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    Juliana Machado Juliana Machado 1/03/2016

    A sociedade líquida do selfie

    Ultimamente tenho pensando bastante a respeito de como temos conduzido nossas relações pessoais em função das redes sociais. Ao mesmo tempo, como professora, tenho observado como alunos de todas as idades têm ficado ansiosos para obter a informação, sem paciência de construir o raciocínio passo a passo para chegar a um fim. Também é notável o quanto de conteúdo – informativo ou não – vem sendo gerado a cada segundo, de modo que muitas das vezes não conseguimos acompanhar. E por fim, ainda neste contexto, verifico que as pessoas estão sem interesse para refletir demoradamente sobre os próprios atos antes de decidir sobre as coisas. Queremos tudo para já: a foto, o clique, a mensagem, a informação, o resultado da equação. Não é à toa que nas provas, questões de grande enunciado são as que muitas vezes trazem os piores resultados, mesmo que a resposta esteja lá o tempo todo. Não é à toda que compartilhamos conteúdos incoerentes, de fontes não confiáveis: basta clicar em “compartilhar” e pronto, partimos para outra notícia. Certa vez uma professora que muito admiro compartilhou um texto em que algum sábio autor refletia sobre nossa atual dificuldade em ler livros. Mesmo para aqueles que sempre foram ávidos leitores, sentar-se por alguns minutos diante de um livro que exige alguns segundos por página, gera ansiedade: “Ainda faltam tantas paginas para ler...”. Pior ainda quando lemos e não absorvermos. Na minha opinião, talvez isto se deva ao nosso pensamento e comportamento acelerados, em uma sociedade líquida, como bem explica o sociólogo Zygmunt Bauman. Queremos tudo para já. Não quero pensar sobre nada, especialmente se o pensamento tiver que ser mais complexo, envolvendo ética, política, subjetividades e afins.

    Neste sentido, venho relembrar um episódio que ficou famoso também nas redes sociais nos últimos dias. Na Argentina, um grupo de turistas encontrou um filhote de golfinho fora da água e, ao invés de devolvê-lo ao mar, tratou de realizar uma série de selfies com o animal, que acabou morrendo. Outras versões vieram à tona dizendo que o animal já chegou morto na praia. Não importa. A verdade é que naquele momento, aconteceu um absurdo. Quase ninguém se compadeceu do filhote. A empatia estava longe daquele cenário. A reflexão ética, a compaixão, a vontade de ajudar, nada disso fazia parte do episódio. Predominava a necessidade de registrar, de aparecer, de se expor, tudo em ampla velocidade, para logo seguir para uma nova “fast-fake-aventura”.

    Foi deprimente no que se refere às noções de ecologia. Não houve nenhuma identificação com à natureza. Fico pensando que muitos ali no mínimo viram o filme Avatar em que há uma mensagem de certa reverência natureza. No filme ela passa longe da ética ideal, mas já representa um enorme passo se comparado ao atual comportamento que temos com Gaia, a Terra, nossa casa e seus demais inquilinos. Ao mesmo tempo, o episódio do golfinho morto na praia representou todo um modo de viver sobre o qual estamos nos baseando. Só que este modo é líquido, e como tudo que é líquido, não sustentará a construção sólida de nenhum de nós. Este episódio me fez pensar para onde estamos indo como espécie biológica. Me fez sentir vergonha moral. Sentir dúvidas quanto ao modo como estamos educando as pessoas. Refletir sobre como as tecnologias atuais alimentam esse já intrínseco comportamento egoísta que possuímos. Sim, porque a culpa não é do smartphone, nem do Facebook ou do Instagram. A culpa é nossa. Estamos emburrecendo, falhando como possível espécie pensante. E isso é muito triste...


    Juliana Machado é Bióloga, mestre em Ciências Biológicas - Comportamento e Biologia Animal - UFJF/MG. Doutoranda em Bioética, ética aplicada e saúde coletiva - UFRJ/UFF/UERJ e Fiocruz.

    Os autores dos artigos assumem inteira responsabilidade pelo conteúdo dos textos de sua autoria. A opinião dos autores não necessariamente expressa a linha editorial e a visão do Portal ACESSA.com

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