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    Daniela Aragão Daniela Aragão 5/03/2016

    Entrevista com a professora e pesquisadora Márcia Nascimento

    Daniela Aragão: Como começou sua relação com a palavra?

    Márcia Nascimento: A palavra em minha vida começou com duas pessoas, meu pai e minha mãe, que são semi-analfabetos e exímios contadores de histórias. Eles contavam histórias, minha mãe me narrava sobre sua época em Diamantina, suas passagens por Belo Horizonte e Juiz de Fora. Ela foi uma mulher do mundo, já meu pai ficou mais aqui em Juiz de Fora. Quando eu estava na fase de alfabetização, minha mãe tinha uma vendinha e eu a ensinei a escrever seu nome: Maria Firmina dos Santos, para que ela tivesse seu talão de cheques e começasse a comprar as coisas para a venda. Acho isso muito interessante, pois quando fui para a faculdade de letras fiquei muito feliz, visto que vinha de escola pública.

    Daniela Aragão: Imagino que desde o início prosseguir no estudo foi um exercício de coragem e resistência.

    Márcia Nascimento: Quando comecei a ser alfabetizada uma vizinha dizia que eu chegava às aulas com um caderno, um lápis e uma borracha dentro de um saquinho de arroz. Minha sobrinha me perguntou se este fato era verdade e confirmei que sim. No entanto, toda essa dificuldade nunca me impediu de continuar estudando. Como éramos muitos irmãos e sou a caçula, eu tinha que aguardar até que chegasse a minha vez na compra da lista de material escolar por crediário.

    Daniela Aragão: Na época do curso de letras você conciliou trabalho e estudo?

    Márcia Nascimento: Entrei para o curso noturno, trabalhava o dia inteiro numa fábrica. Parei de trabalhar em função dos projetos que fui desenvolvendo na universidade. Desejei me dedicar inteiramente à literatura e as línguas estrangeiras. Passei o ano inteiro de 1998 na base do sanduíche e com o auxílio de uma bolsa de apoio estudantil da UFJF. Fui uma das primeiras estudantes a ser contemplada com essa categoria de bolsa. Comecei também neste momento a me preparar para o tão desejado mestrado. Sempre quis trabalhar com literatura africana e a poética do Edimilson de Almeida me foi apresentada por Maria Nazareth Fonseca.

    Daniela Aragão: Você traz uma consistência no estudo de africanidade. Gostaria de saber se na época em que iniciou suas pesquisas nessa área você encontrou resistência.

    Márcia Nascimento: Lógico. Iniciei muito timidamente o estudo voltado para a africanidade no mestrado, pois na época eu não possuía uma bibliografia levantada. A poesia de Edimilson Pereira me foi apresentada num colóquio das universidades federais de Minas em 1997. Esta foi a primeira vez que tive contato com a literatura negra. No mestrado fiz um recorte ainda muito incipiente da presença da literatura africana sobre a produção do Edimilson. Inseri mais dois poetas que são o Fernando Fiorese e Yacir Anderson Freitas, os três fizeram parte do chamado “Movimento Abre Alas”.

    Nessa época ainda não tínhamos tanto acesso a internet, fiz entrevistas com os poetas que me deram uma boa sustentação para minha pesquisa. Questionei em minha dissertação o motivo de os poetas dos anos 90 terem se fixado no eixo Rio- São Paulo. Inclusive os poetas negros como Ricardo Aleixo. Edimilson neste momento ainda não aparecia neste no panorama da literatura. Ele já apresentava uma certa ação social, pois pertenceu a Fundação Palmares nos anos oitenta, como intelectual ao lado de Cuti.

    Daniela Aragão: Seu livro “As duas margens do atlântico” resulta de sua pesquisa de doutorado. Fale um pouco sobre ele.

