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    Diagnóstico precoce da depressão pode evitar doenças cardiovasculares

    Eduardo Maia
    Repórter
    14/06/2014
    Maria Augusta de Mendonça Lima

    O diagnóstico precoce de pacientes com depressão e ansiedade pode evitar a evolução de doenças cardiovasculares. A conclusão é da pesquisa da cardiologista juiz-forana Maria Augusta de Mendonça Lima, que buscou analisar pacientes nessas condições e propor uma solução preventiva através da mudança de hábitos. 

    Defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Cardiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em abril passado, a pesquisa de doutorado propôs uma análise do estado de saúde de 103 pacientes dos hospitais dos ambulatórios de doenças cardiovasculares do Hospital João Penido e de psiquiatria do Hospital Universitário da UFJF, em Juiz de Fora, para verificar a possibilidade de desenvolverem alguma doença do coração.

    "Comecei a investigar através do dado mais precoce, que é a alteração vascular. Antes de aparecer o processo obstrutivo das coronárias ou das artérias em geral, a gente tem a inflamação. Buscando como se estabelece essa inflamação, começamos a perceber a disfunção endotelial - um dos fatores que vão gerar a aterosclerose, que é a principal causa da doença cardiovascular", explica.

    A médica reconhece que a relação entre a ansiedade e a depressão com as doenças cardiovasculares já era um fator conhecido da Medicina. Entretanto, sua proposta era desenvolver uma forma de conhecer os fatores de risco e, de forma preventiva, acompanhar os pacientes para evitar que possam desenvolver a doença cardiovascular. "Depois que o paciente já tem a doença, é possível administrá-la por anos, mas descobrindo antes, é possível reverter. Com a análise estatística, confirmamos que o ambulatório de psiquiatria tinha 40% de pacientes com ansiedade e depressão. É um número bem significativo", constata.

    A análise dos pacientes foi iniciada em outubro de 2011 e finalizada em maio de 2013. Os 103 pacientes dos ambulatórios de cardiologia e psiquiatria foram submetidos a exames mais comuns como glicemia, colesterol, triglicérides e também aos mais específicos, que possibilitariam identificar a inflamação - Proteína C reativa, Lipoproteina (Lp-PLA 2) e Interleucina 6. Além destes exames, os pacientes também foram submetidos a testes de reatividade vascular através da ultrassom do braço.

    "A gente quis estudar pacientes que não apresentassem ainda as doenças cardíaca ou vascular. Caso já apresentassem algum indício, o paciente não entraria na pesquisa. Isso me estimulava muito, pois quando eu pegava uma situação precoce e convencendo os pacientes a mudar alguns hábitos, eu teria a chance de reverter a doença", conclui.

    Entre as razões que levam a pessoa depressiva a desenvolver a doença estão hábitos sedentários, desobediência às recomendações médicas, tabagismo e outros parâmetros como menor variação da frequência cardíaca e recusa a aderir ao tratamento.

    Acompanhamento

    Depois de defender a tese junto ao Programa de pós-graduação, Maria Augusta começará a acompanhar os pacientes que contribuíram para a pesquisa. "Estou encaminhando uma carta dando ciência do resultado do trabalho, e os resultados dos exames específicos serão enviados agora. Além disso, estou programando de atender a todos novamente, repetindo os exames e propor um acompanhamento no ambulatório."

    De posse das informações da pesquisa, a médica também irá propor à diretoria do Hospital João Penido para que seja criado um ambulatório psiquiátrico, a fim de acompanhar os pacientes. "O tratamento com o psiquiatra também é importante. E este resultado não pode parar na pesquisa. É preciso constituir uma política pública para mudar isso", propõe.

    Segundo a médica, anualmente, 300 mil pessoas morrem no Brasil vítimas de doenças cardiovasculares. Ela destaca ainda que 17,5 milhões tiveram a doença no mundo em 2008 e que, até 2020, atinja 30 milhões de pessoas. "A população está sob risco e a gente precisa ter uma ação mais agressiva em relação à prevenção desta doença. A cardiologia está pesquisando há anos, uma forma como a gente poderá interferir mais", justifica.

    Perfil socioeconômico

    Uma das conclusões que foi possível identificar durante a pesquisa foi perceber que a ocorrência de doenças cardiovasculares também está atrelada à condição socioeconômica dos pacientes. "Comecei a perceber que quanto menor o nível socioeconômico, maior a possibilidade da pessoa ter a doença. Mais da metade dos pacientes não tinha Ensino Médio. Além disso, dois terços dos pacientes renda por pessoa na família correspondente a 0,75% do salário mínimo. A inconformidade com a situação financeira da família leva pessoas ao quadro de depressão e consequentemente à doença", descreve.

    A pesquisadora atenta para que haja uma mudança das políticas públicas de forma a propiciar um desenvolvimento social. "Há um consenso entre os médicos de que é preciso uma mudança política. Tem que haver uma estrutura que facilite o acesso à educação, para que as pessoas cresçam do ponto de vista financeiro e tenha condições de se manter. Não basta apenas parar de fumar, fazer atividade física, é preciso ampliar a questão econômica também", propõe a pesquisadora.

    Dados

    Perfil do grupo de 103 pacientes que buscam atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS)

    64% - portadores de síndrome depressivo ansiosa (pacientes com ansiedade e/ou depressão)

    26% dislipidemia (presença de níveis elevados de lipídios - gorduras - no sangue)

    68% apresentava alteração de colesterol e/ou triglicérides

    60% dos pacientes apresentou hipertensão arterial

    Dados socioeconômicos

    63,1% não tinham ensino médio

    51,5% não tinham carteira assinada

    75% apresentava renda média, por dependente, menor que um salário mínimo

    Condições relacionadas à saúde física e hábitos

    31% tinha sobrepeso

    37% obesidade

    59,2% possuem circunferência abdominal acima das medidas consideradas normais - mais relação com o acúmulo de gordura, o que, de acordo com a médica, é um fator de risco em ascensão

    24,3%  são fumantes

    47,7% - sedentarismo

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