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    Daniela Aragão Daniela Aragão 31/10/2015

    Entrevista com o professor e poeta Elio Ferreira

    danielaDaniela Aragão: Como apareceu a palavra em sua vida?

    Elio Ferreira: Eu tinha uns oito anos de idade e uma de minhas irmãs me deu uma figurinha de chicletes com um desenho de um tucano e um homem. Me recordo de que inventei uma musiquinha inspirada na imagem: Tucano, Tucano tu engole um homem?/ Engulo, engulo até você/Quando você quiser morrer/ Pode vir, pode vir aqui onde estou eu. Esta é a recordação que trago de uma relação inicial com a palavra.

    Eu costumava ler poesia balançando na rede ao lado de minha irmã Maria Onélia. Tínhamos uma cartilha chamada “Cartilha do nordeste”. Guardo na memória um poema de Guilherme de Almeida: “Deixa-me fonte/dizia a flor a chorar/Eu fui nascida no monte não me leve para o mar/ E a fonte sonora e fria rolava, rolava ao redor da flor/Adeus balanço do orvalho”.

    Daniela Aragão: A cultura oral reflete, também, em seu legado cultural?

    Elio Ferreira: Certamente, as canções de ninar que minhas tias me contavam ficaram muito guardadas em meu imaginário. Meu pai contava muitas histórias para mim, ele era ferreiro. Eram histórias de tradição e outras coisas que percebo hoje que ele mesmo inventava, como as narrativas de trabalho entre os artesãos africanos. À noite eu me reunia com um grupo de amigos na calçada de minha casa e cada um contava uma história, as chamadas “histórias de Trancoso”, que eram inventadas pelo próprio povo. 
    Meus vizinhos de Floriano eram em sua maioria negros. Eles contavam algumas histórias que comprovei, recentemente, serem narrativas que tiveram origem na África, fazem parte da tradição angolana. Meus vizinhos traziam o mesmo conteúdo e mudavam apenas os personagens. Fábulas como “O macaco e a onça”, “A rolinha e a raposa”. Eu ficava absolutamente fascinado ouvindo essas narrações.

    Daniela Aragão: E o primeiro poema dito em público?

    Elio Ferreira: O primeiro poema que falei foi na escola, em comemoração ao dia das mães, quando cursava o primeiro ano ginasial.  Nesta ocasião eu estudava na escola São Francisco de Assis, de padres italianos. Fiz muitas mães chorarem (risos). 

    Daniela Aragão: A partir da recepção calorosa das mães surgiram outras oportunidades para mostrar ao público seus poemas?

    Elio Ferreira: Sim, logo em seguida comecei a publicar nos jornais de Floriano, minha cidade. Meus poemas passaram a ser também veiculados no “Tribuna do Sul” e em seguida no “Jornal de Floriano”. Quando saí de minha cidade já estava com um bocado de coisas escritas, que talvez não fossem de fato ainda poesia. 

    Daniela Aragão: Quais foram as leituras que te influenciaram neste período inicial?

    Elio Ferreira: Lia muito os poemas de cordel, alguns reunidos nos livros didáticos que utilizávamos na escola. Além de Castro Alves, Casimiro de Abreu, Guilherme de Almeida. Aos dezenove anos li a tríade machadiana “Memórias Póstumas”, “Dom Casmurro” e “Quincas Borba”. Posteriormente, Manuel Bandeira, Cecília Meireles e João Cabral. 

    Daniela Aragão: E entre os poetas africanos?

    Elio Ferreira: O primeiro poeta africano que li foi Agostinho Neto. Quando fui para a universidade tornei-me um leitor voraz, no sentido de que alternava leituras de autores brasileiros e estrangeiros como Allen Ginsberg, Ferreira Gullar, Shakeaspeare, Guimarães Rosa, Jorge de Lima. Eu vasculhava com avidez os autores que estavam nas prateleiras das bibliotecas.

    Daniela Aragão: Você viveu durante um tempo em Brasília, como foi por lá seu diálogo com a literatura e demais manifestações artísticas?

