Ana Stuart 6/7/2011

Sobrevivência

Imagem cércebroNossos antepassados, quando passavam por situações perigosas, memorizavam o fato e não esqueciam mais. Isso foi importante para a preservação da espécie. Por isso, quando passamos por situações de perigo ou situações emocionalmente negativas, lembramos de tudo com riqueza de detalhes. Já as situações positivas são vivenciadas, memorizadas, só que essas lembranças sofrem alterações em nossa memória.

Muitas vezes, este falseamento das lembranças acontece também em decorrência dos meios de comunicação, tanto verbal quanto visual. Nossa memória permite essas alterações, principalmente por não se tratar de situações de risco.

Outro fator interessante é que as emoções favoráveis memorizadas melhoram a consciência de si mesmo, o que é chamado de memória autobiográfica. Por isso, a psicoterapia nos faz tão bem, pois facilita esse tipo de memória. Deduz-se que o autoconhecimento melhora a autoestima e a autoafirmação.

Memória emocional é diferente de memória factual. As pessoas lembram-se, de forma igual, de um fato, mas a memória emocional é única e pessoal. Deduzimos, então, que, para nossa sobrevivência emocional, necessitamos esquecer as lembranças negativas, mas não as perigosas.

Há uma enorme distância entre esquecer e perdoar. Nosso cerébro encarrega-se de não armanezar fatos não preponderantes, mas os traumáticos, muitas vezes são esquecidos ou apagados, como forma de proteção. O mais interessante é que estamos sempre querendo sentir emoções não esquecidas e, com isso, corremos o risco de não viver as emoções novas.

Será que este é o mecanismo de defesa para fugirmos da realidade por medo de enfrentar o novo? Não estaria aí a mudança necessária? Muitas vezes somos obrigados a enfrentar o novo, que nos parece assustador, porém, ao olhar mais à frente, poderemos perceber o quanto crescemos e adquirimos novos conhecimentos por meio do enfrentamento dessas novas experiências, que se tornarão as nossas mais recentes e gratas memórias. Não podemos nos esquecer de lembrar que a nossa sobrevivência depende também do esquecer.

Em um mundo onde a cada momento é exigido mais e mais de nossa memória, divulgando-se métodos para fugir dos problemas do esquecimento, é importante pensar que, muitas vezes, nossa sobrevivência emocional depende do esquecimento de antigas memórias para dar lugar a gratas e recentes memórias.


Ana Stuart
é psicóloga e terapeuta familiar

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