    Márcia Nascimento: Durante o doutorado eu trouxe o poeta Angolano Rui Duarte Tavares, que trabalha com comunidades tradicionais. Trata-se de um poeta que vivenciou uma espécie de “racismo às avessas” porque ele é branco, escreve sobre tradição oral e disse que sempre sofreu um preconceito em Angola por ser branco. Fiz então o confronto explicitando a questão da autoetnografia: o auto eu chamo de sujeito, o etno é o sujeito inserido num grupo cultural e a grafia é a escrita deste sujeito por ele mesmo, ou por representação. Já que a literatura afro-brasileira, ou afro-luso-brasileira num primeiro momento é oral, ágrafa, precisamos deste produtores interculturais. Chamo estes dois poetas de poetas etnógrafos. Isso seria comparado a auto-ficção. Esta autoetnografia pode ser comparada a autoficção, pois ali eles podem inventar pudores, como diz Rui Duarte, ele denomina este procedimento “meia ficção”. Já Edimilson chama isso de “encontro de corpos”. Trabalho o corpo social negro inserido dentro dessas comunidades tradicionais.

    Daniela Aragão: O que são as chamadas “comunidades tradicionais”?

    Márcia Nascimento: São as comunidades que possuem ainda um traço de substância etnográfica. Elas vivem em mucambos, ou comunidades remanescentes de quilombos. Dentro do Brasil esta vivência é denominada Quilombismos e na América latina se chama Simarron. Edimilson possui um livro em espanhol “O signo Simarrom”. Essa questão do homem e a natureza a meu ver está presente tanto na etnopoética do Edimilson, quanto na de Rui Duarte de Carvalho. Por vezes em meu livro “As duas margens do atlântico” parece que estou falando do mesmo poeta, dada a proximidade entre eles e o próprio recorte que realizei.

    Daniela Aragão: Você já problematiza a tradução intercultural.

    Márcia Nascimento: Quem problematiza isso é Boaventura de Souza Santos dizendo que a tradução intercultural é necessária por conta das zonas de contato. Não temos mais as zonas de contato bem definidas, e a partir dessa zona de contato temos acesso a uma terceira linguagem, ou seja “a terceira margem do rio”, como escreveu Guimarães Rosa. Rosa e Manuel Bandeira também são muito fortes nos estudos de literatura africana, pois querendo ou não o Edimilson recorreu à negritude de trinta, que estabelecia certo sonho do movimento da negritude. Ele faz referência a Sangor, que dentro da história da literatura africana virou presidente de seu país, um líder político. Agostinho Neto também se tornou presidente.

    Daniela Aragão: Edimilson agrega essas duas faces, tanto a do pesquisador, quanto do poeta. No entanto, nesse boom dos estudos de gênero e de africanidade, é pertinente questionar certo cerceamento, ou seja, os poetas não podem ser amarrados numa “camisa de força”, que se daria pela cor. Acima de tudo Edimilson é um poeta. Não é o caso de Edimilson, mas você não considera perigoso por vezes legitimar uma poesia que não tem qualidade, mas que se considera só por ser construção de um “poeta negro”?

    Márcia Nascimento: A Academia é extremamente perversa quando se vai trabalhar com as assinaturas sociais. Por exemplo, a literatura é um caminho que não se fecha em si mesma, estudá-la demanda um caminho em que se deve procurar as outras disciplinas sociais, humanas e culturais, para se oxigenar o que se está estudando. É um trabalho grandioso em que é possível se realizar um recorte com qualidade.

    Quando existia a transversalidade, transculturalidade e interdisciplinariedade do ICHL- Instituto de Ciências Humanas e Letras, nós tínhamos uma integração melhor. No momento em que se tornou Fale (Faculdade de letras), ocorreu uma considerável perda cultural, no sentido de que acabou o diálogo que havia entre os vários segmentos dos estudos humanos que englobavam filosofia, letras, história, geografia, psicologia e ciências sociais. A cisão e a segmentação reduziu a amplitude de pensamento.

    É bom o curso de letras ter essa autonomia, mas nem tanto.

    Daniela Aragão: Principalmente a capacidade que tínhamos de transitar entre outras linhas de pensamento.