    Elio Ferreira: Cinco meses antes de ir para Brasília costumava me reunir com os amigos para tocar violão e recitar poemas. Essas reuniões literomusicais aconteciam nos bares que se encontravam na beira-rio de Floriano. No teatro, estrei pela primeira vez, em Brasília, atuando em “Morte e vida Severina”, adaptada para teatro e encenada na universidade CEUB. Eu trabalhava durante o dia no escritório de uma construtora, depois entrei para o ministério público, como concursado. Fui para a Fundação Educacional do Distrito Federal. Posteriormente, trabalhei no Ministério da Agricultura indo morar em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Passei, então, a exercer uma atividade mais direta no teatro. Comecei a fazer teatro amador e cheguei a apresentar uma peça em São Paulo.

    Daniela Aragão: Quando publicou seu primeiro livro de poemas?

    Elio Ferreira: Foi em 1983, “Canto sem viola”. Este é um livro de poemas que traz minhas memórias. Passei a integrar o movimento de escritores independentes do Mato Grosso do Sul. Fazíamos caminhadas poéticas, apresentávamos poemas nas ruas, participávamos de movimentos sociais.  Eu tinha uma aproximação com o pessoal das artes plásticas também.

    Daniela Aragão: Edição independente?

    Elio Ferreira: Todos os livros de poemas que escrevi foram financiados por mim. Publiquei, ao todo, sete livros individuais, mas participei de várias coletâneas. Entre as antologias que organizei e participei foram mais de quinze.

    Daniela Aragão: Fale sobre o diálogo que você manteve com o poeta Manoel de Barros.

    Elio Ferreira: Eu costumava visitá-lo em sua casa. Conversávamos muito sobre poesia em seu escritório. Certa vez eu e mais outros poetas fizemos uma “caminhada poética” em homenagem a ele. Realizamos uma noite de poesia em Campo Grande que se tornou marcante, reunimos quase quinhentas pessoas, foi um marco. Isso se deu em 1983. Conseguimos por meio de nosso movimento dos “poetas independentes” alcançar a mídia, tendo visibilidade em televisões e nos jornais impressos.

    Daniela Aragão: Nesta caravana dos poetas independentes vocês abriam espaço para a música também?

    Elio Ferreira: Certamente. Convidávamos, também, os músicos para se apresentarem. Conviviam juntos os territórios da poesia e da música. Alguns amigos compositores como Alex Fraga, Gutemberg, Joel Piccini, Altair Oliveira, Guimarães Rocha, entre outros.  Conheci Almir Sater nessa época, era muito talentoso e estava começando. Levávamos a poesia também para os bares, enfim, difundíamos a poesia por todos os lados. Era um momento efervescente em que lutávamos pelas “diretas já”. A poesia que apresentávamos estava, sobretudo, com a marca do engajamento, da luta política, das transformações sociais que ambicionávamos.

    Daniela Aragão: Você é pesquisador na área de literatura africana há cerca de vinte e cinco anos. Como se deu essa sua relação de encantamento e entrega à cultura africana?

    Elio Ferreira: Quando morei em Campo Grande, a questão do negro pulsava em minha cabeça pela própria vivência, mas não tinha me vinculado ainda ao Movimento Negro. Em 1984 foi que me integrei ao Movimento Negro, o MNU (Movimento Negro Unificado) em Brasília. Discutíamos, na época, a necessidade de se implantar o ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas. Ações afirmativas, como as cotas para negros. Reuníamos aos finais de semana para debatermos essas questões. Nesse mesmo período comecei a fazer parte da Revista Trabalho, do PT (leninista-trotskista). Um ano de intensa militância no Movimento Negro me deu uma experiência enorme, sobretudo em relação ao entendimento da história do negro e do preconceito racial no Brasil.

    Um dos primeiros trabalhos que fiz em torno da questão do negro consistiu na análise da presença de estereótipos raciais relacionados à representação da figura do negro na poesia de Drummond. Trabalhei, também, Aluísio de Azevedo em “O cortiço” e Dão-Lalão, de Guimarães Rosa.

