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    Problemas com Enem confundem e desanimam estudantesAlunos reclamam de desorganização, fiscalização ineficiente, falta de informação e ficam divididos entre anular a prova e manter resultados. Justiça suspende prova

    Clecius Campos
    Repórter
    8/11/2010
    Foto de alunos em sala de aula

    A estudante Maria Mirelly de Paula é pura indignação. Ela é uma dos 18.283 candidatos que fizeram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no último final de semana em Juiz de Fora e sente-se prejudicada com os problemas ocorridos. "Você sai de casa para fazer uma prova para a qual está preparada, chega e vê tudo bagunçado, vê irregularidades. A gente fica pensando no problema e esquece da prova, desconcentra", desabafa a aluna de 17 anos, que pleiteia uma vaga no curso de Farmácia e Bioquímica na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

    Na sala em que fez o exame, Maria presenciou uma aluna iniciar a prova sem autorização, estudantes utilizando lápis e borracha — itens proibidos no edital — e sofreu com o problema dos cabeçalhos trocados no cartão de respostas referente ao primeiro dia de provas, 6 de novembro. "Os fiscais pediram para que desconsiderássemos o gabarito e preenchêssemos de acordo com o que aparecia na prova." No caderno de questões, os itens de 1 a 45 referiam-se à Língua Portuguesa e os itens de 46 a 90, às Ciências da Natureza. No cartão de respostas, estava ao contrário.

    "Todos os alunos sofreram com esse problema. Em algumas salas foi dito para que o gabarito fosse invertido, em outras pediram para manter de acordo com a ordem das questões nas provas. Foi uma bagunça", conta o coordenador pedagógico de um curso pré-vestibular de Juiz de Fora, Sérgio Castro. Para ele, a quantidade de incidentes danifica a credibilidade do exame e compromete o resultado dos alunos. "Estão todos preocupados. Quem consegue se concentrar assim?"

    Sobre a inversão dos dados, o ministro da Educação (MEC), Fernando Haddad, informou, em entrevista coletiva, que os cabeçalhos impressos eram idênticos aos utilizados no Enem em 2009, quando a ordem da prova era inversa. "Houve uma inobservância da portaria que regulamenta o Enem." Haddad afirmou que não há como apontar de quem é a responsabilidade pelo erro. "No caso de servidores e dirigentes públicos, sempre é dada a possibilidade de defesa, por isso, será aberto um processo administrativo para apuração da responsabilidade." O ministro informou que o ministério irá disponibilizar no sistema online de acompanhamento do Enem, a partir desta quarta-feira, 10, uma página para que os alunos que se sentiram prejudicados pela troca de cabeçalhos no cartão-resposta entrem com requerimento, no caso de terem preenchido o cartão de forma inversa à ordem das questões. O sistema ficará disponível até o dia 16.

    O estudante Wesley Ferreira da Costa tem 19 anos e quer ser aprovado para o curso de Engenharia Mecânica da UFJF. Ele também aponta erros na fiscalização e nas provas. "Soubemos que, por causa dessa confusão, em uma das salas os alunos tiveram uma hora a mais para fazer a prova. Na minha sala acabou na hora certa e também tivemos problemas com o gabarito", diz, referindo-se a prova de sábado. "Soube de um problema com a cor da prova de um aluno. A capa era rosa, mas estava escrito branca. O estudante ficou sem saber que prova estava fazendo. Os fiscais também não sabiam de nada." Os alunos chegaram a reclamar também de problemas relacionados ao conteúdo, como a falta de uma tabela periódica para a resolução de algumas questões de química. "Tinha uma pergunta que não dava para responder sem a tabela", afirma outro estudante.

    Provas amarelas

    Além das reclamações quanto ao conteúdo, parte das provas amarelas, aplicadas no primeiro dia do exame, tiveram problemas. Na tarde desta segunda-feira, 8 de novembro, o MEC divulgou que um erro de impressão no caderno de questões amarelo pode possibilitar a realização de uma nova prova para os estudantes que receberam as provas com problemas. A gráfica responsável pela impressão, a norte-americana RR Donnelley, assumiu que 33 mil cadernos de questões foram impressos com defeito de ordenação. "Durante a aplicação do primeiro dia do exame, identificamos, fazendo a leitura dos quatro itens de caderno de provas que contêm as mesmas questões em quatro ordens distintas de diagramação, que em um dos lotes de produção tivemos um problema de processo, resultando na impressão de 33 mil cadernos de provas amarelas com um defeito de ordenação", diz o texto da carta assinada pela diretoria da gráfica, divulgada pelo MEC. Segundo a instituição, 21 mil cadernos problemáticos foram distribuídos.

    A carta da gráfica afirma ainda que houve a distribuição de um milhão de provas que compõem a reserva técnica operacional para a aplicação do exame e que entre as funções dessa reserva técnica operacional está a substituição de provas com defeito de impressão. Antes da manifestação da empresa, o Inep havia apurado que, do total de cadernos defeituosos distribuídos, a grande maioria foi substituída por um novo exemplar. Naquele momento, o Inep dizia que a prova poderia ser aplicada a dois mil examinados prejudicados. Já em entrevista coletiva, Haddad não confirmou os números. Ele disse que, de concreto, a informação que o MEC tem é a de que apenas uma escola não conseguiu repor as provas e que há relatos de casos isolados de não substituição. "São problemas com indivíduos e não com estabelecimentos de aplicação. É muito baixo o número até aqui conferido." Haddad informou que ainda não há previsão da realização de uma nova prova para esse público prejudicado.

