Raquel Marcato Raquel Marcato 9/09/2015

A cilada do "melhor" para um filho

Estou no momento de procurar escola para minha filha do outro lado do atlântico. Aí vem tudo à cabeça: será a melhor? Vai se adaptar? Vão tratá-la com enorme carinho? Depois da aula de natação vão secar o cabelo dela para não sair pingando na roupa? Durante a aula, alguém oferecerá água a ela? Deixarão ela brincar, brincar, brincar e mais brincar? Terão “tato” para conhecer a sua individualidade?

Enfim, percebo que essa busca pela “melhor” faz com que acentue algo dentro de nós que cala a nossa força, o medo.

Por que sempre vem um pensamento negativo à cabeça? Meu Deus, são muitos medos por vencer. Na verdade, queremos blindar nosso filho, protegê-lo de tudo e de todos. Olha aí o maior erro de uma mãe, a superproteção. Superprotegendo a minha filha nunca encontrarei a melhor escola, pois nenhuma delas a tratarão como eu acho que deveriam tratá-la. São apenas escolas.

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Super protegendo ela estou desconsiderando toda a sua capacidade de sobrevivência naquele meio. Não estou dando um voto de confiança na sua condição resiliente. Não estou deixando ela sair de perto de mim. Não estou lhe dando oxigênio diferenciado. Não estou favorecendo que ela cresça dentro dela.

Estou me sabotando e consequentemente, sabotando a sua dignidade quanto indivíduo. Ela precisa ir para o mundo, se mostrar de cara limpa, de conquistar o seu espaço, de começar a observar o mundo com os seus olhos e ir montando o seu quebra–cabeça.

E estamos aqui! Em outro canto, em outro mundo!

Queremos isso, optamos por isso. E agora parece que a síndrome do melhor não está me levando a nenhum lugar seguro. Começo a lembrar da escola que deixamos no Brasil na qual tenho grande carinho dificultando a escolha. É justo comigo mesma fazer comparações com um lugar que ainda não experimentei? Não é justo. É sofrer por vontade própria. É colocar qualquer escola daqui na possibilidade zero de vantagem.

O passado está dentro do coração e o presente está aqui pedindo para eu reconsiderar a prioridade da “melhor”, a trava da comparação e a possibilidade do agora.

Não existe a melhor, Mãe.

A melhor será aquela na qual você estiver segura. Àquela que fizer com que você olhe nos olhos do seu filho e diz: V A I.

Tudo precisa começar ou continuar em algum lugar.

Estamos continuando do zero. Dentro de um tudo novo. Aqui há várias linhas pedagógicas, novos e velhos modelos, porém não tem a “melhor” escola! A melhor escola fazemos nós! É quando nos apropriamos do meio e passamos a conviver com aquele espaço como uma continuação de casa. Quando nos sentimos cômodos e relaxados, então sim, podemos concluir que escolhemos a melhor. Mas antes da convivência diária, como saber qual é a melhor? O melhor para um não é para o outro.

É uma cilada.

Na ânsia pela melhor, ficamos paralisados, pois tudo parece ser comprometedor. Perdemos a confiança genuína em nós mesmos e no outro, a capacidade de discernimento, e a condição de ser objetiva quando a situação pede para ser.

Nesta saga, descabida, em busca do “melhor”, me pergunto: e eu, quem lhe deu a vida, sou a “melhor” mãe?

(...)

Começo a repensar com muita humanidade sobre esse esquema sabotador que é a busca pelo “melhor” para um filho.

Isso não é humano, é entrar em um mecanismo de exigências que nem nós mesmas, na condição de Mãe, podemos oferecer para um filho.


Raquel Marcato, mãe da Marta de 4 anos, blogueira do portal mamaesavessas.com, escritora, questionadora por essência, ativista pelo autoconhecimento e mestre em Literatura Comparada pela Universidade Autônoma de Barcelona.

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