    O primeiro poeta negro o qual fiz meu primeiro estudo foi Luiz Gama. Um dos objetos de estudo principais de minha dissertação de mestrado intitulada “Identidade e solidariedade na literatura do negro brasileiro: de Padre Antônio Vieira a Luiz Gama”, defendida na Universidade Federal do Ceará em 2001.

    Daniela Aragão: Sua participação no Movimento Negro possibilitou novas experiências culturais?

    Elio Ferreira: No Movimento Negro, cheguei a dirigir uma peça, falava sobre o Robison, um operário negro que foi torturado até a morte pela polícia. Antes de entrar, exclusivamente, no universo da poesia eu vivenciava uma alternância entre ela e o teatro. Foi o Movimento Negro que me deu todo o suporte inicial. Quando voltei para Floriano levei minha experiência, a crítica social e a consciência da negritude. Lá havia um movimento cultural, mas não muito conectado com questões políticas, raciais e sociais. Consegui com mais outros amigos integrantes do movimento cultural da cidade um espaço na rádio, que consistiu numa atuação significativa no debate das questões relacionadas à afrodescendência.

    Daniela Aragão: Foi significativa a atuação que você teve ao lado dos militantes do movimento negro na rádio de Floriano.

    Elio Ferreira: A partir do programa que implantamos na rádio alteramos, substancialmente, o comportamento da cidade. Atuamos ecologicamente: plantamos árvores frutíferas e não frutíferas e distribuímos centenas de mudas de plantas. Falávamos do racismo, fazíamos recitais de poesia erótica na rádio. Como estávamos num momento de abertura, convidávamos para debates integrantes de diferentes tendências políticas. Colocávamos em pauta muitas questões que estavam à margem, como os direitos das mulheres e homoafetividade. 

    Daniela Aragão: Além de abrir espaço para a discussão de temas que geravam muita polêmica numa cidade que funcionava nos moldes mais provincianos, vocês também procuravam “incomodar” com a inserção de artistas de vanguarda não é?

    Elio Ferreira: Tínhamos também o apoio da rádio para divulgarmos gente da música oriunda de outros estados. Além do pessoal que seguia a tradição de Luiz Gonzaga, colocávamos para tocar músicas de vanguarda que não tinham muito espaço como Arrigo Barnabé e Itamar Assunção. Veiculávamos, também, a música de Paulinho da Viola, Chico Buarque, Elis Regina, Alceu Valença e Luiz Melodia.   Por meio da força que conquistamos nesse veículo foi possível impulsionar uma campanha e recuperar o espaço da primeira usina elétrica de Floriano “Maria Bonita”, transformando-a num teatro. Isso foi um grande passo, visto que o único teatro que a cidade possuía era pertencente à igreja. Mantivemos nossa atuação na rádio durante três anos e sete meses, até nos despacharem. 

    Daniela Aragão: Fale sobre suas performances poéticas

    Elio Ferreira: A década de noventa foi um momento crucial de transformação política no Brasil, depois do governo Collor estourou uma crise em que a minha poesia foi solicitada. Mudei-me de Floriano para Teresina, nesta época.  Foi uma fase muito produtiva em que eu estava escrevendo muito. Resolvi falar poesia pelo megafone e com a cara pintada.

    Daniela Aragão: Seu livro “Contra lei” é inspirado nessas vivências?

    Elio Ferreira: Sim, meu livro “Contra lei” ganhou mais força com o acompanhamento de um roteiro fotográfico que marca vários pontos de Teresina. Este roteiro foi realizado pelo poeta Manoel Ciríaco, que fez o projeto fotográfico com o fotógrafo Nonatinho Medeiros.  Tornou-se uma espécie de assentamento dos trilhos, um espaço antes não aproveitado. Considero este meu momento de iluminação, em que me volto para as questões fundamentais da existência. Tematizo o problema da violência no poema Abracadabra, que é um rap que fala sobre um menino negro que foge do esquadrão da morte. Este poema estava ligado à problemática do extermínio das crianças. Uma extensão reflexiva sobre a chacina da Candelária, no Rio de Janeiro.

