Juiz de Fora - MG

Cientista político analisa cenário de crise no Brasil

Professor da UFJF acredita em possível impeachment, mas afirma que atitude feita no cenário atual trará insegurança para futuros presidentes

Lucas Soares
Repórter
12/09/2015

A crise política e econômica instaurada no Brasil no primeiro ano do segundo mandato de Dilma Rousseff (PT) a frente do Governo Federal levantou várias dúvidas da população brasileira quanto à continuidade da presidente no poder. Na última pesquisa realizada pelo instituto Datafolha, apenas 8% dos entrevistados aprovavam o governo, enquanto 71% reprovaram e outros 20% o consideram "regular".

O tema tomou proporções maiores quando, no último dia 3 de setembro, o vice-presidente Michel Temer (PMDB), declarou ser "difícil" Dilma resistir ao restante do mandato com baixa popularidade. Em resposta, Dilma afirmou ao jornal Valor Econômico que não renunciaria e que acredita que o país sairá da crise.

Diante de tantas dúvidas sobre a situação política no Brasil, o Portal ACESSA.com convidou o professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e doutor em Ciência Política, Paulo Roberto Figueira Leal, para analisar o cenário atual. Confira a íntegra da entrevista.

ACESSA.com - Como você enxerga os movimentos das sociedades organizadas e repartições públicas, como greves e protestos, requerendo direitos e negociações salariais?

Paulo Roberto (foto ao lado) - A gente precisa historiar o último ano da política brasileira. A Dilma se reelegeu com 3 milhões de votos de frente. É uma vantagem menor do que as anteriores, mas não é desprezível. E quais foram as bases que reelegeram a Dilma? Do ponto de vista regional, ela teve uma votação mais concentrada no Nordeste, em Minas e no Rio, estados no qual ela ganhou. Nas bases sociais, grandes partes dos votos veio dos segmentos que ascenderam socialmente e, grandes partes dos movimentos sociais organizados de esquerda, votaram nela no segundo turno. Parte da complicação atual do governo é que ele perde apoio junto aos segmentos que sustentaram sua vitória.

Se você pegar o ajuste fiscal, ele cobra um preço das pessoas que ascenderam socialmente, e ajuda a entender a brutal queda de popularidade da Dilma. As milhares de pessoas que foram às ruas no dia 15 de março, assim como essas últimas, já não tinham votado nela. Eles votaram no Aécio, as pesquisas mostram isso. O dramático para o governo é perder apoio junto aos que preferiam este governo em relação ao retorno de um projeto tucano. Parte da dificuldade dela é que neste primeiro ano do segundo mandato, ela perdeu esse apoio e a equação ficou difícil de fechar. Tem que fazer um ajuste fiscal, que cobra um preço nesses setores, que diminuem o apoio ao governo, que passa a ter menos apoio e enfrenta mais dificuldades congressuais e implementa menos agendas para sair da crise. As universidades públicas é algo parecido. A maior parte das pessoas vinculadas às universidades públicas preferiu o PT ao PSDB, dada a memória do que foram as gestões tucanas. Na hora que se tem o ajuste fiscal, que se cobra um severo preço das universidades públicas, cria-se um severíssimo preço para o governo. Perde-se uma base que, teoricamente, é mais próxima a ele do que da oposição. Para onde isso vai caminhar, ninguém sabe.

ACESSA.com - O Eduardo Cunha (PMDB), presidente da Câmara, era da base governista e se declarou oposição. Como o governo reagiu à isso?

