Paulo César Paulo César 20/1/2012


Exclusão de Tropa de Elite 2 da disputa do Oscar já era esperada

A Academia de Artes Cinematográficas anunciou nesta quinta-feira, 19 de janeiro, os pré-selecionados para disputar o Oscar de melhor filme estrangeiro, e para a decepção dos brasileiros, Tropa de Elite 2: O inimigo agora é outro, de José Padilha, ficou fora. Apesar dos lamentos, era de se esperar que a produção brasileira não conseguisse a tão sonhada indicação, devido a aspectos não filmográficos. O primeiro grande problema é o tempo. Pois se uma produção que, em outubro, figura como uma das favoritas, como no caso de J. Edgar de Clint Eastwood, chega a meados de janeiro com pouquíssimas chances de estar entre os dez, pois o lobby e a visibilidade nesse meio tempo é o que verdadeiramente conta. Imagine, então, um filme estrangeiro lançado há um ano e três meses?

Além disso, o currículo do longa tem de ser muito bom. Não adianta ter triunfado apenas nas bilheterias nacionais, tem que frequentar festivais, e mesmo que não ganhe, é importante ficar ali marcando presença e chamando a atenção da imprensa estrangeira. Um dos mais fortes na disputa este ano, o iraniano A Separação, só está nesta condição, claro, além de ser um bom filme, por já constar, em sua trajetória, o Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim, e o Globo de Ouro de filme estrangeiro, conquistado no último dia 15, isso só para citar os mais conhecidos. O que se sabe sobre a trajetória de Tropa 2 é que esteve Berlim e, a pouco, começou a ser exibido no circuito americano, com boas críticas.

O que falta ao cinema brasileiro é se preparar para ganhar o prêmio, e não ter vergonha disso. A máxima de que Oscar não é garantia de um bom filme pode até ser verdadeira, tanto que o considerado melhor de todos, Cidadão Kane de Orson Welles, não o venceu. Mas, em grande maioria, os vencedores são muito bons. Esse preconceito com os filmes colecionadores de Oscars, tachados de terem apenas pretensões acadêmicas é um desrespeito ao formidável Ben-Hur de Willian Wyler, vencedor de onze merecidas estatuetas. Ele é tão importante e digno quanto a Palma de Ouro do Festival de Cannes.

Um dos filmes nacionais de maior êxito internacional serve como exemplo de preparação. Central do Brasil de Walter Salles, nosso último representante na categoria, saiu colecionando festivais, e vencendo em alguns deles, além de contar com uma atuação antológica de Fernanda Montenegro. Tudo isso ocasionou na dupla indicação para atriz e filme estrangeiro em 1998, perdendo para Gwyneth Paltrow (Shakespeare Apaixonado) e A Vida é Bela respectivamente.

Cidade de Deus de Fernando Meirelles sofreu com a indiferença do círculo de críticos brasileiros por ser considerado violento demais. Isso não o impediu de, com as próprias forças e um bom distribuidor, receber quatro indicações em 2004 (diretor, roteiro adaptado, fotografia e montagem), e mais dezenas de prêmios mundo afora. Porém como não era o representante de seu país natal, não pode disputar a categoria na qual teria mais chances de vencer.

Porém, o maior de todos os erros talvez tenha sido a escolha de Tropa 2 para representar o país. O filme já não tinha o mesmo calor de quando estava com tudo nas bilheterias e agradando a crítica. O sensato seria ter escolhido algo mais recente, como O Palhaço de Selton Mello, que mesmo não tendo um currículo vasto em festivais, tinha o fator novidade e um roteiro mais atrativo aos olhos dos acadêmicos a seu favor. Mas nossos críticos sempre erram.

Dentre os filmes que ainda continuam na disputa, é difícil apontar os prováveis indicados, apesar de A Separação ser não só favorito a uma das vagas, mas como também a levar a estatueta. Além do filme brasileiro, outras ausências podem ser sentidas pelo seu sucesso de crítica como o finlandês O Porto, o chinês The Flowers of War, o belga O Garoto da Bicicleta e o espanhol A Pele que Habito, sendo que os dois últimos nem estavam na disputa.

Contudo, não é para os fãs do Capitão Nascimento e companhia ficarem tristes. Isso não significa falta de qualidade, apenas um infortúnio e falta de preparação, Tropa de Elite 2 continuará a ser um dos melhores da história de nosso cinema, coisa que a falta de um Oscar pode apagar.

Mais críticas

Paulo César da Silva é estudante de Jornalismo e autodidata em Cinema.
Escreveu e dirigiu um curta-metragem em 2010, Nicotina 2mg.

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