    Justiça suspende Enem

    A justiça antecipou-se e já decretou a suspensão do exame. A juíza da 7ª Vara Federal do Ceará, Karla de Almeida Miranda Maia, atendendo ao pedido de liminar do Ministério Público Federal daquele Estado, determinou a suspensão do Enem 2010 em todo o Brasil, com o argumento de que a realização de uma nova prova apenas para os prejudicados com erros no caderno amarelo, poria em desigualdade todos os candidatos remanescentes. Sob a mesma justificativa, a Defensoria Pública da União recomendou ao MEC a anulação do exame. O pedido foi feito pelo defensor público federal Ricardo Emílio Salviano, em função das irregularidades cometidas no certame, em especial devido aos erros de impressão gráfica da prova. O defensor considerou que a anulação do exame é a única forma de reparar o erro sem ferir a isonomia entre os candidatos. Uma segunda avaliação apenas para quem recebeu a prova com erro, como quer o Inep, poderia apresentar um nível de dificuldade diferente.

    O MEC prepara esclarecimentos à juíza Karla Maia para que a liminar seja derrubada e o exame, assim como seu resultado, não seja suspenso. O argumento do ministério, endossado por Haddad na coletiva, é o de que a Teoria de Resposta ao Item (TRI) assegura a igualdade de condições entre os participantes. Segundo o órgão, o conjunto de modelos matemáticos usados no Enem permite que os exames tenham o mesmo grau de dificuldade. Haddad acredita que a situação possa ser invertida. "Tudo é uma questão de levar às autoridades as informações corretas. Estamos levando ao conhecimento da Justiça que há procedimentos que zelam pela possibilidade técnica de que sejam aplicadas provas diferentes, com o mesmo nível de dificuldade", disse, lembrando a aplicação de provas distintas em momentos distintos, em virtude de inundações em duas cidades do Espírito Santo, em 2009, e as provas nos presídios.

    Priscila Ribeiro, 17 anos, tenta uma vaga na faculdade de Direito da UFJF. Ela acha melhor que todos os alunos façam uma nova prova e não apenas o grupo de examinados prejudicado com os erros na prova amarela. "Não acho justo que uns repitam o exame e outros não. Quem repetir já terá passado pela experiência de um Enem e pode ser beneficiado, com um tempo a mais para estudar. Como pode também ser prejudicado, já que vai ser dada uma prova diferente. Essa prova, vale vaga na segunda fase da UFJF, quem quiser passar precisa de uma boa pontuação, mas em condições iguais." O aluno Wesley Costa acha que o Inep terá trabalho para agendar uma nova prova. "Todas as universidades estão com seus vestibulares marcados, ocupando todos os finais de semana até o final do ano. Além disso, fazer nova prova é um problema para o aluno que passou o ano se preparando. Pode ser mais um desgaste." Maria Mirelly acha que uma nova prova desanimaria os vestibulandos. "Tem gente que vai desistir."

    Para os alunos juizforanos, o grande problema é que o Enem substitui a primeira fase do vestibular da UFJF. O que deixa os estudantes sem alternativa. "Adotaram o Enem muito em cima da hora. Ninguém estava se preparando para isso, de repente, deixou de ser uma opção para ser uma obrigação", opina Wesley Costa. "Sabendo que já tinha dado errado no ano anterior, a UFJF deveria manter o Enem como uma alternativa de primeira fase", diz Maria Mirelly. Sérgio Castro acredita que a adoção do exame nacional pode gerar uma questão muito mais grave que a unificação do processo seletivo. "Tudo indica a intenção de que, já em 2012, todas as vagas da UFJF sejam preenchidas pelo Sisu [Sistema de Seleção Única, do MEC]. A UFJF deixará de ser uma instituição com o papel de qualificar mão-de-obra para atender a região, para receber os alunos de fora que não foram aprovados nas outras federais. É uma pena."

    Pouco antes de ser noticiada a suspensão do Enem, a UFJF havia afirmado, em nota assinada pela Diretoria de Comunicação, que o Enem continuaria a valer como primeira fase do vestibular 2011 e que as inscrições para o processo seletivo seriam feitas, respeitando o prazo anteriormente divulgado em edital. Minutos depois, após saber da decisão judicial, a instituição ficou de se manifestar novamente, mas não anunciou mudanças, até as 19h32 desta segunda-feira, 8.

    Prova fácil, mas longa

    Segundo Castro, de maneira geral, a prova foi fácil. "Bem simplória em algumas áreas, mas o conteúdo estava mal distribuído. História e geografia sofreram com essa má distribuição. As questões não contemplavam o programa. O exame cobrou pedaços do conteúdo. Havia erros conceituais", conta, lembrando da confusão entre o conceito de eficiência e potência energética, presente em uma das questões de física. A aluna Thaís Ferreira Costa, que tenta uma vaga no curso de Psicologia da UFJF, achou a prova longa e não conseguiu terminar o exame em nenhum dos dois dias. "Os textos são longos demais. Ou você lê por cima e faz a prova de qualquer jeito, ou lê para responder as questões com confiança. No primeiro dia deixei de fazer 30 questões, no segundo, tive que chutar toda a prova de matemática, porque não deu tempo."

    Os textos são revisados por Thaísa Hosken

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