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    Juliana Machado Juliana Machado 11/11/2013

    Estamos destruindo os oceanos: Por que nos preocupar?

    marNo começo de novembro foi publicada uma pequena notícia escrita por Paulo André Vieira no site 'O Eco' abordando o impacto das ações humanas nos oceanos. Vieira destaca um estudo realizado por um grupo de pesquisadores envolvidos com a conservação dos ecossistemas marinhos. De acordo a pesquisa publicada na revista Science, não existe hoje no mundo nenhuma região marinha que não seja prejudicada pelas ações humanas e uma porção expressiva dos oceanos (41%) é fortemente afetada por estas ações. Os ecossistemas mais ameaçados são os recifes de corais, os bancos de algas e os manguezais.

    O que eu gostaria de comentar na coluna de hoje, portanto, são as razões para tão significativo impacto, quais as consequências disto e porque deveríamos nos preocupar. De fato, essas informações continuam restritas a um universo que não atinge o público em geral. E mesmo que estes fatos venham à tona – como pretendo fazer aqui agora – tenho a consciência de que isto muito dificilmente afetará a nossa vida em um nível de preocupação genuíno. Existe um abismo considerável na percepção que nós temos do mundo, da natureza e da nossa participação na mesma. As informações nos chegam como apenas mais um fato que não nos diz respeito nem nos atinge. Ledo engano...

    Segundo o estudo publicado na Science, os impactos das ações humanas nos oceanos podem ser reunidos em três grupos gerais: Mudanças climáticas, poluição e pesca descontrolada. As tais mudanças climáticas aumentam a temperatura do planeta e dos oceanos, impactando todo o rico ciclo ecológico que ali existe. Tal mudança é fruto da liberação excessiva de gases de efeito estufa, em função da queima de combustíveis fósseis, como petróleo e derivados, gás natural e carvão. Estes combustíveis são queimados para gerar energia e movimentar - em último caso - a máquina de consumo desenfreada da qual fazemos parte e a qual alimentamos.

    Já a poluição dos oceanos é fruto dos dejetos trazidos pelos nossos rios-esgoto que deságuam nos mares. Toneladas de esgoto doméstico, industrial, resíduos de agrotóxicos e lixo sólido são despejadas nos mares todos os dias – os mesmos mares que usamos de maneira igualmente irresponsável durante as nossas férias de verão. Lembremos ainda daqueles intoleráveis acidentes que lançam poluentes, como petróleo, nas nossas águas, em função da negligência por parte de diversas empresas que matam a fauna, a flora, a água e a mínima noção de respeito à vida. Também lembremos que toda vez que damos descarga em nossos banheiros, quando ignoramos a procedência dos nossos itens de consumo ou quando priorizamos a maldita sacolinha plástica, estamos apodrecendo nossas águas, intoxicando os animais e destruindo recifes de corais tão importantes para a manutenção da qualidade da vida na Terra... Uma sucessão de atrocidades.

    Quanto à pesca descontrolada, trata-se de uma prática que objetiva manter em nossos pratos a maior quantidade possível de animais marinhos, para saciar nosso paladar, prejudicando a pesca familiar, prejudicando o ciclo ecológico e ignorando a vida marinha, nas concepções mais completas que as palavras 'vida' e 'ignorar' possam ter. Faz parte da corrida capitalista: quem pesca mais quantidade, quem pesca mais variedade, quem dribla melhor as leis, quem vende mais, quem come mais... Uma mistura de cobiça, vaidade, gula e de total falta de conexão com a natureza.

    estrelaEntretanto, é fundamental assimilar no cérebro - ou na alma, seja lá o que for melhor para você - que não estamos livres das consequências devastadoras de tudo isso. Nós fazemos parte deste ciclo biológico e já estamos sendo afetados por ele, embora de modo pouco inteligente façamos cara de desprezo a tudo isso. Seja pela sua beleza, pela vida que ali fervilha, por uma reverência ou por uma preocupação egocentrada com a própria sobrevivência e bem-estar, preocupe-se com o que vem sendo feito do mar onde você costuma tirar férias. Estão (estamos), acabando com ele. Se pouco te importa o recife de coral, a baleia, a alga ou o polvo, desejo que você fique indignado porque há chances reais de que nossas maravilhosas fotos em praias paradisíacas postadas no Facebook, tornem-se relíquias. E não, eu não estou exagerando. Preocupe-se porque vai faltar peixe no seu prato. Porque vai fazer mais calor do que você imagina. Porque vai pipocar de placas de "proibido nadar" em praias super poluídas. Mas preocupe-se, não fique alienado. Eu acredito que uma hora dessas Gaia vai cansar de tolerar nossa burrice e vai - muito inteligentemente – nos deletar nas profundezas de algum oceano por aí. Questão de tempo, duvida?


    Juliana Machado é Bióloga, mestre em Ciências Biológicas - Comportamento e Biologia Animal - UFJF/MG. Doutoranda em Bioética, ética aplicada e saúde coletiva - UFRJ/UFF/UERJ e Fiocruz.

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