    Daniela Aragão: A poesia resolve ou revolve?

    Elio Ferreira: Numa época de intenso calor e seca resolvemos reunir uma série de poemas em torno do tema da chuva, desejávamos fazer chover. Os tambores batiam e conduziam a base rítmica enquanto líamos os poemas. Cantamos para chover e um dia choveu. A palavra foi capaz de mover a natureza e trazer a chuva.

    Daniela Aragão: Como se deu a longa trajetória da “Roda de poesia”?

    Elio Ferreira: Em 95 entrei no movimento hip-hop montando com uns amigos a banda “Os contra Lei”.  Participei de uma caminhada poética em São Paulo, em homenagem a Luiz Gama à convite dos Cadernos Negros. Em 2000 criamos a roda de “Poesia e tambores” que durou dez anos. Em algumas apresentações falávamos poesia durante três horas. Certa vez tivemos quarenta e três poetas. A “Roda de poesia” foi uma escola estimulante para os poetas e que transcendeu o universo da poesia, pois por meio dela, também, acionamos movimentos como o de salvação do rio Parnaíba. A roda se deslocava: dos bares às universidades. Realizávamos um diálogo étnico, pois visitávamos a tradição africana e indígena. Nossa roda de poesia é referência.

    Daniela Aragão: E o congresso África-Brasil?

    Elio Ferreira: Antes do primeiro África-Brasil realizamos dois colóquios na UESPI de literatura afro-brasileira e africana. Inauguramos o congresso África-Brasil, em 2009, com a proposta, desde o princípio, de intercâmbio internacional, com a participação de escritores africanos e convidados de várias universidades brasileiras.

    Daniela Aragão: O que motivou a realização do África-Brasil?

    Elio Ferreira: O evento surgiu a partir da lei 10639, de 2003, que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana e da lei 11645, de 2008, que incluiu o ensino da história e da cultura indígena e reafirmou as prerrogativas da lei 10639.   Nosso congresso não se deu somente dentro da obrigatoriedade de qualificar professores, dando-lhes alicerces substanciais para se aprofundarem nas questões que envolvem a afrodescendência. Debatemos sobre a importância da consciência dos direitos dos povos afrodescendentes.

    Daniela Aragão: Como você analisa a aplicabilidade destas leis?

    Elio Ferreira: Percebo que o ensino atual não está atingindo o propósito, torna-se necessário que se criem disciplinas transversais de literatura, história e cultura negras nas escolas. Deve-se elaborar estratégias de planejamento que contemplem verdadeiramente esses valores.

    Daniela Aragão: O congresso África-Brasil tem demonstrado um crescimento significativo tanto no que se refere à riqueza de propostas e abordagens quanto no número de participantes, não é?

    Elio Ferreira: Certamente. Em 2011 publicamos quarenta e sete artigos decorrentes das apresentações, palestras e comunicações apresentadas no segundo congresso África-Brasil. Em 2013 tivemos quatorze mesas redondas, três conferências, noventa e cinco comunicações, resultando num total de quase cento e noventa trabalhos apresentados. Publicamos nos anais que se encontram no site oficial. Para este ano convidamos Cheryl Sterling, dos Estados Unidos, além de vários convidados de universidades brasileiras. Há pesquisadores americanos também inscritos no evento.  Mais de sessenta universidades brasileiras estarão representadas. Além de intercambiar o conhecimento, este congresso será fundamental para firmarmos alguns pontos importantes em relação às ações afirmativas que compreendem os direitos sociais dos negros.

    Daniela Aragão: O que é a literatura para a sua vida?

    Elio Ferreira: Vou sintetizar num provérbio Bambara: “O que eu sei hoje eu aprendi de alguém, o que se diz hoje sempre existiu”.


    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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