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    Daniela Aragão Daniela Aragão 8/11/2013

    Confira a entrevista com o cantor, violinista e professor Pedro Couri

    pedrocouriDaniela Aragão: Como começou a música em sua vida?

    Pedro Couri: A música chegou até mim, ela me descobriu. Comecei como menino cantor no coral Mater Verbi, no colégio Academia de Comércio, com sete anos de idade. Eu estava em sala de aula e o maestro Otávio Garcia chegou com o Padre Zé Maria. Eles passaram dentro da nossa sala e perguntaram se tinha algum de nós que gostaria de fazer um teste para o coral. Eu fiz o teste e passei, assim começou minha vida musical, me escolheram.

    Daniela Aragão: Então você começou pelo canto?

    Pedro Couri: Pelo canto principalmente e logo após passei a estudar violino, pelo mesmo instituto de meninos cantores da Academia. Sou formado em música, em canto clássico pelo conservatório de Haia, na Holanda. Sou diplomado por lá. Comecei minha vida musical aqui em Juiz de Fora, vim para a Pró-Música com treze anos integrando a Orquestra de Câmara da Pró-Música, como violinista. Continuei nas atividades como cantor e aos 14, 15 anos de idade em decorrência da mudança de voz, deixei de cantar por um momento e passei a me dedicar ao violino. Aconteceu a oportunidade de formar os solistas de Câmara com o "Trio Sonata" composto por Luiz Otávio, eu, João Guilherme e a cravista Kátia Samargo. Nós tocávamos instrumentos de época, violinos barrocos. Aí esse trabalho foi germinando, dando frutos, e fomos fazer um curso de inverno no Rio de Janeiro, que nos abriu uma oportunidade para irmos para a Holanda estudar, lá que é o centro da música antiga no mundo.

    Daniela Aragão: Você foi com quantos anos?

    Pedro Couri: Fui com dezenove para vinte anos e lá permaneci por dez anos. Fui como violinista barroco, passei pelo canto barroco e me graduei em canto clássico.

    Daniela Aragão: E o estudo do canto e da voz como foi se dando?

    Pedro Couri: Eu sempre fui cantor, comecei como cantor e sempre fui cantor. O fato de eu também ser instrumentista cria em mim uma outra perspectiva como cantor. Ter feito a música antiga na Holanda com instrumentos de época, com a visão histórica da música, me proporcionou uma forma de entrada na interpretação de época um tanto quanto diferente das escolas de canto tradicionais.

    Na Holanda fiz canto clássico também, mas como sou contratenor e tenor, me utilizo muita da voz do contratenor para música antiga, música medieval, música renascentista e barroca. Tem muita música contemporânea que também se utiliza da voz do contratenor. Essa foi a minha formação histórica dentro do movimento de música antiga na Europa. Na verdade esse movimento de resgate histórico começou pelos idos dos anos sessenta na Europa, lá estavam os pioneiros dessa revolução, que foi responsável por uma transformação da atitude diante da música. Os músicos a partir da década de sessenta passaram a olhar para uma partitura buscando uma interpretação próxima do que foi a original. Através da análise de tratados, críticas de época, reconstrução de instrumentos barrocos, tanto os de sopro como os de cordas. Com certeza nós pegamos essa leva, em 1989 fui para a Holanda.

    Daniela Aragão: Como você se tornou professor de canto?

    Pedro Couri: Desde que voltei para o Brasil comecei a dar aula de canto na Pró-Música. As aulas de canto são muito importantes na minha vida, nada melhor que aprender alguma coisa tentando ensinar. A gente aprende ensinando, chega um instante em que o professor deixa de ser apenas o professor e se transforma também num aprendiz, na vivência com o aluno que traz sempre um feedback. Ainda mais no canto, que é um trabalho individual e muito pessoal. É enriquecedor para quem dá aula, para o professor que orienta. Com cada aluno ele aprende uma nova coisa, apesar de utilizar às vezes o mesmo estilo, as mesmas idéias metodológicas. Sempre o retorno é uma nova ideia e aquilo se transforma numa nova ideia a partir daquilo que você lança e aquilo se transforma num outro elemento. É fantástico!

    Daniela Aragão: Você vem de uma formação erudita. Seu trabalho no entanto é uma mistura de gêneros não é?

