Era uma sexta-feira, dia 12 de maio, véspera do final de semana do Dia das Mães. Naquele dia, há exatos 20 anos, diversas rebeliões passaram a ser registradas nos presídios de São Paulo.

Um dia antes, a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) havia decidido transferir 765 presos para a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, uma unidade de segurança máxima no interior paulista. Entre os presos estava Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, considerado o líder da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).

E foi essa megatransferência que fez os presos darem o salve para os ataques, lembra o jornalista e professor Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da Universidade de São Paulo (USP).

A ofensiva começou com rebeliões de presos em 74 penitenciárias do estado e, logo depois, chegou às ruas, quando viaturas, delegacias de polícia, prédios públicos e agentes policiais passaram a ser alvos do PCC.

São Paulo (SP), 08/04/2026 - 20 anos dos crimes de Maio .  São Paulo 08/04/2026.Entrevistadas: Mônica Trindade Canejo e Helena Trindade Canejo de Paiva - jornalista, teve sua filha na semana dos ataques do PCC e precisou ser escoltada para o hospital. Agencia Brasil Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

A produtora cultural Mônica Trindade Carneiro se lembra bem desse período. Há 20 anos, ela estava grávida de Helena. As contrações do parto tiveram início na madrugada do dia 17 de maio, quando o clima de tensão ainda era intenso em São Paulo.

Naquela época, ela morava na Avenida Paulista, no centro da capital, e não tinha carro. Como ainda não havia aplicativos de transporte, teve que sair na rua para pedir um táxi e poder seguir até a maternidade. A rua estava vazia, não tinha carro, não tinha gente, era um ou outro táxi passando, e a gente deu sorte de conseguir pegar um táxi que estava passando na hora, conta.

Mesmo tendo conseguido o táxi e as ruas estando vazias, o caminho até a maternidade não foi nada fácil. Do nada, o taxista simplesmente embicou o carro numa base da Polícia Militar. E, assim, todos os policiais que estavam lá [dentro da base], saíram. Todos apontando armas para o carro, o carro foi todo cercado, todo mundo apontando armas, aos gritos, sabe? Dava para ver no rosto deles que estavam com medo porque eles estavam sendo atacados. E qualquer carro podia chegar lá e atacar, relata Mônica.

São Paulo (SP), 08/04/2026 - 20 anos dos crimes de Maio .  São Paulo 08/04/2026.Entrevistadas: Mônica Trindade Canejo e Helena Trindade Canejo de Paiva - jornalista, teve sua filha na semana dos ataques do PCC e precisou ser escoltada para o hospital. Agencia Brasil Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

O taxista também havia agido por medo, considerando que talvez fosse melhor a polícia levá-la ao hospital. No fim, a produtora cultural acabou sendo levada para a maternidade pelo próprio taxista.

Até o dia em que ela nasceu, foram realmente os dias mais tensos, realmente mais confusos porque as pessoas não sabiam o que era boato, o que era real, o que podia realmente acontecer.

Esses ataques prosseguiram pelo menos até o domingo, Dia das Mães. Eu estava acompanhando [aqueles acontecimentos] fora da redação. Daí na segunda-feira esse era o assunto do dia. Todo mundo em choque, tentando entender o que tinha acontecido, porque já eram mais de 50 policiais mortos. Era uma coisa nunca vista, nunca [houve] nada parecido. Era uma bomba que tinha caído em São Paulo, disse Manso que, naquela época, trabalhava como jornalista policial de um grande veículo de comunicação.

Segundo o estudo São Paulo sob Achaque: Corrupção, Crime Organizado e Violência Institucional em Maio de 2006, elaborado pela Clínica de Direitos Humanos da Faculdade de Direito de Harvard e pela organização Justiça Global, a transferência de presos não foi o único motivo para aqueles ataques. De acordo com o estudo, também contribuíram para a ofensiva do PCC a corrupção no sistema policial com relatos de extorsões praticadas por policiais civis, falhas nas investigações policiais e o descaso com a execução penal no estado de São Paulo.

