Ivan Bilheiro Ivan Bilheiro 20/02/2014

Sobre informação e conhecimento

Um dos vários retratos que podem ser feitos do mundo contemporâneo é o de que ele se configura como um enorme oceano de informações, a todo instante atualizado, reabastecido, renovado. Há uma profusão constante de informações, vindas dos mais variados canais, afogando aqueles que devem ser seus receptores, a todo instante. Nunca na história houve um cenário de tão grande circulação de informações em escala global, nem se tem notícia de outro período histórico em que havia tamanha facilidade para a difusão destes dados. Diante de tal diagnóstico, alguns pontos se colocam inelutavelmente à reflexão, entre os quais há um de especial gravidade: o da "ilusão do conhecimento". Para o âmbito educacional, então, este tópico é ainda mais alarmante.

A sufocante disponibilidade de informações tende a levar os receptores à impressão de que somente a recepção destes dados basta para que haja entendimento sobre algo, para que se estruture o conhecimento, o entendimento. Desta forma, ocorrem situações em que a avaliação do cenário político é feita na base da recepção passiva de informações de um determinado canal; o julgamento de um certo acontecimento notório do país é dado a partir da perspectiva apresentada por uma específica fonte de notícias; e assim segue. No âmbito educacional, este processo aparece também quando as fontes mais fáceis e rapidamente acessíveis são transcritas como conhecimento acerca de um determinado assunto, sem que haja qualquer reflexão crítica sobre tal conteúdo.

O filósofo Michel de Montaigne escreveu em seus Ensaios, nos idos do século XVI, que é preciso valorizar mais uma "cabeça bem feita" que uma "cabeça bem cheia". Recuperando tal ideia no século XX, o também filósofo Edgar Morin, preocupado com a educação, afirmou: "o significado de 'uma cabeça bem cheia' é óbvio: é uma cabeça onde o saber é acumulado, empilhado, e não dispõe de um princípio de seleção e organização que lhe dê sentido. 'Uma cabeça bem-feita' significa que, em vez de acumular o saber, é mais importante dispor ao mesmo tempo de: uma aptidão geral para colocar e tratar os problemas; princípios organizadores que permitam ligar os saberes e lhes dar sentido".

Na mesma linha, a percepção de outro filósofo, Arthur Schopenhauer, em meados do século XIX, era a de que, em geral, estudantes e estudiosos têm em mira a informação, e não a instrução, o que significa um acúmulo de dados e informações sobre as mais diversas áreas, sem que haja capacidade e preparo para a devida avaliação, assimilação e conexão contextual. A comparação feita por ele é precisa: uma biblioteca imensa e mal organizada é menos proveitosa que uma modesta mas ordenada – da mesma forma, uma cabeça com grande acúmulo de informações pode ser perdida, confusa e inepta; mais do que uma que tem menor quantidade de informações, mas que as estrutura segundo um pensamento próprio, amadurecido.

O excesso de informações, portanto, pode ser bastante prejudicial, especialmente por dois motivos: em primeiro lugar, porque tende a sufocar qualquer reflexão crítica acerca das informações compulsoriamente lançadas sobre os receptores; em segundo lugar, porque edifica esta "ilusão do conhecimento": a crença de que as informações bastam, que elas constituem conhecimento, e que o dado recebido passivamente é retrato da verdade e, portanto, conclusão definitiva. A certeza gerada pela "ilusão do conhecimento" é ainda mais temível: ela muitas vezes pode engendrar os preconceitos, os autoritarismos, a intolerância e a violência.

É necessário que o processo formativo (educação em seus mais amplos aspectos) zele pela diferenciação clara entre informação e conhecimento, para que este seja tomado como valor, e aquela, ricamente distribuída como é, torne-se material submetido à crítica e à reflexão. Valorizar o pensamento crítico e apto para o conhecimento em detrimento da cabeça depósito-de-informações acriticamente inculcadas: este é um projeto que se deve assumir.


Ivan Bilheiro é Licenciado em História pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES/JF), bacharel em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), instituição na qual cursa a licenciatura na área. Especialista em Filosofia pela Universidade Gama Filho (UGF) e pós-graduando em Ciência da Religião pela UFJF.

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