    Pedro Couri: Trabalho com uma boa parte de cantores de MPB, Heavy Metal e rock and roll. Fora do canto clássico, os que mais vi interessados pelas técnicas de canto foram os cantores de rock. Principalmente as modalidades de rock que exigem muito da voz, o heavy metal melódico, os metais progressivos. Acabei entrando em contato com isso, o que para mim está sendo excelente. Também ao trabalhar com o canto na música popular acabei descobrindo a erudição da música popular brasileira, a MPB brasileira é erudita no sentido do seu aprofundamento dos elementos melódicos, harmônicos, de raízes. Percebo isso na música brasileira, é uma música muito profunda na sua essência. É impressionante quando começo a analisar e coloco a técnica vocal à disposição dessa música. Tom Jobim, Edu Lobo, Cartola, toda essa gama de pessoas. Principalmente Tom, que vejo numa ligação intensa, numa relação histórica com Villa Lobos. Edu Lobo idem, Radamés Gnatalli que foi arranjador da Rádio Nacional e conviveu com esse pessoal da MPB e com a música erudita. Hoje para mim, cantar Luiza de Tom Jobim é um recital, cantar Canto Triste é outro recital. Chico Buarque também é fantástico, demonstra o trabalho com o texto maturado, trabalha com o discurso dando ênfase a questão retórica da palavra, tal qual faziam os barrocos no século XVII dando ênfase a questão retórica da palavra.

    Daniela Aragão: É interessante como hoje estão em voga estudos sobre performance, vozes. É importante destacar a importância da análise do desempenho do cantor, que se enriquece muitas vezes por meio do auxílio do técnico, do professor de voz. O professor de canto é aquele que vai levar orientações e cuidados com a voz.

    Pedro Couri: Temos hoje a importância do técnico e do novo approach, que seria a ciência da fonoaudiologia, também muito importante. Hoje temos dentro da fonoaudiologia profissionais especializados na voz cantada, trazendo novas práticas, exercícios e terapias que acabam ajudando muito os cantores. Dando ênfase e procurando produzir no cantor um auto-conhecimento mecânico e fisiológico, anatômico. Acho extremamente importante no aprendizado do canto o conhecimento do instrumento, o cantor deve saber valorizar o elemento que ele tem e trabalhar com isso. É de dentro para fora, não de fora para dentro. Sem qualquer necessidade de cópia ou de busca de uma igualdade com algum intérprete, acho que qualquer grande intérprete serve de inspiração, mas ele é ele, único. O cantor tem que buscar o que é dele, encontrar a sua voz, ler o que a música lhe pede. A partir daquilo que possui, seus substratos para fazer a interpretação. È um processo íntimo. Aquilo que você comenta na nossa aula, tessituras, extensão, flexibilidade, também contribuem. Posso estar enganado, mas acho que esse aprofundamento é um elemento novo na concepção do cantor. Você pode trabalhar métodos puramente de canto que tenham vocalizes, na história tradicional do canto, mas trazendo toda a sapiência, agregando o conhecimento mais vasto que a fonoaudilogia vem trazendo.

    Daniela Aragão: Embora o cantor da música popular brasileira seja muitas vezes consciente das suas necessidades e limitações relativas ao canto, muitas vezes teme o trabalho com o professor de canto, possivelmente pelo mito de que o canto trabalhado vai ficar mais inclinado para o padrão erudito.

    Pedro Couri: Pode até não ser consciente, mas eu percebo isso. Qualquer forma de temor traz um fundo de realidade. Não que a pessoa tenha dito isso, mas ela sabe que alguém já viveu isso. Isso se torna uma espécie de inconsciente coletivo, mas corre-se o risco quando se trabalha muito a voz lírica, de ocorrer o que chamamos de formatação da voz. Pode acontecer um condicionamento vocal de colocação após longo trabalho, em que a pessoa não consiga desconstruir aquilo, pode acontecer. Mas se você tende a analisar a técnica vocal respeitando a fisiologia, mais os conhecimentos aprofundados que ela pode trazer no aspecto fisiológico, anatômico, isso não acontece. A partir de trabalhos conscientes de voz poderemos ter cantores muito versáteis que cantem lírico, canções européias, mas que cantem também Tom Jobim, Edu Lobo, Baden Powell, Pixinguinha, cantem Catilho do século XVII. Caetano por exemplo é um menestrel, ele pega o seu violão e canta.

    Daniela Aragão: Hoje é impossível ficarmos distantes do que está acontecendo na mídia, por exemplo esses programas que são exibidos na televisão como o "The voice".

    Pedro Couri: Eu vejo que a princípio há uma possibilidade de visibilidade para os concorrentes no processo eliminatório. No decorrer do programa, vez ou outra pode acontecer um direcionamento da expressão individual de cada um, o que acaba produzindo um formato.

    Daniela Aragão: Você não acha que há uma tentativa de adequar o cantor aos moldes pré estabelecidos?

    danielaPedro Couri: Isso acontece não somente no Brasil, mas no mundo inteiro. Se você pega o American Voice em outros países, tende a chegar a uma formatação. Não claramente, mas sempre há uma tendência. Se você pega as eliminatórias, desponta cada um em sua essência, e um é muito diferente do outro. Eles já chegam praticamente prontos e no decorrer do programa eles acabam tendo que aceitar certas condições de seus tutores. O que acaba não talvez minimizando ou diminuindo o que eles são, mas com certeza minando e cerceando a liberdade que eles traziam a princípio e que deveria ser mantida. Teríamos dessa forma um mercado de nichos muito mais diversificados, com menos monopólio de um artista ou outro, mas com uma vida cultural muito mais rica, muito mais expressiva de cada artista. O artista às vezes não é poupado nesse aspecto, não é respeitado porque entram outros fatores que seriam o produto, a venda, o marketing, o patrocinador e os produtores, os grandes distribuidores por trás de tudo isso. Acho que quem teria que dar uma decisão nesse aspecto é o próprio artista, ele tem que se posicionar, não necessariamente política e ideologicamente, mas artisticamente em relação à própria arte. O respeito a arte musical e a arte como um todo, a arte tem que ser uma expressão pura e ela tem que carregar uma autenticidade, isso deveria ser intocável.

