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    Daniela Aragão Daniela Aragão 14/05/2016


    Entrevista com o livreiro Claudio Luiz

    Daniela Aragão: Como começou a palavra e o som em sua vida?

    Claudio Luiz: Descobri a literatura aos nove anos, quando eu era estudante de uma escola pública. Tomei contato com Monteiro Lobato e Malbatahan “O homem que calculava”. Recordo-me que, na época do ginásio, ganhei do diretor da escola três dicionários do Mec: inglês, francês e português. Fui folheando aquilo e tomando gosto, não só pela leitura, mas pelo próprio saber que advinha dela. A partir daí, então, comecei a ler intensamente. Nesta época, eu também lia com muito encantamento revistas em quadrinhos, sobretudo os almanaques.

    Daniela Aragão: Quais revistas em quadrinhos mais lhe seduziam?

    Claudio Luiz: Havia uma revista distribuída nas bancas chamada Geração Pop, que me colocou a par de tudo o que ocorria no universo da música, principalmente, a estrangeira e o rock. Era a época em que eu ia aos bailinhos e hi fis. A literatura e a música foram chegando de maneira concomitante. Gostava muito também, de desenhar e pintar. Comecei a frequentar as galerias de arte. Tudo isso por volta dos 14 aos 16 anos.

    Daniela Aragão: Qual foi seu primeiro trabalho?

    Claudio Luiz: Comecei trabalhando na famosa Fábrica de Cobertores São Vicente. Com meu primeiro salário, abri um crediário na livraria e papelaria Pena de Bronze. Isso se deu por dois motivos, sou o filho mais velho de uma família de sete filhos, cabia a mim auxiliar na compra do meu material escolar e dos meus irmãos mais novos. Mais tarde, quando eu tinha por volta de treze anos e estudava na escola Euclides da Cunha, fui escolhido para participar do Grêmio literário Lima Barreto. Os grêmios literários eram muito comuns naquela época. Há muitos anos, desde que me entendo por gente, vivo no grande ramo das artes: artes plásticas, música e literatura, sobretudo.

    Daniela Aragão: Sua livraria é um espaço em que se privilegia a boa música. Como veio esse legado musical tão rico que você traz?

    Claudio Luiz: A música começou, especialmente, com meus pais, Vicente e Geni. Meu pai tocava percussão no conjunto do Ministrinho. Meus tios, Lair e João, tocavam violão e cavaquinho. Era a época da rádio e ouvíamos o que havia de melhor no samba canção: Maysa, Vicente Celestino, Francisco Alves, Lupicínio Rodrigues, João da Baiana, Mano Décio da Viola.

    Daniela Aragão: Penso que em sua infância você convivia com música nos arredores de sua casa. Era comum os músicos fazerem encontros nos bares.

    Claudio Luiz: Exatamente. Em minha casa e nos botequins, na região do bairro Dom Bosco, antes mais conhecido como Serrinha. Meu pai e seus irmãos se reuniam em bares e botequins para tocar música regional. Nunca entendi bem o uso deste termo, acho que era regionalista, por ser diferente dos importados, que começavam a chegar. Ouvíamos samba de altíssima qualidade. Foi a partir daí que comecei a gostar e entender o real sentido da palavra amador.

    Daniela Aragão: Parece-me que a compreensão do sentido da palavra amador para você veio na vivência da força e autenticidade da música.

    Cláudio Luiz: A palavra “amador” é vista muita vezes numa concepção pejorativa, referente àquilo que não deu certo. No entanto vem do “amar”, amador. Meus pais e meus tios eram grandes instrumentistas, nenhum deles possuía estudo formal de música e nem sequer avançaram no tradicional ensino regular. Eles tocavam, magistralmente, afinavam os instrumentos, conheciam as melodias e letras, tudo com uma sabedoria adquirida na prática da vivência. Eram letras difíceis.

    Daniela Aragão: Certamente, aquele padrão parnasiano de longos versos com letras derramadas e cheias de exaltação às dores de amor.

    Claudio Luiz: Havia a força da interpretação acima de tudo. Quando se pegava, por exemplo, Vicente Celestino, Orlando Silva, Nelson Gonçalves. Eram grandes vozes. Depois vieram cantores com uma interpretação menos expressionista, como Tito Madi.

    Daniela Aragão: Seu percurso pela literatura veio de maneira autodidata?

    Claudio Luiz: Fui buscando, descobrindo. Tenho em minha biblioteca livros de segmentos diversos, não somente literatura, romances. A literatura brasileira me atrai muito, principalmente as obras que trazem a tematização do embate do homem com a natureza. Vidas Secas, Caetés. Aprecio Jorge Amado por sua relação com a história afro-brasileira. A escola mineira também é muito bonita.

    Daniela Aragão: Como surgiu o ofício de livreiro?

