Paulo César Paulo César 23/6/2012

E aí, comeu? discute a eterna guerra dos sexos com humor inteligente, mas poderia ser melhor

Os filmes do gênero comédia feitos no Brasil estão sendo tomados por produções de humoristas "modernos", aqueles que ganham a vida em programas de TV e, com a cara limpa, enfrentam o público em shows stand up. Porém, em sua transposição para as telonas, a fórmula acaba não funcionando, e a linguagem cinematográfica acaba deixada em segundo plano e o formato "TV Globo" acaba tornando-se um humor pueril, chulo e repetitivo. Entretanto, em E aí, comeu?, algumas não seguem a cartilha e, pela primeira vez, traz um léxico de palavrões sendo bem empregados, uma pena que não consiga libertar-se totalmente de certos estigmas.

A história gira em torno de três amigos, Afonsinho (Emilio Orciolo Neto), Fernando (Bruno Mazzeo) e Honório (Marcos Palmeira), cada um às voltas com um problema diferente, que encontram-se diariamente em um bar para beber, falar da vida e, principalmente, de sexo. Procuram, nas teorias levantadas na mesa, uma forma de resolver seus impasses com as mulheres e tentar entender o que e como elas pensam. Tudo isso recheado de humor vulgar e depoimentos um tanto duvidosos do simpático garçom Seu Jorge.

O roteiro de Marcelo Rubens Paiva, adaptado de sua peça homônima, escancara o momento atual da sociedade, onde as mulheres não são mais as mesmas de tempos em que eram submissas. Além disso, mostra o comportamento masculino na posição de "sexo frágil", descrevendo com veracidade os sofrimentos e frustrações que estão propensos. Paiva não poupa palavrões, o que na proposta do longa não se torna algo inconveniente, pois todo mundo sabe que em um grupo de amigos (de ambos sexos), os termos utilizados para certas discussões são de um nível baixíssimo mesmo.

O filme flui, e as frases, descrições e insinuações feitas pelos amigos não são constrangedoras, algo comum neste tipo de comédia. Será fácil um homem rir ao se colocar no lugar de algum dos amigos, e também as mulheres, por perceber que o sexo oposto não é tão bonachão como seus papos propõem. Mas o que vai dando certo começa a se enfraquecer quando o trabalho do diretor é mais exigido.

José Joffily não consegue ter ousadia o suficiente para manter a mesma riqueza da obra de Paiva, esquecendo-se de evitar que certas partes da trama ficassem com um tom de teatro filmado. Sequências, como os tutoriais estrelados por Neto e Palmeira, destoam do ritmo do filme. Além disso, o trecho final acaba caindo na sina novelística da cinematografia produzida pela TV Globo, muito careta e surreal para a pegada moderna em que o longa se iniciou.

Bruno Mazzeo consegue seu melhor papel até momento, já que seu personagem transita entre vontade de superar a separação e as trapalhadas no reaprendizado ao qual se submete para conquistar uma jovem vizinha. Palmeira e Orciolo Neto também dão naturalidade ao comportamento dos machões, onde são cheios de si no bar, mas inseguros e paranoicos no íntimo.

E a conclusão é que E aí, comeu? não é ruim ou ofensivo quanto seu título dá a entender. É uma obra antimachista, uma homenagem à liberdade feminina, e seu direito de fazer suas próprias escolhas. Apesar de não ser uma grande maravilha da comédia nacional, pelo menos aponta para uma luz em meio as trevas de tanta bobagem que surge todos os anos, e que todos insistem em dizer que é humor.



Paulo César da Silva é estudante de Jornalismo e autodidata em Cinema.
Escreveu e dirigiu um curta-metragem em 2010, Nicotina 2mg.

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