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    Ana Paula Ladeira Ana Paula Ladeira 18/07/2014

    Vale tudo pela audiência?

    Nova atração do Multishow faz paródia dos programas de auditório e escancara o pior da TV brasileira

    tudoRede Globo, SBT, Record, Bandeirantes ou Rede TV... Uma zapeada rápida na programação vespertina ou dominical por todas essas emissoras abertas mostra o que elas, afinal, têm em comum: o apelo na busca por audiência. Seja um programa de variedades, de auditório ou um noticiário policial, o segredo é oferecer ao público aquilo que ele gosta e que dá audiência, independente do teor da programação e da qualidade final.

    Com uma lista interminável de programas ruins, não faltou inspiração para que Tatá Werneck e Fábio Porchat satirizassem muito do que se assiste na TV brasileira. No novo programa do Multishow, Tudo pela audiência, os humoristas fazem uma referência explícita a apresentadores como Sílvio Santos, Gugu Liberato, Faustão, Márcia Goldschmidt e Sônia Abrão, ridicularizando aquilo que se costuma ver na televisão: mulheres e homens semi-nus, anões fantasiados, travestis e muito bate-boca entre dois convidados, à moda Casos de Família.

    Além de fazerem piada com os clichês para lá de batidos, como chamar o intervalo comercial para aumentar o suspense de uma revelação, ou explorar a emoção de uma fã encontrando seu ídolo, os humoristas vão um pouquinho mais fundo e ironizam o fato de a plateia pertencer à Classe C. Numa alusão ao quadro "Tirando o Chapéu", do programa de auditório do Raul Gil, "vestiram" uma mulher com pastéis e constrangeram o convidado do programa de estreia, o cantor Naldo, perguntando se ele "tiraria o pastel" para Angela Merkel. Seja verdade ou mentira, o cantor e a plateia deixaram claro que não sabiam quem era a chefe de governo da Alemanha, e mostraram que o buraco pode ser um pouco mais embaixo. Quando o telespectador começa a esquecer o objetivo principal do programa, os apresentadores tratam de lembrar que é preciso aumentar a audiência. E dispara Fábio Porchat: "Nunca vi dois apresentadores se pegarem ao vivo na frente das câmeras; quer tentar?".

    Brincadeiras à parte, este programa de humor tão afiado serve para levantar um importante debate sobre a qualidade da programação da TV aberta. Afinal de contas, a maioria das emissoras parece não estar realmente preocupada com a qualidade do conteúdo transmitido, fato comprovado pela recorrente venda de seus espaços para a exibição de programas religiosos e de tele-vendas, ou pela transmissão de conteúdos tão apelativos. Por outro lado, os mecanismos que servem para levantar a audiência dos programas sensacionalistas talvez sejam exatamente os mesmos que servem para segurar a audiência do novo programa do Multishow. Ou seja, Tudo pela audiência continua oferecendo justamente os conteúdos apelativos por ele criticados. Ridicularizados ou não, as mulheres peladas, os anões fantasiados e os gordinhos e marombados de uma plateia Classe C continuam ali, alimentando a audiência e mostrando que o belo e o grotesco podem chamar a atenção.


    Ana Paula Ladeira é Jornalista pela Universidade Federal de Juiz de Fora e Doutora em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense. Pesquisa assuntos relacionados especialmente à TV.

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