    Claudio Luiz: Alguns amigos dizem que fui um dos caras que em outra encarnação mandou queimar a biblioteca de Alexandria. Venho ao longo de trinta e seis anos trabalhando com livros, nas mais diversas situações. Fui gerente de livraria, mais adiante trabalhei com Rogério Teixeira, que foi um grande professor e incentivador. Trabalhamos juntos na Livraria Quarup, que consistia também num espaço cultural.

    Daniela Aragão: Fale sobre o Espaço Cultural Livros e artes.

    Claudio Luiz: O Espaço cultural livros e artes era um centro cultural. O primeiro andar consistia numa livraria que abrigava todos os grandes lançamentos nacionais e internacionais, inclusive da área técnica. No segundo andar, tínhamos uma galeria de arte e no terceiro andar o cineclube Humberto Mauro. Este espaço existiu de 1983 a 1988, nele tive a oportunidade de conversar com muitos artistas. Gente do cinema, teatro, artes plásticas e, principalmente, do mundo dos livros.

    Daniela Aragão: O espaço “Cultural Livros e Artes” tornou-se um marco por dar suporte às propostas culturais.

    Claudio Luiz: Me recordo de que fomos, de certa forma, protagonistas da campanha Mascarenhas meu amor, que se constituía no tombamento do Espaço Mascarenhas, como patrimônio cultural da cidade. Na ocasião, estiveram em Juiz de Fora, na defesa desta causa, Milton Nascimento, Ruth Bueno, Rubem Fonseca, Affonso Romano, entre outros.

    Daniela Aragão: O que move sua entrega ao universo dos livros?

    Claudio Luiz: Acho que este trabalho vem de minha paixão pelos livros, que trago desde a infância. O prazer de tocar nas obras, apreciar, guardar. Eu nunca desejei sair deste universo que aglutina todos os outros meios que gosto: artes plásticas, cinema, literatura. Algumas coisas afins, as discussões polêmicas sobre os mais diversos assuntos e a cultura.

    Não me lembro, exatamente, quando comecei com o trabalho de livro. Na época eu era militar e comecei a vender coleções. Fui me aperfeiçoando, há muitos altos e baixos, como em qualquer produção. O trabalho com o livro não me deixa ser o mesmo todo dia. Sempre faço, diariamente, a mesma coisa que é vender livro, mas são livros diferentes e situações diferentes em cima de um mesmo produto. É uma carga nobre que precisamos valorizar.

    Daniela Aragão: Você é conhecido, respeitado e procurado pelos leitores. Acredito que isto é uma conquista. Não é?

    Claudio Luiz: Na verdade, trata-se da construção de uma carreira, cada escola que passei me formou de alguma maneira. Quase sempre aliado a isso, a convivência com pessoas sensíveis, gente que tem o que dizer. Trabalhei com venda de livros em épocas em que não havia as grandes mídias, os grandes prêmios literários, as Leis de incentivo à cultura. Fazíamos muita coisa do próprio bolso.

    Daniela Aragão: Trabalhar com cultura é um desafio.

    Claudio Luiz: Sempre soube que trabalhar com cultura não é fácil. No entanto, gostaria de frisar que o trabalho com o livro somente me engrandeceu. Posso dizer que nesses anos todos aprendi muito com as pessoas, mas lidando com os livros acho que cursei livremente uns quatro cursos superiores. Você fala sobre matemática, metafísica, as teorias da literatura e da semiótica, propedêutica. O ato de ler, a intimidade com o produto livro foi me trazendo isso.

    As pessoas acham que tudo é glamour, mas passei por muitas dificuldades. Há uma reflexão existencial que coloca a relação de merecimento. Todos nos achamos capazes de merecer, mas será que estamos construindo para tanto? Vivemos numa sociedade de falsa moral, onde muitos querem se locupletar das facilidades. Tudo demanda uma dedicação imensa, tijolo por tijolo num desenho mágico, como diz Chico Buarque em Construção.

    Daniela Aragão: Você é um resistente, pois trabalhar com o livro e a cultura num mundo de dissolução dos valores em que impera a perenidade e o descartável.

    Claudio Luiz: As pessoas têm o livro hoje como um objeto utilitário. A pessoa precisa ler, fazer um trabalho, estudar. Não se vê mais ninguém querendo formar a sua biblioteca. Ao contrário, no Brasil um dos estabelecimentos que mais fecham são bibliotecas e livrarias. As novas tecnologias trazem tudo muito fragmentado e em geral sem muita consistência. Há muitos “conhecimentos” contestáveis, como a tal enciclopédia aberta Wikpédia.

    Daniela Aragão: É impressionante a desvalorização, no Brasil e no mundo, do objeto livro.