PR - Na prática, ele nunca foi. Apenas declarou o que ele já era. Desde que assumiu a presidência, criou problemas para o governo. Ele votou no Aécio, fez campanha dentro do partido para que não se apoiasse a Dilma e ele nunca foi alguém próximo ao governo. Isso ajuda a entender porque tentaram impedir que ele vencesse na Câmara. O fato dele anunciar ser de oposição não muda o fato de que sempre foi. Isso não é novo. A variável que impacta é a crise econômica, a lapidação das bases de apoio de segmentos que reelegeram o PT três vezes, desde a vitória do Lula (em 2002), e um ambiente no qual essas crises se retroalimentam. A dificuldade de sair da crise econômica, alimenta a crise política. A crise política cria entraves para sair da crise econômica e, quanto mais esse processo se aprofunda, mais dilapida apoio social ao governo. Quanto mais as bases sociais ficam fragilizadas, é difícil sair dessa sinuca. O Eduardo Cunha é só a cereja do bolo. E uma cereja do bolo que tem poder de criar problemas para o governo, agendando ou desagendando temas que criam problemas a presidência. Parte do problema econômico deriva que o congresso aprovou uma série de pautas profundamente complicadas para quem quer fazer economia.

ACESSA.com - A que o senhor atribuí toda essa crise econômica que o Brasil está vivendo este ano?

PR - É uma confluência de variáveis. Um: o cenário internacional mudou. Aquele boom das commodities, das importações da China e do crédito mais fácil ao longo dos anos 2000, mudou. Dois: a capacidade de continuar crescendo a partir de consumo interno, sobretudo a partir de 2005, com muitas pessoas indo ao mercado de consumo, aumento da renda média do trabalhador, política de aumento real do salário mínimo, produziu um efeito econômico, que seus limites escasseiam. Por fim, o ambiente político contamina a economia. Parte do processo de deterioração econômica, deriva de que parte desses agentes, como grandes empresas e investidores, temem por não saber o que vai acontecer amanhã no governo, se ele vai continuar lá. Em crises políticas, agentes econômicos retraem investimentos e, quanto mais retraem, mais a crise se reinstala. É um ciclo vicioso de difícil solução, mas que ao mesmo tempo, não se atribuí a uma única causa. Além disso tudo, tem a Operação Lava Jato, que aumenta a imprevisibilidade do sistema. Quais vão ser os próximos líderes congressuais que vão aparecer em alguma denúncia? Isso desarruma tudo o que foi feito nas últimas décadas pelos governos tucanos e petistas para construir maiorias no congresso e aumenta a instabilidade.

ACESSA.com - Essas medidas que o governo federal tem feito para combater a crise estão sendo corretas?

PR - Depende do ponto de vista de preferências econômicas. Correntes econômicas menos liberais, talvez sustentassem que o ajuste foi duro demais e mal equacionado, de modo a cobrar um preço muito grande dos segmentos sociais que dão sustentação ao governo. Os segmentos mais liberais vão sustentar que deve se dar o ajuste agora, aumentando juros, diminuindo fortemente o orçamento, porque isso em algum momento vai ter um impacto positivo. Cada um vai ter uma posição. Eu acho que essa política está muito dissonante da argumentação que lhe deu a vitória nas urnas, o que ajuda a entender a crise de popularidade. A vitória se deu com discurso à esquerda e ao implementar uma política clara de arrocho fiscal à direita, compromete os segmentos que lhe deram a vitória.

ACESSA.com - Muito se fala em impeachment ou renúncia da presidente. Você acredita que possa haver uma mudança no governo federal?

PR - A gente passa um quadro de profunda instabilidade. Qualquer um que preveja o que vai acontecer com grau de confiança alto, está chutando. O terreno é movediço e pode acontecer tudo. É importante as pessoas não perderem a visão à longo prazo. Um impeachment, a partir de uma maioria parlamentar ocasional, que leve a saída da presidente por um golpe parlamentar, que é o que está se gestando e está em curso, não cobra o preço no governo Dilma. Cobra o preço de todos os presidentes da república nos anos vindouros ficarem temerosos de, em momentos de impopularidade, possa haver uma maioria na Câmara para tirá-los de lá. Impeachment não foi feito para tirar presidente impopular, foi feito para tirar presidente que cometeu crime. Até o momento, se houver uma tentativa de impeachment, ela vai ser conduzida por duas pessoas que estão denunciadas, Eduardo Cunha e Renan Calheiros, contra alguém que não foi. Então, olha a gravidade disso. Não se trata de gostar ou não gostar do governo, de apreciar ou não. Trata-se de ver que há um risco na estabilidade política futura se prosperar essa tese. A oposição mais responsável deveria evitar apoiar essa tese. As consequências não se limitariam aos anos Dilma. Isso é perigosíssimo para a democracia brasileira e pode acontecer. Não é impossível que haja uma maioria capaz de aprovar a abertura do processo de impeachment. Isso seria profundamente danoso.

