Investimento em bibliotecas pode reduzir índices de violênciaPara melhorar a qualidade de vida dos moradores do bairro Vila Olavo Costa, especialista sugere instalação de uma unidade no local
Colaboração*
1/11/2010
As transformações sociais e culturais influenciadas pela implantação de bibliotecas em ambientes carentes é alvo de estudo do professor de filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora, Ricardo Vélez, que sugere a instalação de uma unidade e de um centro de lazer e de esportes no bairro Vila Olavo Costa.
Cerca de quatro mil pessoas vivem no bairro e quase 12 mil estão nas imediações do local. Dentre essa população, cerca de dois mil são formadas por crianças e adolescentes, segundo informações da Polícia Militar (PM). Muitos dos menores não possuem um bom nível de escolaridade e de experiência profissional, o que dificulta a entrada no mercado de trabalho. Segundo a PM, jovens chegam a ganhar cerca de R$ 40 por dia para vigiar os locais de tráfico, fator estimulante à inserção dos menores na criminalidade, já que os salários que o mercado oferece são bem menores.
Vélez estudou o impacto das bibliotecas na população em duas cidades da Colômbia e percebeu que o investimento nos espaços pode ser um redutor do índice de violência. "É claro que os investimentos, em ambas as cidades, vieram acompanhados de outros, como geração de oportunidades de trabalho nas áreas carentes. Mas o fator cultural das bibliotecas foi definitivo no aumento da autoestima dos habitantes das áreas carentes."
Ele diz que a instalação de bibliotecas e centros de lazer e esporte podem ser decisivos na melhoria da qualidade de vida. "É grande a importância do projeto por oferecer aos jovens um espaço sadio de lazer, como meio para elevar a autoestima dos moradores e como forma de criar nexos entre a PM e os habitantes dessa região tradicionalmente abandonada pelo poder público", comenta Ricardo.
No ano passado, ele ofereceu uma palestra para os oficiais e praças que atuavam no bairro, mostrando os resultados positivos da experiência colombiana com bibliotecas. O professor destaca que durante a palestra notou a presença de líderes comunitários, mas não percebeu a presença de autoridades da Prefeitura de Juiz de Fora. "Seria desejável que as nossas autoridades municipais passassem a se interessar mais por esse tipo de política pública, altamente preventiva da criminalidade".
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Outro projeto
Em 2009, policiais militares que atuam no bairro idealizaram um projeto semelhante à proposta do professor para combater o tráfico de drogas. O objetivo central do projeto é promover atividades orientadas que ocupem o tempo livre dos menores, como atividades esportivas, culturais e de lazer. "A ideia é desenvolver ações com toda a comunidade, tendo como foco principal a criança e o adolescente", afirma o capitão Márcio Coelho, responsável pela iniciativa.
Entre os planos está a construção de um núcleo poliesportivo em um campo, situado no bairro, desativado há quatro anos, além da reforma do antigo posto policial. O posto serviria de sede para a associação de moradores, além de comportar uma biblioteca comunitária, com bibliotecários e contadores de histórias. "A cultura é o maior instrumento de formação do cidadão", afirma o capitão. Também faz parte a assistência de psicólogos e de profissionais da saúde, além da criação de núcleos de mediação de conflitos.
A ideia surgiu em 2009. "Não tínhamos nenhum documento em mãos, a não ser algumas ocorrências envolvendo adolescentes e algumas observações que fazíamos", explica o capitão. O primeiro passo foi atuar de forma repressiva junto a traficantes e pessoas que praticavam delitos mais graves para diminuir a criminalidade no bairro. O segundo passo foi a ocupação em tempo integral do bairro, a fim de detectar os menores que estavam ociosos e expostos à influência do tráfico. A terceira etapa foi buscar parceiros, como instituições de ensino e secretarias da Prefeitura. Entretanto, os esforços para conseguir apoio não foram suficientes.
O projeto foi apresentado à Prefeitura, junto à Secretaria de Assistência Social no início de 2010, e, desde então, não há novidades sobre o andamento das ações. As parcerias não foram honradas e os policiais continuam à espera de resultados. "O dever da PM não é coordenar esses projetos e, sim, sensibilizar o poder público e a comunidade para levar atividades ao bairro e trabalhar com presença policial até mesmo nas salas de aula", explica o capitão Márcio.
Apesar da falta de parceiros, o capitão se diz otimista. "Tenho certeza de que, a partir do momento que conseguirmos o espaço físico, muitos parceiros vão aparecer." Para Coelho, o projeto seria uma alternativa para essas crianças e adolescentes carentes. "Não vou dizer que amanhã essas crianças não estarão envolvidas no tráfico, mas elas não poderão falar nunca que não puderam ouvir o outro lado da moeda."
*Isabela Lobo é estudante do 8º período de Comunicação Social da UFJF.
Os textos são revisados por Thaísa Hosken