    Daniela Aragão: Parece-me que nesses programas atuais prevalece a escola expressionista, há um enquadramento num padrão de canto sempre projetado para fora, com performances mais acentuadas, até mesmo excessivas. Me perguntam porque não vou ao "The voice" e digo que sou de outra escola, bossanovista, minimalista.

    Pedro Couri: Pois é, esse conceito dos malabarismos vocais. Você é impressionista, minimalista. Você trabalha mais com a sugestão, não necessariamente canta para fora, esse trabalho é intrínseco e não tem nada a ver muitas vezes com o que se espera da mídia atual.

    Daniela Aragão: Interessante muitas vezes é a preservação da identidade do cantor, de sua própria marca que muitas vezes reside num defeito sutil dele. Alaíde Costa, por exemplo, traz a língua presa que é uma marca sua inconfundível. É importante a preservação da marca que singulariza o cantor.

    Pedro Couri: Exato, alguns tem até o que você não sabe. Frank Sinatra que era The Voice, ele era conhecido como "a voz", um intérprete acima de tudo. A Elis Regina por exemplo, tinha uma voz belíssima, sempre se mostrou como uma intérprete. Ela nunca dava como findo um trabalho em que ela não pudesse ser algum personagem ou alguém em nome da música, não em nome de si própria. Ela junto com a música e a música em primeiro plano, se isso não acontecesse a música não estava boa para Elis. Eu imagino pela seriedade dela, por ter deixado tantas marcas, tantos divisores de águas. A interpretação valia para Elis, a interpretação é o que a música pede de verdade, mais a sua maneira de expressar isso, nessa sua maneira aparecem as peculiaridades. O que poderia parecer um defeito eventualmente, ou uma forma caricatural, a partir da forma com que a pessoa utiliza isso se torna uma marca. Isso todo cantor tem, você quando busca não somente a voz, mas a personalidade artística do cantor.

    Daniela Aragão: Traz muito da emoção.

    Pedro Couri: Sem dúvida. Quando você consegue ouvir uma música que é expressão pura. Você sabe que aquela pessoa passou pelos estágios do estudo, da técnica, mas que ela tinha tão claro que um dia chegaria a um objetivo tal. Seria a pura expressão da arte, quando ela chega a esse ponto alcança um grau de maturidade grande, mas ela precisou passar pelos estágios.

    Daniela Aragão: Para você quais seriam as grandes vozes, sejam da música lírica ou popular?

    Pedro Couri: Para mim a grande diva é Maria Callas, pude observar numa entrevista quando ela disse que o cantor quando é um grande cantor e intérprete deve conhecer todo o libreto de uma ópera, todo o libreto daqueles personagens com as quais ele contracena e conhecer toda a música. Quando ouvi isso de Maria Callas que foi a grande diva, a grande referência, fiquei tocado. Tinham cantoras com um material vocal até mais bonito que ela, mais aprazível, mas Callas foi uma grande intérprete. Uma outra grande diva é Elis Regina, outra mulher que não pode faltar. Acho que a mulher é muito expressiva, quando ela consegue se expressar.

    Daniela Aragão: Elis Regina certa vez disse "Nada para mim na vida é mais importante que cantar, nem ter filho".

    Pedro Couri: Isso é justificável, é uma decisão difícil que acaba sendo um sacerdócio. Uma devoção constante, completa, é vocacional. Era um prazer para ela cantar, mas era sobretudo uma necessidade. Ela não seria a Elis se não cantasse. Maria Callas idem, por motivos diversos, por questões pessoais em dado momento de sua vida ela preferiu a Callas à Maria. Ela numa determinada fase da vida é muito mais feliz e resolvida como intérprete do que como pessoa. Por motivos amorosos, com Onassis e tal, ela prefere os palcos. Quando escuto Maria Callas eu entendo o texto, entendo o personagem. Ela entrava para fazer o recital voz e piano sem necessitar de cenário, pois trazia dentro de si a música inteira. É impressionante, é uma aula de como deve ser um intérprete. Elis era a mesma coisa, uma grande cantora. Cássia Eller também era uma cantora muito versátil, a Angela Rô Rô, outra fantástica cantora. Enfim, cantar é acima de tudo emoção.

    Daniela Aragão: Obrigada pela entrevista maravilhosa.


    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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