SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na rua Piraúba, no Jaguaré, zona oeste de São Paulo, crianças voltaram a brincar na calçada com figurinhas da Copa do Mundo de 2026 nesta quarta-feira (13). Moradores começaram a reabrir bares e barbearias entre paredes rachadas, portas arrancadas e viaturas policiais.

Uma movimentação constante de equipes da imprensa, da Sabesp e da Comgás prossegue na região onde uma explosão matou um homem e deixou outros três feridos na última segunda-feira (11).

Fundada há 63 anos, a Vila Nossa Senhora das Virtudes surgiu a partir da ocupação de famílias na região do Jaguaré e hoje reúne moradores com títulos de posse concedidos em 2013.

Dois dias após a explosão, parte dos moradores tentava voltar para casa enquanto outros ainda conviviam com imóveis interditados, escombros e incertezas sobre reconstrução e indenizações.

"A vida tem de prosseguir, estamos tentando", afirmou o líder comunitário Eduardo Santos Vieira, 57, morador da vila há quatro décadas. "Essa normalidade está difícil nesse primeiro momento. Vão ficar os escombros aí para nos mostrar que não vai ser fácil."

A poucos metros das casas destruídas, o barbeiro cubano Yelier Soria Riso, 31, voltou a abrir o estabelecimento onde também mora. Ainda sem agenda fixa, ele atendia os primeiros clientes após a liberação da área.

"Quando eu cheguei e abri a barbearia, não passou nem um minuto e explodiu", contou, relembrando a explosão ocorrida na segunda. "O pessoal ainda fica com medo."

Ele relatou, em portunhol, que sentiu o cheiro de gás desde a manhã do acidente e chegou a alertar trabalhadores que atuavam na rua.

"Falei para o pessoal que estava trabalhando: ?mano, isso pode explodir?. O esgoto estava borbulhando por causa da pressão do gás."

Mesmo com danos na casa e no comércio, ele decidiu retomar a rotina. "Aqui dentro não tem nada rachado, quebrado não. Só a TV que quebrou."

O segurança Manuel Vasconcelos, 50, também tenta reorganizar a rotina após ter parte da casa interditada. A área superior do imóvel, onde há risco estrutural, segue isolada pela Defesa Civil. Já os cômodos da parte inferior foram liberados.

"Como a minha casa tem três cômodos, a parte do meio ficou separada. A parte de cima está interditada", afirmou. "Se ligarem a luz, eu volto com a minha família."

Manuel passou a primeira noite após a explosão na casa da irmã, junto da mulher, dos filhos e dos animais da família. Mas os cachorros, gatos e hamsters ficaram agitados com o barulho e a mudança repentina.

"Ninguém conseguiu dormir com eles gritando", contou. "Eles ficaram desesperados."

Na noite de terça-feira (12), decidiu levar os animais de volta para casa.

"Deixei eles aqui porque estavam muito agitados. Acho que até ficaram com dor no ouvido por causa da explosão."

Ele mora há quase 20 anos na vila e disse que ainda tenta lidar com o impacto do acidente.

"Os vidros da minha casa passaram por mim", afirmou. "Na hora da explosão eu fiquei tonto. Foi muito forte."

Na esquina entre a rua Piraúba e a rua superior da comunidade, a comerciante Teli Olegário de Souza, 53, mantinha o bar aberto enquanto ajudava a distribuir marmitas para moradores afetados. O local passou a servir como ponto de apoio para famílias carregarem celulares, usarem banheiro e tentarem descansar um pouco da tensão acumulada desde a explosão.

Há também quem peça uma cerveja para tentar aliviar o clima pesado da rua.

"Foi um barulho estrondoso", contou Teli. "A partir de 12h30 o cheiro de gás estava muito forte. Às 16h, aconteceu a explosão."

Ela afirma que ainda não conseguiu normalizar a rotina. "Até hoje eu fico trêmula. Estou demorando para dormir. Mas tentando organizar tudo."

A explosão matou o segurança Alex Sandro Fernandes Nunes, 49, descrito pelos vizinhos como um homem reservado e trabalhador. O enteado dele, o personal trainer Luiz Gustavo, afirmou que a liberação do corpo demorou mais de um dia.

"Foi muito burocrático. O corpo só foi liberado às 2h madrugada desta quarta-feira", afirmou.

Alex Sandro nasceu em Francisco Sá (MG) e será enterrado nesta quinta-feira (14) na zona rural de Japonvar, no norte mineiro, onde vive parte da família.

O pintor autônomo Francisco Bondemba da Silva, 57, segue internado em estado delicado após ser arremessado para fora de casa durante a explosão.

"Ele voou por cima do telhado e caiu no meio da rua", afirmou o sobrinho, Francisco Bevan da Silva, 51. "O caso dele foi mais por dentro. É grave."

Bondemba segue entubado no hospital regional de Osasco. A família afirma que médicos enviados pela Sabesp devem avaliar a possibilidade de transferência.

"Estamos nos revezando. É delicado", afirmou Bevan.

Enquanto parte da vizinhança limpava casas, trocava vidros quebrados e tentava voltar ao trabalho, equipes da Defesa Civil, engenheiros e funcionários das concessionárias ainda circulavam pela rua realizando vistorias e cadastramentos.

"A gente está tentando voltar à vida normal", afirmou o líder comunitário Eduardo. "Mas o nó na garganta continua."

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