    Claudio Luiz: Não há mais uma vontade de busca pela erudição. Enganosamente, muitos pensam que erudição está ligada a escolaridade e não é. Basta pegarmos e lermos nossos ancestrais africanos, os griots eram sábios. Uma sabedoria inconteste, que foi passando de geração em geração, aldeia a aldeia. Conhecimentos de uma sociedade que era ágrafa, mas que se sustentava em cima do conhecimento do mais velho, que era um erudito. Não havia escola, nesse modo de funcionamento que conhecemos.

    Daniela Aragão: Aproveitando sua menção aos Griots, gostaria que falasse sobre sua atuação no movimento negro.

    Claudio Luiz: Sempre falei que o movimento negro, antes de mais nada, é um movimento social. E como tal, você pensa ao modo da ecologia. Ou seja, pense, globalmente, e haja, localmente. A questão do negro e do índio também passa por isso. Vamos refletindo sobre os processos de discriminação e racismo. Hoje, com os avanços que aconteceram em relação aos negros, costumo dizer aos meus amigos que estamos pavimentando uma sociedade melhor para os nossos filhos e netos. Para que eles não tenham mais que passar a vida combatendo o racismo. A ideia de raça mudou inclusive do ponto de vista biológico, quando se fala em raça não é mais uma questão, meramente, genotípica ou fenotípica.

    Daniela Aragão: Quais os avanços a seu ver mais evidentes na sociedade quanto à questão da discriminação do negro?

    Claudio Luiz: Ao longo de quarenta anos estou na luta, na conquista dos mecanismos jurídicos que hoje dão sustentação para a implantação da cultura africana ou afro-brasileira, ou afro descendente nas escolas e universidades. Recordo-me de Abdias Nascimento, quando ele fundou o Teatro Experimental do Negro, um ato heróico e extremamente difícil. Ele levou esta bandeira até morrer, com cerca de noventa anos. Graças a personalidades como a de Abdias do Nascimento, temos a obrigação de defender e amenizar as tensões na sociedade.

    Daniela Aragão: Há escritores que te instigam na reflexão sobre a condição negra?

    Claudio Luiz: Gosto muito de ler o Milton Santos, quando ele fala da raça, não somente no ponto de vista do Brasil, mas num ponto de vista geopolítico. Pelo que sou hoje, me considero uma elite dentro do conhecimento das questões sociais. Até por eu ser negro, me sinto na obrigação de puxar, e ajudar a ascender outro negro. Não somente pelo lado do estudo, que você alinhava, mas pela questão econômica e, sobretudo, humanitária. A contribuição de ajudar o outro a ascender e este fazer o mesmo. Pode ser que essa bandeira eu consiga passar para os meus netos, posto que meu filho já levanta esta bandeira, também. Assim a sociedade vai se tornando melhor.

    Daniela Aragão: Como você observa o lugar da mulher negra hoje?

    Claudio Luiz: Hoje muitas mulheres negras estão nas universidades, na liderança de empresas, viajando o país e o mundo inteiro com garbo, galhardia e conhecimento. Fato que antes não acontecia, devido à estratificação que julgava o negro inferior, fedorento. Hoje, em Juiz de Fora, estamos vivenciando uma experiência muito bonita com o grupo Candaces, composto só por mulheres negras. Mulheres bonitas, negras, que estão chamando outras mulheres. Há também o Movimento Encrespa, que trata da valorização dos atributos naturais da mulher negra, como os cabelos encrespados. A mulher no seu todo ser humano. Só temos colhido resultados muito bons, acho que será espelho, quiçá, para movimento mundial.

    Daniela Aragão: Devido ao seu trabalho intenso na militância cultural você recebeu alguns prêmios?

    Claudio Luiz: Recebi a medalha Nelson Silva, aqui em Juiz de Fora e a Comenda Henrique Halfeld, como condecoração aos trabalhos prestados. Isso me traz muito orgulho, não meramente por uma questão de vaidade, mas de reconhecimento de meu trabalho.

    Daniela Aragão: Os Estudos Culturais cada vez mais dão amplitude à discussão e reflexão sobre a questão africana.

    Claudio Luiz: Dentro da concepção dos estudos culturais, a contribuição negra é exemplar. É impossível se pensar a ideia de nação excluindo o negro. Da mesma forma o índio. O que temos de negro em nós e muito, tanto quanto ou mais que europeu. Só pelo princípio da religiosidade, tudo o que pensamos do ponto de vista da religião carrega células da cultura negra. O caso da umbanda, oriunda do candomblé. O Brasil é esse amálgama, e nesse sentido o negro brasileiro tem muita importância.

    Daniela Aragão: O que é a literatura pra você ou a palavra.

    Claudio Luiz: A literatura é uma linguagem que humaniza o homem. Essa potencialidade, também, se manifesta em outros segmentos de arte. A única maneira que há para salvar a própria vida ainda é através da literatura, pois neste mundo de capitalismo selvagem, a vida é “pagar contas”. A literatura transforma e justifica o mundo.


    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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