    Márcia Nascimento: Temos que ter uma formação humana acima de tudo e multicultural para que se forme o novo profissional. Por isso, muitas vezes determinado professor é rotulado de alienado, justamente porque ele acaba sendo obrigado a trabalhar numa faixa restrita e segmentada. Quando se vai trabalhar com a questão étnica, independente de cor da pele, este problema se torna ainda mais visível. Fica muito mais difícil se aprovar um projeto. Certa vez ouvi a seguinte frase “Você tem que deixar de lado o ardor da militância e sua paixão efervescente para conseguir ser aprovada num doutorado”. Se colocar muito a questão de raça, as pessoas que nunca tiveram acesso a este conceito não aceitam. Geralmente as bancas são brancas, machistas e sexistas. Há muito mais homem trabalhando nas universidades, mas penso que isso tende a mudar.

    Daniela Aragão: Fale sobre sua militância no Movimento Negro.

    Márcia Nascimento: Comecei em Juiz de Fora na época da Juventude Negra. Participei de vários seminários nacionais e em 1998 só existia, se não me engano no Rio, Salvador e Campinas, cursos pré-vestibulares para negros. Na época você até me substituiu quando saí. Este projeto enquanto durou serviu para muitos estudantes da universidade estagiarem nele. Conseguimos conquistar de lá até aqui reservas de cotas, aumentamos o número de negros no ensino superior, tanto como alunos, quanto como professores. Em alguns concursos estão acontecendo reservas de vagas. A partir do momento em que este tipo de política de ação afirmativa se torna lei ordinária, começa-se a ter a garantia do novo direito étnico no Brasil. Somos o primeiro país a fundar a Secretaria de Comissão da Igualdade racial, depois da declaração do Ubam, que era um dos primeiros passos.

    Daniela Aragão: Fale sobre sua participação na Marcha das mulheres negras.

    Márcia Nascimento: Participei, foi a primeira marcha que organizamos em Brasília. Ela está sendo consolidada desde 2011, durante um ano aconteceu um comitê propulsor dessa marcha. Estive trabalhando nos últimos momentos da mobilização. É uma marcha que chamou atenção das autoridades mundiais devido há alguns motivos. Primeiro, temos uma rede de mulheres negras afro-caribenhas, afro-americanas e da diáspora montada na América Latina. Essa referência é mundial, pois até a secretária, a Funzili, fez questão de vir participar da marcha. A presidente Dilma recebeu um grupo de trabalhadoras, vieram quebradeiras de coco do Brasil inteiro. Tivemos mais de cinquenta mil marchantes, sendo que nossa marcha não é reivindicatória, mas sim declaratória. Montamos no Brasil uma plataforma política e produzimos esse material durante a marcha.

    Daniela Aragão: Esse material produzido representa um legado histórico e social?

    Márcia Nascimento: Sim. Produzimos um livro sobre o trabalho doméstico. Eu fui revisora deste livro, um projeto que desenvolvo desde 2011. Há fotos e documentários. O livro foi lançado na Câmara dos Deputados. É importante lembrar que Benedita da Silva foi pioneira em destacar o tema do trabalho doméstico, colocando na constituinte o “ato de disposição transitória”. Um decreto que deu origem ao 486 que trata da regularização fundiária, documento em que, também, eu trabalhei em sua construção.

    Daniela Aragão: O que é literatura para você?

    Márcia Nascimento: A literatura para mim é o caminho para estudar a humanidade. Aprendi que ela é um meio em que se pode tentar administrar as diferenças linguístico-culturais dos povos em contato ou não. A literatura contribui de modo decisivo na minha vida, justo porque não é segmentada, guetisada, por ela eu acesso afetos, sabores e saberes. Meus estudos e minha vida sempre foram conduzidos pelo afeto, os poetas que motivaram meu livro fazem parte de meu afeto profundo, assim como todos os amigos que cruzaram meu caminho na literatura e na vida, contribuindo para o meu crescimento. Tenho um afeto imenso por você, André Monteiro, Anderson Pires, Marcos Vinícius Dutra e Giuliano Kid. Pessoas que me instigaram a sair de minha zona de conforto e que estiveram sempre presentes nas minhas trilhas em Juiz de Fora, minha cidade, em que construí meus primeiros passos, ou fora dela. A literatura é um caminho sem fim, a gente está sempre aprendendo.


    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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