan Lins/Vitor Martins).

"Céu de Jade" descortina um belo colorido melódico que une num casamento perfeito voz, arranjos e base. Passei um bom tempo ouvindo-a, atenta especialmente ao momento em que a palavra "carrossel" estende seu sentido no pungente movimento de enovelamento sonoro: "Céu de jade ao cair da tarde/A girar no carrossel/Toda vez que for me dar prazer/Te dou o céu meu amor". O quarteto Guerra Peixe formado por Ricardo Amado (1 violino), Carlos Eduardo Moreno (2 violino), Jano Diniz (Viola) e Marcio Mallard (cello) é responsável pela grandiosidade dos movimentos que compõem o ballet sonoro, juntamente com o piano de Jota Moraes e o baixo personalíssimo de Jorge Elder.

daniSandra Werneck faz uso de alternâncias cromáticas que alegorizam a evolução dos estados da paixão. Como é bonita e docemente lúdica a cena em que o casal resolve pintar de azul alguns cômodos da nova casa compartilhada ao som de "Forever Green", música de Tom Jobim e seu filho Paulo, interpretada pelo próprio maestro: "Where is the paradise/I've made for you/Where is the Green/And where is the blue/Where is the house/I've made for you/where is the sea/where is the place good for you, good for me". Tom clama pela salvação da terra e a preservação de seus verdes, mas a cineasta joga muito bem suas artimanhas na cena colocando nas mãos dos personagens baldes de anil, cerúleo, índigo, blue, que pintam de esperança (verde) o sonho do ninho de amor.

E nem o ninho de amor da ficção conseguiu perdurar "forever Green", mas Chico Buarque, o compositor dos mais belos olhos cor de ardósia, ilumina com um banho de sol a cena derradeira me jogando uma pontinha de esperança. Há quem sabe mais outra luz no fim do túnel para a vivência dos "Futuros amantes"? Quem sabe um dia ainda me curo: "Não se afobe, não/Que nada é pra já/O amor não tem pressa/Ele pode esperar em silêncio/Num fundo de armário/Na posta –restante/Milênios-milênios/No ar//Amores serão sempre amáveis/Futuros amantes, quiçá/Se amarão sem saber/Com o amor que eu um dia/Deixei pra você".


Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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