ACESSA.com - Como você enxerga parte do funcionalismo público em greve hoje, como professores, técnicos, INSS?

PR - A greve é um direito legítimo dos trabalhadores, que expressa uma insatisfação das categorias, que foi muito comum em governos anteriores. Ao longo dos ciclos do governo do PT, foram três greves nas universidades federais. Foram menos do que nos oito anos do governo FHC. A insatisfação expressa um dado objetivo, de pessoas que acreditam que há possibilidades de outro rumo de gestão, mas é curioso. Ao mesmo tempo que esses movimentos reivindicam legitimamente um fluxo maior de recursos do orçamento e reajustes que recomponham os custos da inflação, são movimentos que não querem ver esses próprios movimentos apropriados por um discurso golpista. É uma posição complexa. As mesmas bases sociais que estão em greve, provavelmente não gostariam de ver um impeachment, apesar de estarem reclamando.

ACESSA.com - Essa crise de impopularidade do governo Dilma e do PT irá impactar nas eleições municipais em 2016?

PR - É provável que sim. Mas é tudo conjectura. Eleições municipais operam por questões municipais. Mesmo em um momento em que o PT vai ter um preço a pagar, que é revelado em todas as pesquisas, é possível que em algumas cidades, prefeitos petistas bem avaliados ganhem a eleição. O cenário sugere que o PT vai cair, pode perder prefeituras importantes, mas ao mesmo tempo pode ganhar aqui ou ali, não em função boa avaliação do partido, mas por conta da boa avaliação de governos que o PT eventualmente tenha.

ACESSA.com - Como você enxerga o PT em Juiz de Fora?

PR - É um partido relevante na cidade. A Margarida Salomão disputou as últimas duas eleições e chegou ao segundo turno em ambas e tem uma história na cidade. O que eles farão ou não, não sei. Mas tendo chances de vitória, independente do nome, terá um papel a desempenhar na cidade. Não pode-se desconsiderá-los.

ACESSA.com - Como a desvalorização do real em relação ao dólar e o rebaixamento do Brasil na agência Standard & Poor's impacta no cenário político?

PR - Depende de que lado você olha. O aumento do dólar, por exemplo. Para as exportações brasileiras, é ótimo. Nos últimos três meses, a balança comercial voltou a ser superavitária porque ficou mais fácil exportar e mais difícil importar. Para a inflação isso não é bom, porque com frequência, tem alguma implicação. Vários economistas argumentam que a nossa moeda estava durante muito tempo sobrevalorizada, como o Bresser Pereira. Ele dizia que o principal problema da nossa economia era esse, que dificultava a vitalidade da exportação e da capacidade econômica. O aumento do dólar tem um lado que pode não ser ruim, reequilibrando a possibilidade de inserção de exportações brasileiras no cenário internacional. Como isso se ajustará, ninguém tem certeza.

Em relação as agências, enquanto duas mantiverem o Brasil como grau de investimento, não há problema. O problema é se duas, das três grandes, rebaixarem, e aí uma série de fundos não podem aplicar recursos no país. Isso é conjuntura e pode ser que daqui um ano se recupere. É bom lembrar que o grau de investimento foi conquistado em 2008. Então, há um certo oportunismo no discurso da oposição de que o PT foi o responsável pela perda do grau de investimento, mas quando ele foi responsável por ganhá-lo também, depois de seis anos do governo Lula. Parte do problema econômico é alarmado pelo discurso dos segmentos eleitoral e político que o fazem.

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