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    Grupo de Hip Hop de Juiz de Fora é um dos finalistas no Festival Internacional em Curitiba

    Apenas com 11 meses, Remiwl Base já ficou em segundo lugar na competição de Três Rios (RJ) e ganhou seletiva regional para competir no festival nacional em julho

    Angeliza Lopes
    Repórter
    27/06/2015
    hip hop

    O talento dos movimentos sempre esteve acima de qualquer obstáculo social criado nas periferias de Juiz de Fora. Há 10 anos, jovens profissionais do hip hop se uniram para formar um grupo de peso chamado Remiwl Street Crew. A turma de amigos, que já competia, mas individualmente em festivais de dança, decidiu formar uma família, que idealizava um dia tonar possível o sonho de tantos outros jovens, iguais a eles. Com este propósito que o projeto Remiwl Base nasceu e é composto por 34 adolescentes de 12 a 18 anos, dos bairros São Benedito, São Pedro, Jardim Casablanca, Linhares, Retiro, Caiçaras, Santa Cruz, Jóquei Clube e de outras cidades, como Santos Dumont e Três Rios. As rixas que existem entre eles é apenas na pista de dança, mas fora dela são uma família muito unida.

    Entre os dias 10 e 12 de julho, o grupo vai representar Juiz de Fora no Festival Internacional de Hip Hop (Fih2), que acontece em Curitiba (SP). Eles estão entre as 50 equipes finalistas, competindo com dançarinos de todo o Brasil e são um dos três grupos de Minas, que foram para a final. As seletivas acontecem em todo o país, sendo que a de Minas aconteceu em Viçosa. Israel Alves, coreografo e integrante do Remiwl Street, conta que desde 2009 os integrantes tinham vontade de colocar em prática o projeto de dança voltado para adolescentes da cidade. "Apenas há 11 meses que conseguimos implementar e com três meses de ensaio já ganhamos segundo lugar no Festival de Dança de Três Rios. Nossa ação é totalmente filantrópica e independente", destaca.

    Sem apoio do poder público e de patrocinadores, o grupo tenta se manter com as próprias pernas. Para arcar com as viagens durante as competições, precisam angariar recursos através da venda de chocolate e com a realização de festivais de torta. Outra ação são as intervenções em alguns pontos da cidade, como em frente ao Cine-Theatro Central. Para o próximo festival já conseguiram pagar hospedagem e taxa de inscrição, mas falta o valor do ônibus para todos os integrantes. "Temos muita dificuldade em conseguir apoios externos, por isso fazemos as ações com a ajuda das mães dos alunos e deles próprios", completa.

    Os ensaios são todos os finais de semana, na quadra da Escola Municipal Antônio Carlos Fagundes, no bairro Francisco Bernardino. "Conseguimos o espaço gratuito com a mãe de uma das alunas que é professora na escola e cedeu o local. Colocar fora do papel este projeto é uma satisfação imensa. Tirar estes jovens da zona de risco e levar a arte até eles como ferramenta transformadora é fantástico".

    Mais que dançar, queremos trabalhar com o social

    O sentimento de transformação é comum entre os jovens que participam do grupo. Diego Sinfronio Muniz, 20 anos, mora no bairro Linhares e faz parte do Base desde o começo. Ele conta que já faz aulas de dança desde os 10 anos. Sua primeira experiência foi através do projeto 'Café com Hip Hop' e não parou mais. A dança motivou Muniz a buscar um caminho diferente de outros amigos que não tiveram a mesmo chance. "Já perdi um amigo e teve tantos outros da minha escola que escolheram a oportunidade errada. Aqui no Remiwl Base nossos coreógrafos fazem questão de nos escutar quando não estamos bem, por isso vejo que a parceria que temos não é só profissional, mas de uma família de verdade", destaca.

    Alves afirma que é frequente histórias relacionadas com drogas e atritos familiares entre os alunos. "Um dos integrantes tem convívio com parente que é traficante e usa armas naturalmente. Ele precisou ficar recluso em casa sem poder sair para os ensaios e até para a aulas escolares, pois um vizinho foi morto e poderia haver retaliação. Entendemos estas realidades e trabalhamos o social destes jovens, ouvindo e colocando regras. Não tem como separar as duas coisas".

    Para fazer parte do grupo, os coordenadores cobram boletim e frequência escolar. Caso os alunos descumpram a regra, ele é suspenso do próximo ensaio e viagem de competição. Maria das Graças Carneiro, mãe de Francisco e Francislaine, 17 e 18 anos, acompanha todos os ensaios e aprova os trabalhos do grupo. "O projeto exige muita disciplina e oferece segurança aos meus filhos e todos que fazem parte. Falam de estudo e cuidam da saúde dos meninos, com orientação sobre o não consumo de bebidas alcoólicas e até mesmo refrigerante. Eles preparam os garotos para uma carreira profissional mesmo, com dicas para alimentação balanceada para garantir condicionamento físico. Além disso, eles não querem que cada um pense de forma individualizada. Sempre frisam o trabalho e convivência coletiva. São realmente uma família", destaca.

    Laura Andrade Curcio, 17 anos, mora no Caiçaras e fala da importância de cultivar amizades que superam as diferenças de bairro e classe. Ela conta que muitos jovens que moram em seu bairro têm rixa com outros, como Jardim Casablanca, onde vivem Maria das Graças e seus filhos. "Não vejo sentido nestas brigas. Nos damos muito bem!". Ela conta que a mãe é bailarina clássica e a própria diferença de gosto é um desafio dentro de casa. "Comecei com o jazz aos sete anos e quando descobri a dança de rua com, 11, não quis mais sair. Hoje, minha mãe não entende muito, mas nos entendemos", conta Laura, que quer se tornar dançarina profissional.

    Futuro promissor

    Além de Laura que afirma querer um futuro na dança, Israel Alves ressalta que a entrega é tão grande que muitos alunos se dedicam para continuar como profissionais. "Mostramos que é possível se tornar professores e dançarinos. Um de nossos alunos, de 16 anos, foi convidado para entrar em uma Companhia de Dança de Jundiaí (SP) com bolsa integral e apoio financeiro para ficar na cidade, mas ele optou por continuar no projeto. Dois integrantes da Remiwl Street Crew também foram para fora do Brasil e outros já fizeram apresentações no exterior", destaca.

    Outra realidade é tentar diferentes carreiras associada a dança. De acordo com Alves, o grupo possui graduandos de enfermagem, jornalismo, artes cênicas e educação física, como Diego Muniz que também está entre duas profissões. Ele fez curso técnico de segurança do trabalho, mas não largou os ensaios. Mesmo enfrentando algumas críticas da família, ele acredita que exista oportunidades na área. "Vejo que existe espaço para ganhar dinheiro com a dança. Nossos coordenadores nos mostram, com vários exemplos promissores".

    Hip Hop ganha espaço em JF

    Alves afirma que o hip hop e a dança vêm ganhando força em Juiz de Fora, saindo das periferias e ganhando espaço nas áreas centrais. "Ouvimos que esta dança de rua é vista como a 'Voz da Favela'. Mas tonar mais palpável para o entendimento de um coletivo é muito importante para o crescimento do movimento. Nas escolas já vemos muitas oficinas de dança, música e grafite. Mais pessoas passam a entender e valorizar", conclui.

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