Nome do Colunista Raquel Marcato 6/06/2015

Cor limão

generoHá pouca surpresa na frase: "rosa se for menina e azul se for menino". Corriqueira né? Bastante legítima em muitos lares, assim como, bastante reguladora na maneira de ser de cada sexo. Chega a ser exagerada a fidelidade à regra das cores. Nem por um instante querem que confundam a do lacinho rosa com o da toquinha azul. Da muita confusão e crise de identidade, gente! Ela é meninA e ele é meninO. Ficou claro? Ninguém que está saindo de uma maternidade quer sequer imaginar que a cor do meio e das pontas também existem!

Tudo bem. Tá tudo certo, coerente com a nossa tradição. Ouvimos, desde sempre, esta mesma história, condicionados estamos. Eu passei pelo rosa enquanto filha e, sem dúvida, levei o rosa para a vida da minha filha. Uma tradição cultural permeia entre os poros e se acomoda dentro do conteúdo de cada um ocupando o lugar da verdade.

Aí, vamos sendo criados, construídos através do estatuto da cor rosa e da cor azul. Eles são bem rígidos, não gostam de compartilhar a mesma ideia na Constituição do outro. É tipo assim: #100%sangueazul, #100%essênciarosa.

Resta-nos viver e aceitar o que já foi decidido por nós no plebiscito das arenas. Azar o seu ter nascido azul no lugar do rosa ou rosa no lugar do azul, na hora da brincadeira você brinca de espada, de luta, de vencer e as demais de casinha, de comprinha, de florzinha, de pitanguinha...

Traduzindo em miúdos, menino não chora, menina entra em colapso, menino usa a inteligência, menina a sensibilidade, (muito rosa isso né!), menino conquista e a menina é orientada.
Enfim, e agora?

Alguém se incomoda com este preconceito ora explícito ora velado?

EU, EU, EU, EU e muito mais EU.

Cresci, apareci e, por fim, quero decidir. Decidir o que? Decidir que tipo de rosa quero ser! Sabia que rosa com uva dá limão? Quero ser cor limão que veio do rosa, e daí? Ahh! Ainda não existe esta cor na linha de esmalte da Chanel! Sorry...

A cor limão é a cor da coragem. É a minha cor, a sua, de quem quiser, pelo menos tentar, misturar a sua coragem na cor do outro.

Precisamos arregaçar a "nossa essência", "berrar" para dentro e para fora na condição de atitude e mudar o antigo. Não convém mais sentarmos no banco da vítima e apontar o dedo para o machismo. Ele só existe porque o movimento contrário precisa se unir mais e acreditar mais no seu poder curativo.

Precisamos curar feridas, precisamos curar as nossas feridas. Não devemos ter vergonha da nossa sensibilidade, ela veio para trazer entendimento e novas possibilidades. Tem muito azul que quer ser cor limão também! Porque o azul com roxo também dá limão!

Eles também querem segurar uma boneca sem marcar nenhum destino. Querem brincar de varrer, de lavar roupa, de abraçar, de ser muito amigo do amigo, de enrolar brigadeiro, enfim, de colocar uma cueca rosa!
E, por que não?

Precisamos querer viver esta quebra de paradigma dentro da nossa mentalidade empobrecida. O machismo só vai acabar quando você, eu, começarmos a acreditar que atrás do rosa e do azul só há, literalmente, uma cor e não a construção de um SER HUMANO.

O machismo ainda existe dentro de nós, Mulheres, Mães! Somos, muitas vezes, feministas machistas.
Queremos mudar?

Sim, eu também. Lembra que falei que o único requisito para gerar esta transformação é ter CORAGEM?
Então, minha proposta é começarmos dentro do espaço que "dominamos", ou seja, com as nossas crianças, dentro de casa. No próximo aniversário do seu filho dê a ele uma boneca rosa de presente e no da sua filha dê a ela carrinhos azuis de corrida! Mas, não vale guardar quando os amiguinhos chegarem para apagar as velinhas, ok?!!

Com gratidão e afeto

Até semana que vem.


Raquel Marcato, mãe da Marta de 4 anos, blogueira do portal mamaesavessas.com, escritora, questionadora por essência, ativista pelo autoconhecimento e mestre em Literatura Comparada pela Universidade Autônoma de Barcelona.

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