Os Crimes de Maio não se trataram simplesmente de uma guerra entre os dois lados, um grupo do bem contra uma gangue do mal. Na realidade, a onda de violência foi em grande parte uma manifestação de conflitos entre o crime organizado dentro e fora do estado, diz um trecho do relatório.

Revide

Na madrugada de segunda-feira, após o Dia das Mães, começou o revide. Em resposta aos ataques articulados pelo PCC, agentes do Estado e grupos de extermínio saíram às ruas para a retaliação. Boatos sobre toques de recolher se espalharam entre a população de São Paulo e, rapidamente, supermercados foram fechados, universidades suspenderam as aulas, ônibus deixaram de circular e as pessoas se recolheram em suas casas. O medo se espalhou, e as ruas da maior cidade do país ficaram completamente desertas.

E aí começaram as execuções nas periferias. Foram mais de 500 mortes em nove dias, muitas com suspeita de execução, diz o pesquisador.

Foi algo inédito que nunca tinha acontecido antes. Ninguém imaginava que aquilo ia acontecer. Não tinha nenhum tipo de expectativa de que houvesse uma tensão [anterior] no sistema penitenciário, relata. Muita gente fala que este foi o nosso 11 de setembro aqui em São Paulo.

 

Segundo o relatório Análise dos Impactos dos Ataques do PCC em São Paulo em Maio de 2006, elaborado pelo Laboratório de Análises da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), 505 civis morreram durante aqueles ataques, além de 59 agentes do Estado. Os Crimes de Maio foram marcados pela violência brutal do PCC, mas também foram uma demonstração do preço da corrupção, da fúria da violência policial e da falência do sistema prisional, conclui o relatório.

No primeiro momento, teve a transferência de lideranças do PCC para presídios de segurança máxima no interior [do estado]. Aí, começaram as rebeliões nos presídios e os ataques do crime organizado a funcionários públicos e a prédios públicos. Jogaram bombas no Ministério Público e em fóruns, mataram agentes penitenciários. Mas daí começaram os revides, conta o defensor público Antonio José Maffezoli Leite.

Esses revides, diz ele, foram cometidos tanto por policiais militares fardados quanto por grupos de extermínio compostos por pessoas encapuzadas com alguns indícios de que seriam policiais militares.

Ao todo, os ataques ocorridos entre os dias 12 e 21 de maio e promovidos tanto por agentes do Estado quanto por integrantes do PCC deixaram um saldo de 564 mortos e 110 feridos. Segundo o relatório São Paulo sob Achaque, em pelo menos 122 dessas mortes houve indícios de execução com participação de policiais.

Massacre

Para o advogado Gabriel de Carvalho Sampaio, diretor de Litigância e Incidência da organização Conectas Direitos Humanos, o que aconteceu naqueles dias de maio de 2006 foi um verdadeiro massacre.

Os Crimes de Maio foram um massacre, como vão também chamar de chacina. Mas o fato é que esse foi um dos maiores crimes do Estado brasileiro, uma reação injustificável a um episódio de segurança pública que vitimou mais de 500 pessoas. Foram mortes marcadas pela estratégia da execução sumária, de pessoas que não tiveram direito de defesa e que foram mortas com tiros na cabeça e pelas costas", afirma o advogado.

"Houve desaparecimentos forçados e famílias que foram destroçadas por um tipo de atuação do Estado que não se coaduna com a nossa democracia. Nós também temos um legado muito negativo desse fato pela falta de responsabilização, acrescenta.

Um relatório parcial feito pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), divulgado ainda em 2006, aponta que pelo menos 2.359 tiros foram disparados naquele período. Essas balas atingiram, no total, 493 vítimas, o que dá uma média de 4,7 tiros para cada pessoa.